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Influência silenciosa de IA ajuda a ampliar indiferença do eleitorado

Influência silenciosa de IA ajuda a ampliar indiferença do eleitorado

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Olá, pessoa!

“Vínculos negativos, frios ou desencantados” com a política impactam mais fortemente o eleitorado brasileiro do que a polarização.

Um estudo do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP – Fundação Escola de Sociologia e Politica de São Paulo, sugere que quase sete entre dez eleitores estão fora do quadro de polarização aparentemente dominate no cenário político.

Nos últimos anos, aponta a pesquisa, a indiferença e o desencanto com a política cresce entre os menos polarizados. Aderir a um campo ideológico sem rejeitar um outro tornou-se menos habitual. A rejeição e o desalento parecem justificar melhor o desinteresse pelo processo eleitoral.

Em síntese, o estudo aponta que é mais comum o voto pela indiferença ou pela rejeição à política do que a um candidato ou um campo ideológico específico.

Temos insistido aqui que essas amostragens representam tendências baseadas em sondagens associadas a determinados critérios e métodos de aferição. Não devem ser usadas como resposta definitiva sobre o que presenciamos na atualidade, mas seus recortes ajudam a compor um retrato mais complexo e diversificado do problema.

O debate político perdeu profundidade e interesse, entre outros fatores, por ceder espaço à negação como método e a desinformação como princípio.

Manipular e distorcer os fatos para favorecer pontos de vista político-ideológicos já superam as mentiras nos discursos eleitorais. As narrativas são enquadradas para retratar uma realidade que não existe ou é deturpada para caber nas interpretações enviesadas e pré-existentes.

Tem um “camaleão ideológico” entre nós

Enquadrar a realidade no alcance de expectativas políticas específicas faz parte do “comportamento” de todos os modelos de inteligência artificial usados popularmente. “Agradar” a quem usa a tecnologia está na base do treinamento da IA.

Anderson Rocha, coordenador do Laboratório de Inteligência Artificial Recod.ai, projeto do Instituto de Computação – Unicamp, avalia que não se trata de posicionamento ideológico prévio. Em outros termos, os modelos de IA adotam sinais característicos dos usuários para elaborar uma resposta convincente e adequada ao que se deseja.

Digamos que você ofereça no prompt – o texto que determina o que a IA precisa entregar – uma certa preferência ideológica, pistas sobre em que lugar no espectro político você se enquadraria. A IA vai usar isso como indicador para responder o que você quer. Trata-se, na avaliação de Rocha, de “uma acomodação contextual”.

O fenômeno chamado de “sycophancy” – ou “bajulação” no popular – é conhecido entre pesquisadores e analistas. O treinamento dos modelos de IA propõe que ser “útil” passa por validar opiniões de quem os está usando. É um princípio padrão nos sistemas de inteligência artificial. Para evitá-lo, é necessário pedir explicitamente para que a IA em uso não faça isso.

De certo modo, não é a IA que deteremina ou influencia preferências ideológicas. Ela as reforça ao suavizar críticas, favorecer argumentos enganosos ou concordar com suposições que deveriam ser questionadas.

Os pesquisadores da Unicamp alertam para os riscos desse “camaleão ideológico” em períodos eleitorais. Não só no Brasil, as pessoas estão recorrendo cada vez mais aos chatbots de IA para consultas sobre candidaturas e cenários políticos.

As análises dos pesquisadores da Unicamp mostram que uma das principais ameaças ao sistema eleitoral é a geração de bolhas ideológicas mais difíceis de romper porque personalizam as preferências em um nível muito mais profundo que os já identificados nas mídias sociais.

Excesso de confiança nas próprias crenças, delegação cognitiva na interpretação dos fatos e a consequente validação prematura do que se acredita ser real são resultado dessa relação em que a IA camufla suas respostas para fazer parecer que nossas crenças estão certas, sem contrapontos nem contraditório.

O Tribunal Superior Eleitoral determinou que os chatbots estão proibidos de oferecer rankings ou respostas que influenciem a preferência do eleitorado. A questão aqui, entretanto, é muito mais sutil e não está inscrita nas regras estabelecidas nas resoluções.

É deepfake ou não é?

Por quatro votos a três, o TSE entendeu que o vídeo simulando o apoio de Jair Bolsonro ao filho Flávio na convenção do PL não caracteriza deepfake nem irregularidade no contexto em que foi exibido, como queria a Federação Brasil da Esperança, autora do processo judicial.

Fávio Bolsonaro não poderá mais usar o vídeo na campanha, mas a projeção no evento de confirmação de sua candidatura à presidência da República não feriu as regras eleitorais, segundo a maioria dos magistrados que julgaram o caso.

O ponto aqui não é bem o mérito, mas o embasamento jurídico usado na decisão.

Duas teses centrais conduziram os ministros ao voto. Defendida pelo relator e presidente do TSE Nunes Marques, a tese vencedora sustenta que um conteúdo sintético produzido com IA precisa demonstrar “elevado grau de realismo” e confundir deliberadamente o eleitorado ou não configura deepfake.

Em contraponto, o ministro Ricardo Cueva argumentou, como o primeiro a divergir do relator, que esse tipo de conteúdo fere as normas eleitorais por simular depoimento com o intuito de beneficiar o candidato Flávio Bolsonaro e, portanto, com potencial influência sobre o processo eleitoral, o que é vedado pelo TSE.

Como se sabe, Jair Bolsonaro está preso, proibido de manifestação política e não autorizou a produção do material. Mas é ele no vídeo. Ou será que não?

Para a professora da FGV Direito Rio, Yasmin Curzi, a tese geral dá margem para interpretações diferentes porque leva em consideração apenas o contexto. Quer dizer: a mesma tese em situações diferentes pode levar a outra decisão.

“Na minha avaliação, seria necessário olhar para a função comunicativa do conteúdo, ou seja, não só o contexto, mas a sua real circulação e seu potencial de produzir efeitos eleitorais”.

Juridicamente, Flávio Bolsonaro foi isentado pelo fato de o vídeo ter sido exibido em evento privado e ter avisado de que se tratava de simulação. Mas a real circulação do conteúdo e os efeitos da presença indireta do e ex-presidente nas eleições não entraram no mérito. O vídeo, inclusive, continua disponível na internet e pode ser usado por apoiadores que não fazem parte da campanha oficial do candidato.

Na última sexta-feira (11/09), a Agência Lupa divulgou o primeiro levantamento do projeto VigIA, que monitora a presença de peças feitas com IA em circulação durante o período eleitoral. Dos 314 conteúdos suspeitos apurados nas redes e em aplicativos de mensagens só nos primeiros 11 dias de campanha autorizada pelo TSE, 90% foram produzidos com IA, a maioria sem rotulagem.

Candidatos e partidos políticos, somados, aparecem como a segunda maior fonte desses conteúdos sintéticos. O maior volume de produções tem origem em postagens de usuários comuns, sem aparente ligação ou afiliação partidária.

Promoções e ataques a candidaturas concentram as intenções da absoluta maioria das peças analisadas. A decisão do TSE a respeito do deepfake de Bolsonaro abre caminho para campanhas oficiais intensificarem esse tipo de produção e para apoiadores impulsionarem deepfakes de cunho desinformativo e eleitoreiro.

Em outro levantamento, o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados, o Ibpad, evidencia que a questão é ainda mais profunda. As pessoas têm a sensação de que o volume de notícias falsas aumentou nos últimos seis meses e mais da metade dos pesquisados não consegue distinguir a origem de conteúdos produzidos com IA, mesmo quando há indicação.

Além disso, o uso de sátiras com alto teor de ironia e exagero também podem ganhar feições de desinformação ao tratar a realidade com distorções humoradas a respeito de candidaturas, acontecimentos políticos ou temas relacionados à eleição.

Não se pode esquecer ainda a estratégia induzida por grupos políticos que cooptam jovens para produzir cortes de vídeos com declarações distorcidas e fora de contexto para viralizar nas redes em troca de remuneração.

Seja em que grau de realismo for, deepfakes tendem a amplificar ainda mais o ceticismo generalizado na política e no sistema eleitoral.

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Tanto os “camaleões ideológicos”, orientados a confirmar as visões políticas de eleitores em busca de conforto para suas escolhas, quanto a concepção de que deepfakes dependem exclusivamente de contextos fabricados por um “elevado grau de realismo” para caracterizarem manipulação viram ferramentas silenciosas de desinformação política quando não monitoradas adequadamente.

Fonte: https://www.linkedin.com/pulse/21-influ%C3%AAncia-silenciosa-de-ia-ajuda-ampliar-indiferen%C3%A7a-c2akf/

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