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Programa “Igreja Sinodal” debate a participação de cristãos leigos e leigas na vida pública, os desafios da polarização e a defesa da democracia

Programa “Igreja Sinodal” debate a participação de cristãos leigos e leigas na vida pública, os desafios da polarização e a defesa da democracia

Vívian Marler / Projeto Encantar a Política

A política começa muito antes da urna eletrônica e continua depois que os votos são contabilizados. Ela está presente na qualidade da escola, no atendimento de saúde, no acesso à moradia, na previdência, no emprego, no transporte e em tantas outras dimensões da vida cotidiana. É a partir dessa compreensão que o programa “Igreja Sinodal | A presença do laicato na política” propõe uma reflexão sobre a participação cidadã, a democracia e o compromisso com o bem comum.

A conversa reuniu o professor José Luiz Quadros, presidente da Comissão Arquidiocesana de Justiça e Paz de Belo Horizonte, professor dos programas de mestrado e doutorado da PUC Minas e professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O episódio também conta com a participação especial de Rocheli Koralewski, que apresenta a campanha “A Fé Brasileira Escolhe a Democracia”, iniciativa que reúne lideranças e organizações de diferentes tradições religiosas em defesa da democracia, da liberdade religiosa e da convivência pacífica.

A reflexão parte das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, que incentivam cristãos leigos e leigas a participarem ativamente da política. Essa presença não se limita à ocupação de cargos eletivos. Ela também acontece nos conselhos de direitos, nos sindicatos, nos movimentos populares, nas associações comunitárias e em outros espaços de decisão que interferem diretamente na vida da população.

Ao falar sobre a importância da política, José Luiz Quadros chama atenção para uma realidade que muitas vezes passa despercebida, as decisões políticas têm efeitos concretos sobre a vida das pessoas. “Tudo isso passa pela política”, afirma o professor, ao mencionar áreas como saúde, educação, previdência social, moradia, economia, emprego, liberdade e bem-estar. Para ele, a política não pode ser reduzida às disputas entre partidos ou ao período eleitoral.

A política também se relaciona com a cidade, entendida como espaço de convivência e construção da vida coletiva. É nela que as pessoas se encontram, trabalham, estudam, circulam, reivindicam direitos e participam das decisões que moldam o presente e o futuro. Por isso, a participação cidadã não deveria ser compreendida como uma atividade eventual. Ela é um exercício permanente, que exige atenção à realidade, disposição para o diálogo e compromisso com os rumos da sociedade.

Na conversa, o voto aparece como uma parte importante, mas não suficiente, da democracia. José Luiz Quadros afirma que muitas pessoas ainda imaginam que a participação política se resume ao momento de escolher representantes. “A democracia se constrói diariamente”, destaca.

Essa construção passa pela busca de informação, pela organização comunitária e pelo acompanhamento das decisões tomadas no município, no estado e no país. Também envolve conhecer as propostas, a história e a atuação das candidaturas e dos partidos políticos. A escolha eleitoral, portanto, não deveria ser orientada apenas pela simpatia, pela proximidade pessoal ou pela força de uma campanha. É necessário perguntar que projeto está sendo representado e se ele corresponde à sociedade que se deseja construir.

O professor propõe que o eleitor observe não apenas a pessoa candidata, mas também o partido ao qual ela está vinculada. A trajetória da legenda, suas decisões e os compromissos assumidos ajudam a compreender que tipo de política poderá ser praticada. “É fundamental conhecer o projeto político e a história das pessoas e do partido político”, afirma.

Essa responsabilidade continua depois da eleição. A cidadania também se expressa no acompanhamento do mandato, na cobrança de compromissos e na participação nos espaços públicos que permitem fiscalizar e influenciar as políticas adotadas pelos governantes.

Outro tema presente na conversa é a importância da pluralidade política. Em uma democracia pluripartidária, diferentes visões de sociedade disputam legitimamente a preferência dos cidadãos. Para José Luiz Quadros, essa diversidade permite que as pessoas avaliem as necessidades de cada momento e escolham diferentes caminhos para enfrentar os problemas sociais. A alternância de projetos e forças políticas pode ser saudável quando ocorre dentro do respeito à Constituição, aos direitos fundamentais e às regras democráticas.

O problema surge quando a política passa a ser tratada como uma partida de futebol, em que o adversário precisa ser destruído. A comparação ajuda a compreender a diferença entre a paixão esportiva e a responsabilidade política. Na política, não se trata de escolher uma torcida, mas de discutir propostas capazes de responder às necessidades da população. “Política democrática é diálogo, respeito e pluralidade”, resume o professor.

Isso não significa eliminar as divergências. O diálogo democrático não exige que todas as pessoas pensem da mesma maneira. Ele pressupõe a capacidade de escutar, argumentar, rever posições e, quando possível, construir consensos.

O programa também aborda os efeitos da polarização, da intolerância e da demonização da política. Quando todo adversário é tratado como inimigo e qualquer divergência se transforma em ofensa, o espaço público deixa de ser lugar de construção coletiva. Na avaliação apresentada durante o programa, a radicalização permanente fragiliza a democracia e alimenta a intolerância. A política deixa de ser compreendida como instrumento de transformação social e passa a ser vista como sinônimo de corrupção, disputa e ameaça.

Essa visão pode abrir caminho para soluções autoritárias e para o afastamento da população dos espaços de participação. Quando a política é demonizada, também são desvalorizadas as formas democráticas de organização, reivindicação e controle social. Em vez do grito e da agressão, o programa propõe recuperar a capacidade de conversar. Isso vale especialmente para as novas gerações, que muitas vezes cresceram em um ambiente marcado por conflitos intensos nas redes sociais e pela dificuldade de conviver com opiniões diferentes. A democracia, nesse sentido, precisa ser reaprendida como experiência de tolerância, diversidade, escuta e compromisso com os direitos fundamentais.

A participação de cristãos leigos e leigas na política é apresentada como parte da missão de quem deseja contribuir para a transformação da sociedade. Essa presença pode acontecer no Parlamento e no Executivo, mas também nos bairros, nas comunidades, nos conselhos, nos sindicatos, nas pastorais e nos movimentos sociais. Trata-se de uma presença orientada pelo serviço, pela defesa da dignidade humana e pela busca do bem comum. Ela não se confunde com a imposição de uma candidatura ou de uma preferência partidária. Antes, reconhece a liberdade de consciência e a responsabilidade de cada cidadão na construção da sociedade.

É nesse horizonte que se insere a campanha “A Fé Brasileira Escolhe a Democracia”, apresentada por Rocheli Koralewski. A iniciativa reúne diferentes tradições religiosas para reafirmar a importância da democracia, da liberdade religiosa e da convivência pacífica. Em um tempo de discursos que exploram o medo, a desinformação e a hostilidade, a campanha recorda que a fé não deve ser utilizada para alimentar a violência ou retirar do outro o direito de pensar e escolher livremente.

A mensagem central do programa é simples e exigente: a política pertence a todos. Ela não pode ser abandonada por quem deseja uma sociedade mais justa, solidária e democrática. Participar é informar-se, dialogar, organizar-se, acompanhar as decisões e colocar a própria presença a serviço da vida coletiva.

O programa “Igreja Sinodal | A presença do laicato na política” está disponível no YouTube:

Horários de exibição:

– TV Horizonte: sábado, às 8h30;
– TV Pai Eterno: sábado, às 13h;
– TV Imaculada: segunda-feira, às 12h;
– TV Kefas: terça-feira, às 12h;
– Rádio América FM 107,1: quarta-feira, às 21h.

O programa é uma iniciativa do Serviço Teológico-Pastoral, grupo formado por teólogos, teólogas e pastoralistas de diferentes instituições acadêmicas e espaços eclesiais do Brasil.

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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras. Siga nosso instagram https://www.instagram.com/encantarapolitica/