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Pastorais urbanas discutem soberania, direitos humanos e participação popular nas eleições de 2026

Pastorais urbanas discutem soberania, direitos humanos e participação popular nas eleições de 2026

Vívian Marler / Projeto Encantar a Politica

A terceira live da série promovida pela Cepast-CNBB destacou que escolher representantes exige conhecer projetos, defender a democracia e fortalecer a organização do povo. Nas cidades, a soberania não começa apenas nas urnas. Ela também está na possibilidade de uma família ter moradia, de um trabalhador viver com dignidade, de uma pessoa em situação de rua ser reconhecida em seus direitos e de uma comunidade participar das decisões que afetam o próprio território.

Foi a partir dessa compreensão que a ‘Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (Cepast-CNBB) realizou, na noite desta quinta-feira (17), a terceira transmissão da série especial sobre as Eleições 2026. Com o tema “Eleições 2026: Ação Sociotransformadora por Soberania – Articulação das Pastorais Urbanas”, o encontro reuniu bispos, lideranças pastorais e representantes de diferentes realidades sociais.

A live foi conduzida por Daniel Seidel, pela Articulação das Pastorais Urbanas e contou com a participação de Dom José Valdeci Mendes, bispo de Brejo (MA) e presidente da Cepast-CNBB, e de Dom José Reginaldo Andrietta, bispo de Jales (SP), além de lideranças ligadas às pastorais sociais. A proposta foi oferecer critérios para o discernimento dos eleitores diante da proximidade das eleições, incentivando uma escolha baseada em projetos, direitos humanos, justiça social e compromisso com a população mais vulnerável.

Na abertura, Dom José Valdeci lembrou que a articulação das pastorais urbanas reúne experiências diversas, mas unidas pela defesa da vida e da dignidade humana. Entre elas estão as pastorais da Moradia e Favela, Carcerária, do Povo de Rua, Operária, da Criança, do Menor, da Mulher Marginalizada, dos Surdos, da Pessoa Idosa e a Pastoral Afro-Brasileira. Cada uma dessas pastorais acompanha uma parte da realidade urbana que muitas vezes permanece invisível nas decisões políticas. São pessoas privadas de liberdade, trabalhadores, mulheres vítimas de violência, crianças, idosos, pessoas com deficiência, população em situação de rua, moradores de favelas e comunidades que enfrentam o racismo e a exclusão.

Ao destacar essa diversidade, o bispo afirmou que a missão da Comissão é impulsionar, a partir do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja, uma ação capaz de ser sinal de esperança, fé e compromisso com a transformação da sociedade. Para Dom José Valdeci, o período eleitoral exige ética, discernimento e responsabilidade. A escolha de quem ocupará os poderes Executivo e Legislativo precisa considerar a sensibilidade dos candidatos diante daqueles que são frequentemente deixados à margem. A política, nesse sentido, não pode ser reduzida à disputa pelo poder. Ela deve estar relacionada à construção de caminhos de libertação, justiça e vida digna.

Ao abordar o tema central da live, Dom José Reginaldo Andrietta relacionou a soberania ao livro bíblico de Daniel, escolhido pela Igreja no Brasil como referência para o Mês da Bíblia deste ano. O bispo recordou que o livro de Daniel nasceu em um contexto de dominação política, econômica e cultural. A resistência do povo, naquele momento, estava ligada à defesa da fé, da identidade e da autonomia. A reflexão bíblica, portanto, ajuda a pensar a soberania como a capacidade de um povo ser sujeito da própria história.

Dom Reginaldo apresentou três dimensões da soberania que podem orientar o discernimento dos eleitores. A primeira é a soberania pessoal. Inspirado na ação de Jesus, que libertava e devolvia autonomia às pessoas, o bispo destacou que uma democracia verdadeira depende de cidadãos e cidadãs com consciência, liberdade e condições para participar da vida pública. Não existe escolha livre quando as pessoas são submetidas à fome, à violência, à desinformação ou à dependência política.

A segunda dimensão é a soberania familiar, profissional e comunitária . Uma família não pode ser considerada verdadeiramente autônoma quando não tem moradia, trabalho, renda, educação, saúde e segurança. Da mesma forma, escolas, entidades sociais, comunidades e organizações populares precisam de condições jurídicas, administrativas e financeiras para cumprir sua missão. A terceira dimensão é a soberania social, cultural, econômica e política. Os povos têm direito de preservar suas identidades, proteger seus territórios e construir seus próprios projetos de desenvolvimento, sem submissão a interesses externos que desconsiderem as realidades locais.

Durante a reflexão, Dom Reginaldo apresentou como exemplo a construção de projetos populares a partir das forças vivas dos territórios. A proposta é reunir comunidades, movimentos, organizações sociais, conselhos de direitos e agentes políticos para identificar necessidades e construir pautas comuns. Esse caminho fortalece a participação popular e amplia a capacidade de incidência da sociedade nas decisões públicas. Os conselhos de direitos, por exemplo, foram apontados como espaços importantes de participação e também de formação para pessoas que desejam atuar no Legislativo e no Executivo.

A democracia, nessa perspectiva, não se resume ao ato de votar. Ela exige organização antes e depois das eleições, acompanhamento dos mandatos e participação nos espaços onde as políticas públicas são discutidas. Por isso, os eleitores foram convidados a observar quais candidaturas defendem a autonomia dos povos, a democracia participativa e um projeto de país construído a partir das necessidades da população. A pergunta central não é apenas quem vencerá a eleição, mas quais projetos colocam o povo como sujeito de seu próprio destino.

Ao longo da transmissão, foi reforçada a importância de analisar as propostas dos candidatos e candidatas aos diferentes cargos em disputa. Para as pastorais sociais, o discernimento eleitoral precisa considerar a defesa dos direitos humanos, a justiça social, o trabalho digno, a moradia, a educação, a saúde e a participação popular. Também é necessário observar quem se coloca ao lado das comunidades e quem atua contra a emancipação dos grupos mais vulneráveis.

A terceira live da série deixou uma mensagem especialmente importante para as cidades: a soberania não pode ser usada apenas como palavra de campanha. Ela precisa ser percebida na vida concreta das pessoas, na liberdade de escolher, na possibilidade de participar, no direito de viver com dignidade e na capacidade de construir coletivamente o futuro.

A transmissão está disponível no canal do Youtube CEPAST CNBB  https://www.youtube.com/live/fCkuGk-1Wqo?si=pa0MejU0tyhiHilY 

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