Bispos do Sul de Minas lançam cartilha para orientar participação política nas eleições de 2026
Vívian Marler / Projeto Encantar a Política
Em um período marcado pela polarização, pela circulação de notícias falsas e pelo uso da fé em disputas eleitorais, a Província Eclesiástica de Pouso Alegre apresenta a ‘Cartilha de Orientação Política – Eleições 2026’. O material reúne a Arquidiocese de Pouso Alegre e as Dioceses da Campanha e de Guaxupé e foi elaborado para ajudar os fiéis a exercerem a cidadania com liberdade, responsabilidade e compromisso com o bem comum.
Assinada por Dom José Luiz Majella Delgado, C.Ss.R., arcebispo de Pouso Alegre; Dom Walter Jorge Pinto, bispo da Campanha; e Dom José Lanza Neto, bispo de Guaxupé, a cartilha parte de uma convicção, a política não é uma realidade distante da vida das pessoas. Ela está presente nas decisões que afetam a saúde, a educação, o trabalho, a moradia, a alimentação, a segurança e a preservação do meio ambiente.
Por isso, o documento afirma que falar de política também é falar de fé. A missão evangelizadora da Igreja, segundo a cartilha, alcança a vida inteira das pessoas — inclusive a dimensão social e política. Participar da construção da sociedade é apresentado como um dever de cidadania e uma forma concreta de viver a caridade, entendida como compromisso com a dignidade de cada pessoa e com o bem de todos. “A política é arte de viver bem em sociedade”, destaca o texto. Nesse sentido, todos participam da vida política, seja por meio do voto, da atuação em comunidades e movimentos sociais, do acompanhamento das políticas públicas ou da disposição para assumir responsabilidades públicas.
Um dos principais alertas da cartilha diz respeito ao uso indevido da religião durante as eleições. O documento recorda que a Igreja Católica não possui partido, candidatos oficiais ou listas de nomes autorizados para receber o voto dos fiéis. Também afirma que ninguém pode se apresentar como “o candidato da Igreja”.
A orientação é para que os eleitores desconfiem de quem utiliza o nome de Deus para conquistar votos, espalhar medo ou ameaçar aqueles que pensam de maneira diferente. Para a Província Eclesiástica, a fé deve promover a união, a defesa da vida e a fraternidade, e não ser transformada em palanque eleitoral.
O texto também chama atenção para a presença repentina de candidatos em igrejas e comunidades apenas durante o período de campanha. A cartilha lembra que a propaganda eleitoral dentro dos templos é proibida e reforça a necessidade de preservar os espaços religiosos de qualquer instrumentalização político-partidária.
A defesa da vida aparece na cartilha de maneira ampla, relacionada tanto à proteção da vida humana em todas as suas etapas quanto à garantia de condições dignas para aqueles que já nasceram e enfrentam a pobreza, a exclusão e a falta de oportunidades.
Entre os critérios propostos para a escolha dos candidatos estão o compromisso com a saúde, a educação, a alimentação, a moradia, o acesso à água, a terra, o trabalho decente, o salário justo e a preservação da Casa Comum.
A opção preferencial pelos pobres é apresentada como um critério central da fé cristã. Por isso, o eleitor é convidado a observar se os candidatos conhecem as necessidades reais da população e se apresentam propostas concretas para enfrentar as desigualdades sociais. “O bom político trabalha para o bem completo do povo”, afirma a cartilha, ao defender uma política comprometida com o desenvolvimento integral das pessoas e não apenas com interesses individuais, partidários ou econômicos.
A cartilha dedica parte importante de suas orientações ao combate à desinformação. O documento recomenda que os eleitores pesquisem a trajetória dos candidatos, conheçam os partidos, verifiquem quem financia as campanhas e confirmem a veracidade das informações antes de compartilhar conteúdos nas redes sociais.
Montagens, notícias falsas, promessas fáceis e discursos que apelam apenas para a emoção podem influenciar escolhas e enfraquecer a democracia. Por isso, a orientação é acompanhar debates e entrevistas, observar se os candidatos apresentam propostas reais e conhecer as atribuições de cada cargo em disputa.
A cartilha também recomenda que o eleitor não baseie sua decisão exclusivamente em pesquisas eleitorais. O voto, segundo o material, deve resultar de uma análise cuidadosa dos projetos, da trajetória dos candidatos, dos princípios democráticos e do compromisso com a soberania nacional. A compra de votos é igualmente rejeitada. O documento orienta os fiéis a não venderem o voto, não aceitarem promessas oportunistas e denunciarem possíveis irregularidades ao Ministério Público.
Para os bispos, a participação política não termina no dia da eleição. Depois da apuração, é necessário aceitar democraticamente o resultado e acompanhar o trabalho de quem foi eleito, inclusive daqueles que não receberam o próprio voto.
Fiscalizar leis, mandatos e o uso dos recursos públicos é apresentado como parte da responsabilidade cidadã. A cartilha também incentiva a participação em conselhos de bairro, movimentos sociais, pastorais e organizações comunitárias.
Outra sugestão é a criação de ‘Grupos de Fé, Política e Cidadania’ nas paróquias, como espaços de estudo, diálogo e acompanhamento da realidade local. A proposta é que a boa política seja construída a partir das comunidades e das necessidades concretas do povo. Ao final, o documento convida os cristãos a caminharem “com viva esperança na boa política”, compreendendo que servir na vida pública pode ser uma forma nobre de cuidar do próximo.
A ‘Cartilha de Orientação Política – Eleições 2026’ é assinada pela Província Eclesiástica de Pouso Alegre e conta com a autoria e direção geral dos três bispos que integram a província. A comissão de redação foi formada pelo padre Paulo Adolfo Simões, da Arquidiocese de Pouso Alegre; pelo padre Renan Brito Silva, da Diocese de Guaxupé; e pelo professor doutor Elvis Rezende Messias, da Diocese da Campanha.
A cartilha completa pode ser divulgada nas comunidades e grupos de convivência como instrumento de formação para as eleições de 2026. Leia a cartilha na integra em Cartilha-Eleicoes-2026-Provincia-2026
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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras. Siga nosso instagram https://www.instagram.com/encantarapolitica/
