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Democracia se fortalece quando o povo participa, afirma Jardel Lopes em encontro sobre as eleições

Democracia se fortalece quando o povo participa, afirma Jardel Lopes em encontro sobre as eleições

Vívian Marler / Projeto Encantar a Política

A democracia não se resume ao momento em que o eleitor deposita seu voto na urna. Ela começa antes, na capacidade de escutar a sociedade, compreender seus problemas e participar das decisões que definem os rumos do país. Essa foi uma das principais mensagens do encontro “Eleições 2026: Democracia, Sinodalidade e Bem Comum”, realizado na noite de 14 de setembro, pelo canal da Cáritas Friburgo, em parceria com a Articulação das Pastorais Sociais da Comissão Regional de Ação Sociotransformadora do Leste 1. O convidado Jardel Lopes, secretário executivo do Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara (CEFEP/CNBB), apresentou a cartilha “Encontros de reflexão e oração sobre as eleições de 2026”.

O material foi elaborado como uma ferramenta para comunidades, grupos pastorais e organizações interessadas em promover rodas de conversa sobre o processo eleitoral. A proposta combina textos bíblicos, cantos, orações, reflexões sobre a realidade e perguntas para estimular o diálogo. A mediação foi conduzida por Tobias, da Articulação das Pastorais Sociais, que destacou a importância de olhar para as eleições a partir da missão da Igreja e de sua responsabilidade diante da vida concreta da população.

Ao apresentar o subsídio, Jardel explicou que a cartilha foi pensada para criar espaços de convivência, escuta e reflexão. O objetivo não é oferecer respostas prontas, mas ajudar as pessoas a conversarem sobre o país que desejam construir. O material está organizado em nove encontros, estruturados a partir de três eixos: democracia, sinodalidade e bem comum. A proposta foi apresentada pelo secretário executivo do CEFEP como uma espécie de “novena das eleições”, um caminho de encontros para refletir, rezar e discernir, não apenas sobre os candidatos, mas sobre os projetos de sociedade colocados em disputa.

Em um período no qual o debate público muitas vezes é dominado pela hostilidade, pela desinformação e pela polarização, a cartilha propõe recuperar uma prática simples e necessária: sentar em círculo, ouvir o outro e refletir coletivamente. Na avaliação de Jardel, participar das eleições é uma dimensão importante da democracia, mas não representa a totalidade da vida democrática.

O exercício democrático também envolve participar de conselhos, conferências, movimentos sociais, organizações comunitárias e iniciativas populares. A Lei da Ficha Limpa, por exemplo, foi lembrada como resultado de uma mobilização da sociedade que ultrapassou o espaço das eleições. Essa compreensão amplia o papel do cidadão. O eleitor não é apenas alguém que escolhe representantes de tempos em tempos. É também quem acompanha os mandatos, fiscaliza o poder público, participa das decisões e cobra políticas voltadas às necessidades coletivas. A democracia, nesse sentido, não termina no dia seguinte à votação. Ela precisa continuar presente na vida das comunidades.

Durante a exposição, Jardel citou uma reflexão do Papa Francisco sobre a democracia. Segundo a formulação apresentada, a democracia estaria ferida, e a participação seria uma das formas de cuidar desse sistema. A imagem ajuda a compreender que as instituições, sozinhas, não conseguem sustentar a vida democrática. É necessário que a população participe, acompanhe e defenda os espaços de decisão.

Quando as pessoas se afastam da política, outros interesses ocupam esse espaço. Os grupos mais organizados, os setores econômicos mais poderosos e aqueles que concentram influência passam a decidir com menos controle social. Por isso, fortalecer a democracia significa também garantir que as vozes das comunidades pobres, dos trabalhadores, das mulheres, dos povos tradicionais e de todos os grupos historicamente excluídos sejam ouvidas.

O segundo eixo da cartilha é a sinodalidade. Jardel explicou que, embora sinodalidade e democracia não sejam a mesma coisa, ambas valorizam a participação e a escuta. Uma Igreja sinodal é chamada a caminhar com as pessoas, acolher suas experiências e prestar atenção aos clamores que atravessam a sociedade.

Essa escuta não se limita às questões internas da comunidade religiosa. Ela alcança os problemas sociais, econômicos e políticos que afetam a população: a falta de saúde, educação, moradia, saneamento, emprego, segurança e proteção ambiental. Para o secretário executivo do CEFEP, uma Igreja que deseja servir precisa alargar sua tenda e aproximar-se das realidades concretas. Não basta falar sobre o povo. É preciso ouvir o que o povo vive e permitir que suas experiências orientem a reflexão e a ação.

O terceiro eixo apresentado foi o bem comum, princípio presente na Doutrina Social da Igreja e também essencial à política democrática. Jardel criticou a transformação da política em instrumento de enriquecimento privado e chamou atenção para denúncias envolvendo recursos públicos, emendas parlamentares e interesses financeiros. As referências feitas durante a transmissão foram apresentadas como parte do contexto político atual e devem ser analisadas com base em investigações e fontes oficiais.

O ponto central da reflexão, porém, foi a necessidade de perguntar a serviço de quem está o poder público. Enquanto comunidades enfrentam dificuldades para acessar serviços básicos, recursos que deveriam atender à população podem ser desviados para interesses particulares. O resultado é uma política que deixa de cuidar da vida coletiva e passa a beneficiar poucos. O bem comum exige outra lógica: a utilização dos recursos públicos para garantir saúde, educação, transporte, saneamento, moradia, segurança, proteção social e cuidado com o meio ambiente.

Outro aspecto destacado foi a relação entre a Igreja, a fé e a política. Jardel rejeitou tanto a ideia de que a Igreja não deve dialogar com a vida pública quanto a compreensão de que essa relação deve se limitar à troca de benefícios entre autoridades religiosas e agentes políticos. A relação entre fé e política, segundo a reflexão, deve estar voltada à defesa da dignidade humana. Cabe à Igreja contribuir para a formação da consciência, ajudar as pessoas a discernir e estimular a participação cidadã.

Isso não significa apoiar automaticamente candidatos que se apresentam como cristãos ou católicos. A identidade religiosa, por si só, não garante compromisso com a justiça, os direitos humanos ou o bem comum. O critério deve ser a prática concreta: como a pessoa vota, quais projetos defende, que grupos protege e que sociedade deseja construir. A reflexão apresentada também alertou que alguém pode não pertencer a uma tradição religiosa e, ainda assim, defender a dignidade humana, a justiça social e a democracia. Do mesmo modo, uma pessoa que se declara cristã pode adotar decisões contrárias a esses valores.

A cartilha apresentada por Jardel Lopes busca oferecer às comunidades uma metodologia para transformar o período eleitoral em oportunidade de formação cidadã. Os encontros podem ser realizados em paróquias, grupos de reflexão, pastorais, movimentos, comunidades e organizações sociais. A proposta é criar espaços nos quais as pessoas possam falar sobre seus medos, esperanças e expectativas para o futuro do país.

Em vez de tratar a eleição como uma simples disputa entre nomes, o subsídio convida a sociedade a perguntar. Que país queremos construir? Quais direitos precisam ser protegidos? Que projeto atende às pessoas mais vulneráveis? Como fortalecer a participação popular? De que maneira a política pode servir ao bem comum? Ao final, permanece a convicção de que a democracia depende de instituições fortes, mas também de comunidades atentas e participativas.

A fé, quando colocada a serviço da vida, não se afasta da realidade. Ela ajuda a enxergar os que sofrem, a ouvir os que não são escutados e a transformar indignação em compromisso. E, diante das eleições de 2026, a participação popular aparece não apenas como um direito, mas como uma responsabilidade coletiva. Democracia, sinodalidade e bem comum se encontram quando as pessoas se dispõem a caminhar juntas, escutar a realidade e decidir os rumos do país com consciência, liberdade e compromisso.

Assista à transmissão  https://www.youtube.com/watch?v=-P0rqLdUI9s

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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras. Siga nosso instagram https://www.instagram.com/encantarapolitica/