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Escavações revelam ‘músicas e poesias’ de presos políticos nas paredes do Dops de BH

Escavações revelam ‘músicas e poesias’ de presos políticos nas paredes do Dops de BH

Tiago Candido / O Tempo

O que ficou escondido nas paredes, no chão e na estrutura do antigo Departamento de Ordem Política e Social de Minas Gerais (Dops/MG) pode ajudar a contar uma parte da história da ditadura militar brasileira que, durante décadas, permaneceu oculta. Foi a partir desses vestígios que os pesquisadores Andrés Zarankin, Caroline Murta Lemos e Denise Costa, do Departamento de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), construíram o livro Memórias aprisionadas: arqueologia da repressão e da resistência no Dops/MG, que será lançado nesta sexta-feira (11/9), em Belo Horizonte.

Mais do que apresentar os resultados de uma pesquisa acadêmica, o trabalho busca mostrar como a arqueologia pode ajudar a recuperar memórias relacionadas à repressão política. Para Zarankin, professor da universidade federal e orientador da atividade, os vestígios materiais localizados permitem colocar no centro do debate acontecimentos que foram negligenciados ou apagados pelo Estado brasileiro por anos. “A memória é um elemento fundamental que cria sentido no presente e cria sentido na nossa vida. Sem memória não somos nada”, diz o pesquisador.

O trabalho arqueológico recuperou 287 fragmentos no antigo Dops. A maior parte é formada por materiais construtivos, que ajudam a reconstruir a história do prédio e as transformações pelas quais ele passou. Também foram encontrados materiais relacionados à alimentação, uma bala de arma de fogo e materiais têxteis, entre outros elementos que ainda estão em estudo. Alguns dos achados mais simbólicos, porém, estavam nas próprias paredes do antigo departamento. Ao retirar camadas de tinta, os pesquisadores localizaram inscrições feitas por presos políticos. Havia poemas e músicas deixados pelos detidos no local. “É uma espécie de mensagem dentro da garrafa, que chega até o presente”, analisa Zarankin.

Apesar de produtiva, a escavação foi limitada. O trabalho durou cerca de dois meses, em 2020, e utilizou sondagens para identificar o potencial arqueológico de diferentes áreas. A intenção era, posteriormente, realizar uma ação mais ampla, mas os pesquisadores não conseguiram captar os recursos necessários para dar continuidade ao projeto.

Segundo Zarankin, não foram encontrados restos humanos. “É muito difícil que uma pessoa tenha sido assassinada dentro do Dops e enterrada no mesmo local”, explica. “As pessoas morriam durante as sessões de tortura e, depois, eram incineradas ou desovadas em algum túmulo perdido”, complementa. Além das sondagens arqueológicas, a equipe realizou análises da estrutura do prédio, levantamentos relacionados aos depoimentos de sobreviventes e intervenções nas paredes.

Outra frente da pesquisa foi o mapeamento digital em 3D. O uso de laser scanner permitiu registrar a arquitetura do imóvel e preservar digitalmente informações que poderiam ser perdidas caso o prédio fosse alterado ou destruído. A tecnologia também possibilita reconstruções virtuais, com a inclusão de diferentes momentos da história do espaço, objetos escaneados, vídeos e depoimentos.

Marcas da repressão

A importância de preservar o antigo Dops vai além da conservação de um imóvel histórico, avalia Zarankin. A existência física desses espaços permite confrontar discursos que relativizam ou apagam a violência praticada durante períodos autoritários. “A memória material nos permite sentir na pele, experimentar de outra forma, diferente da palavra, o que esse tipo de ideologia e esse tipo de prática levam ao ser humano”, argumenta.

Atualmente, o edifício localizado na avenida Afonso Pena, no centro de BH, é ocupado por movimentos sociais, que fazem dele um Memorial dos Direitos Humanos. Na avaliação do professor, transformar um antigo espaço de repressão em um local aberto ao público também ajuda a discutir o valor da democracia. “É entender que a democracia é o melhor sistema que existe, ainda que imperfeito”, avalia.

A própria produção do livro foi um trabalho conjunto e democrático. A pesquisa recebeu recursos de uma emenda parlamentar, por meio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, em parceria com a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep) e a UFMG. A publicação do livro contou ainda com a parceria do Tribunal de Contas do Estado (TCE/MG).

Passado recente

A pesquisa realizada no departamento mineiro parte de uma área da arqueologia que rompe com a ideia de que a disciplina serve apenas para investigar sociedades muito antigas. Nas últimas décadas, explica Zarankin, a arqueologia passou a estudar pessoas e grupos de diferentes períodos a partir da cultura material e dos vestígios deixados por eles.

Foi nesse contexto que o professor da UFMG e o arqueólogo Pedro Paulo Funari, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), começaram, há cerca de 20 anos, a discutir o conceito de “arqueologia da repressão e da resistência”. A proposta é utilizar métodos arqueológicos para investigar lugares de detenção, marcas de tortura, objetos e até restos humanos relacionados a regimes autoritários.

Segundo Zarankin, esse tipo de trabalho já era desenvolvido em outros países, mas ainda não havia sido realizado no Brasil. A escavação no Dops/MG se tornou, segundo o pesquisador, a primeira pesquisa arqueológica feita dentro de um centro de detenção do regime ditatorial brasileiro. “É um trabalho inédito”, aponta.

O resultado abriu caminho para outras iniciativas, como pesquisas posteriores no DOI-Codi em São Paulo, órgão de inteligência e repressão do regime militar, e estudos previstos em antigos centros de detenção do Rio de Janeiro.

Vestígios contra o apagamento

A dificuldade de acesso ao antigo Dops também aparece na discussão sobre o que aconteceu com os espaços de repressão depois da ditadura. Zarankin chama atenção para ambientes que foram modificados, escondidos ou destruídos ao longo do tempo.

Um dos exemplos abordados no livro é o chamado “poço da sauna”, identificado depois da retirada de uma camada de concreto e entulho. Posicionado fora do prédio principal do Dops, o local consistia em um tanque azulejado que, para os visitantes de fora, era dissimulado como uma área de lazer onde os militares faziam churrascos nos fins de semana.

Na realidade, a estrutura funcionava como uma câmara clandestina de tortura. Nela, os detentos eram submetidos ao método conhecido como “esquenta e esfria”, no qual o preso era exposto ao calor intenso de uma sauna a seco e, em seguida, sofria sessões de afogamento nas águas frias do tanque.

Para o arqueólogo, alterações desse tipo, como a concretagem do “poço”, podem ser compreendidas dentro de um processo mais amplo de apagamento das marcas da repressão. “Da mesma forma que uma grande quantidade de documentos sobre a ditadura foi queimada, destruída, o mesmo acontece com esses espaços”, aponta.

Ainda assim, segundo o pesquisador, a destruição não necessariamente elimina todos os rastros. “Eles [sinais] foram transformados, demolidos, mas sempre existe algum vestígio”, diz. É justamente nesses vestígios que a arqueologia atua para recuperar informações e recolocar determinadas memórias no debate público.

Atraso brasileiro

O pioneirismo da pesquisa no Dops/MG também expõe uma diferença entre o Brasil e outros países latino-americanos que passaram por ditaduras. Embora o regime militar brasileiro tenha terminado em 1985, o trabalho arqueológico dentro de um centro de detenção da ditadura só ocorreu em 2020, 35 anos depois. Na Argentina, por exemplo, pesquisas antropológicas e arqueológicas em centros clandestinos de detenção começaram ainda nos anos 1980.

Zarankin atribui parte dessa diferença à forma como o Brasil lidou com o próprio passado. Segundo ele, enquanto outros países primeiro buscaram respostas sobre desaparecidos e responsabilização pelos crimes cometidos pelas ditaduras, o Brasil teria optado por olhar diretamente para a frente.

“Alguns países entenderam que é preciso olhar primeiro para trás, para saber o que aconteceu com os desaparecidos, para que as famílias pudessem saber o que aconteceu com eles e para que os responsáveis por esses crimes fossem julgados. A partir daí é que se olha para o futuro”, defende.

Para o pesquisador, a ausência do “acerto de contas” ajuda a explicar a manutenção de discursos favoráveis à ruptura democrática. “Isso tem a ver com o apagamento, o esquecimento de um saldo traumático como a ditadura militar no Brasil”, avalia.

É nesse ponto que a pesquisa arqueológica deixa de olhar apenas para o passado e passa a dialogar diretamente com o presente. “Mostrando fisicamente os espaços da repressão, a tortura, o que significa a ditadura, existe a possibilidade de que o futuro seja melhor”, afirma Zarankin.

Serviço

O lançamento do livro Memórias aprisionadas: arqueologia da repressão e da resistência no Dops/MG ocorre nesta sexta-feira (11), às 18h30, no auditório do Tribunal de Contas do Estado. O evento integra o Movimento Literário da Educação Básica Pública Mineira, projeto de extensão da UFMG coordenado por Renata Amaral de Matos Rocha, curadora do livro. A publicação, da Pedro & João Editores, tem 180 páginas e será disponibilizada gratuitamente em versão digital e impressa.

A programação de sexta terá apresentação dos autores, exposição dos materiais recuperados nas pesquisas e registros das escavações. O TCE/MG fica na avenida Raja Gabaglia, 1.315, no bairro Luxemburgo, região Centro-Sul de BH. A entrada é gratuita, sem necessidade de inscrição prévia, e está sujeita à capacidade do espaço.

fonte: https://www.otempo.com.br/cidades/2026/9/11/escavacoes-revelam-musicas-e-poesias-de-presos-nas-paredes-do-dops-de-bh

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