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Quando a fé vira instrumento de campanha, a democracia perde espaço para a manipulação

Quando a fé vira instrumento de campanha, a democracia perde espaço para a manipulação

Vívian Marler / Projeto Encantar a Politica

Em apresentação, o professor Élio Gasda alerta para o uso do nome de Deus como estratégia eleitoral e propõe a dignidade humana e o bem comum como critérios para o voto

Em tempos de campanhas marcadas por discursos inflamados, desinformação e disputas nas redes sociais, muitas pessoas se veem diante de uma pressão difícil de nomear: votar não apenas a partir de propostas, mas segundo a religião, a crença ou a orientação de determinada liderança.

É nesse cenário que o professor Dr. Élio Gasda propõe uma reflexão sobre ‘a instrumentalização da fé pela política’. A apresentação chama atenção para os riscos de transformar o nome de Deus em ferramenta de convencimento eleitoral e de substituir o debate sobre políticas públicas por declarações religiosas. A questão não está na presença de pessoas religiosas na política. A fé pode inspirar compromissos com a justiça, a paz e a defesa da vida. O problema surge quando ela é usada para legitimar candidatos, silenciar críticas ou classificar adversários como inimigos do bem.

Na exposição, Élio Gasda lembra que a democracia tem como fundamento a soberania popular. O poder político emana do povo, e não de uma religião, de uma liderança religiosa ou do poder econômico. Para ele, uma sociedade democrática precisa estar sustentada por três princípios, a tolerância acompanhada da laicidade do Estado, a separação entre os poderes e a justiça social.

A laicidade não significa rejeitar a fé. Significa garantir que todas as pessoas sejam tratadas de forma igual, sejam religiosas, ateias ou agnósticas. O Estado laico protege a liberdade de crença justamente porque não permite que uma religião seja imposta a toda a sociedade. Esse princípio se torna ainda mais importante durante as eleições. O voto pertence ao cidadão, não à instituição religiosa. Uma comunidade de fé pode contribuir para a reflexão sobre a realidade, mas não deve controlar a consciência de seus membros. Como destaca o professor, “religião não é plano de governo”.

Um dos alertas apresentados é o esvaziamento do debate político. Em vez de discutir educação, emprego, saúde, meio ambiente, segurança, moradia ou defesa dos povos indígenas, candidatos podem tentar conquistar o eleitor apenas pela identidade religiosa. A pergunta deixa de ser “qual é o projeto de governo?” e passa a ser “esse candidato acredita em Deus?”. Com isso, a religião corre o risco de ser reduzida a um selo de aprovação eleitoral.

Élio Gasda questiona essa lógica ao afirmar que o critério não deve ser o quanto um político fala sobre Deus, mas a coerência entre aquilo que afirma professar e a maneira como age na vida pública. A fé, nesse caso, não pode funcionar como uma blindagem contra a avaliação. Dizer-se cristão não torna automaticamente uma pessoa ética, justa ou comprometida com os mais pobres. É necessário observar decisões, práticas, alianças e prioridades.

A instrumentalização da fé também pode aprofundar a intolerância. Quando um candidato ou grupo político é apresentado como representante do mal, o diálogo deixa de ser possível. A crítica passa a ser interpretada como ofensa religiosa, e o adversário político deixa de ser reconhecido como alguém que também participa da sociedade. Essa lógica atravessa famílias, amizades e comunidades. Pessoas que antes conseguiam conversar passam a se afastar ou a se hostilizar porque escolhas políticas são tratadas como provas de fidelidade religiosa. A democracia, porém, exige convivência com a diferença. O desacordo faz parte da política. O que não pode ser normalizado é a violência verbal, a perseguição ou a tentativa de controlar o voto por meio do medo e da culpa.

Ao recorrer aos ensinamentos de Jesus, o professor propõe que os cristãos avaliem a prática dos candidatos a partir de critérios concretos: o cuidado com quem tem fome, a defesa dos pobres, o acolhimento dos estrangeiros, a proteção dos que sofrem, a busca pela paz e o compromisso com a misericórdia. Essa perspectiva desloca a fé do campo da propaganda para o campo da responsabilidade.

Não basta usar símbolos religiosos, citar versículos ou pronunciar o nome de Deus em discursos. É preciso perguntar se as ações defendidas promovem a dignidade humana, a justiça social e o cuidado com a casa comum. A apresentação também recorda que Jesus não autorizou nenhum político a falar em seu nome. Por isso, usar Deus como argumento para impedir o questionamento ou legitimar qualquer projeto político representa uma forma de abuso da fé.

O voto de uma pessoa não pode ser tratado como propriedade de uma igreja, de um pastor, de um padre, de um líder religioso ou de qualquer autoridade comunitária. A participação política de cristãos e de pessoas de outras tradições religiosas é legítima e necessária. O que precisa ser rejeitado é a transformação da fé em instrumento de dominação.

Uma liderança religiosa pode ajudar a comunidade a refletir sobre os problemas sociais, estimular a responsabilidade cidadã e defender a justiça. Mas não deve substituir a consciência do eleitor nem transformar o altar em palanque. Como afirma Élio Gasda, “altar não pode virar palanque”.

Ao final, a apresentação propõe que os cristãos encontrem na Doutrina Social da Igreja critérios para o discernimento eleitoral. Entre eles estão a defesa da dignidade humana, da justiça, da paz, da amizade social, da proteção dos pobres e do cuidado com o meio ambiente.

Esses valores não devem ser utilizados para excluir quem pensa diferente. Ao contrário, podem contribuir para uma convivência democrática aberta à pluralidade. O bem comum pode ser buscado por diferentes caminhos e por pessoas de diferentes crenças. O que deve estar no centro da política não é a religião particular de um candidato, mas a vida concreta da população.

Em uma eleição, cada pessoa carrega sua história, suas convicções e suas esperanças. Ninguém deveria ter o voto capturado pela culpa, pelo medo ou pela promessa de que uma candidatura representa a vontade divina. A fé pode inspirar o compromisso com a sociedade. Mas a democracia só permanece viva quando o eleitor conserva a liberdade de pensar, discernir e escolher.

Antes de votar, é preciso perguntar menos quem fala de Deus e mais quais atitudes, propostas e decisões realmente defendem a vida, a justiça e a dignidade de todas as pessoas.

ASSISTA NESTE LINK https://youtu.be/sEvhhsn_jyw?si=IZbxS3PI0On6AUGJ

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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras. Siga nosso instagram https://www.instagram.com/encantarapolitica/