
A disputa por Maria: Nossa Senhora Aparecida, batalha espiritual e guerra na política brasileira
Robson Sávio Reis Souza*
A polêmica em torno de Nossa Senhora Aparecida no centro da campanha presidencial de 2026 não é um acidente nem pode ser compreendida apenas como mais um episódio das chamadas guerras culturais. Ela revela uma disputa mais profunda sobre religião, poder e imaginário nacional: quem é Maria, qual Maria se pretende mobilizar politicamente e a serviço de que projeto de sociedade a mãe de Jesus é colocada? A disputa não ocorre somente entre católicos e evangélicos. Ela atravessa o próprio cristianismo e envolve diferentes interpretações sobre a figura e o papel de Maria, mas também sobre a presença da religião na esfera pública e, sobretudo, sobre a relação entre fé e poder político.
A história da Maria mostra, como tem demonstrado a teóloga feminista Ivone Gebara, que existem diferentes representações em disputa. De um lado, há a Maria construída por séculos de cristandade patriarcal: a Rainha do véu, mulher da pureza, da castidade, da obediência e da submissão. Uma figura frequentemente esvaziada de sua condição histórica apresentada na Bíblia e transformada em modelo de uma feminilidade dócil, silenciosa e resignada. Em Rompendo o silêncio: uma fenomenologia feminista do mal (2000), Gebara desenvolve uma crítica à utilização de imagens religiosas femininas na reprodução de relações de desigualdade e dominação.
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De outro lado, há a Maria do Magnificat (Lc 1,46-55): a jovem camponesa da periferia da Galileia que proclama que Deus “derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes”, “saciou de bens os famintos” e “despediu de mãos vazias os ricos”. É uma mulher que não aparece como personagem passiva, mas que interpreta a história a partir dos pobres e anuncia uma inversão das relações de poder.
É essa Maria que foi recuperada por diferentes vertentes da teologia latino–americana e tem fortes referências no catolicismo popular. Em O rosto materno de Deus (1979), Leonardo Boff procurou recuperar as dimensões da experiência mariana para além de uma representação meramente passiva da mulher. Na tradição latino-americana, Maria também foi interpretada a partir da experiência dos pobres, dos marginalizados e dos povos que encontram nela uma presença materna, amorosa e solidária.
No Brasil, essa representação adquire uma pujança particular na figura de Nossa Senhora Aparecida. A pequena imagem negra encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, em 1717, transformou-se ao longo de três séculos em um dos maiores símbolos religiosos e culturais do país. Em 1930, o papa Pio XI a proclamou Padroeira do Brasil, em resposta a uma solicitação do episcopado brasileiro; no ano seguinte, a proclamação foi celebrada no Rio de Janeiro, em cerimônia que contou também com a presença do ex-presidente Getúlio Vargas, num contexto de exaltação de valores nacionais. É razoável pensar que essa construção histórica está relacionada a uma forte presença do catolicismo que, até meados do século XX praticamente detinha o monopólio religioso no Brasil.
A devoção popular a Aparecida, portanto, não nasceu de uma operação eleitoral contemporânea. Ela antecede em muito a República, atravessou diferentes regimes políticos, teve apropriações das mais variadas, inclusive por diferentes projetos de poder. Sua força simbólica decorre precisamente da capacidade do imaginário sobre Maria condensar experiências populares, identidades femininas diversas, memórias e sentimentos religiosos profundamente arraigados.
Por isso, Nossa Senhora Aparecida não pode ser reduzida a um instrumento de nenhum grupo político ou religioso. Para milhões de brasileiros, ela representa maternidade, proteção, pertencimento, esperança e proximidade com os pobres, os sofredores e oprimidos. A própria tradição católica brasileira enfatiza sua associação com os humildes e com a dignidade humana.
Mas, essa disputa em torno de Maria também envolve um caloroso debate sobre o próprio lugar da mulher na sociedade. Em setores conservadores e ultraconservadores do catolicismo, a figura mariana é frequentemente mobilizada para reafirmar um ideal feminino associado à maternidade, à pureza, à modéstia, à dedicação à família e à obediência, em contraposição a perspectivas feministas de autonomia, igualdade de gênero e emancipação.
Pesquisas sobre o conservadorismo católico no Brasil identificam, historicamente, a construção de representações da mulher sobretudo como mãe e esposa, enquanto estudos mais recentes sobre o ativismo de mulheres católicas tradicionalistas mostram a associação entre “modéstia”, feminilidade, maternidade e defesa da chamada família tradicional. Nesse processo, diferentes imagens de Maria podem funcionar como referências normativas para definir o que seria uma “boa mulher” e, por extensão, quais comportamentos femininos seriam legítimos no espaço privado e público.
A devoção mariana de Fátima, por exemplo, acrescenta outra dimensão a essa disputa simbólica: a construção de uma Maria associada à defesa da fé diante da ameaça comunista. A própria documentação oficial do Vaticano sobre a mensagem de Fátima relaciona suas referências à Rússia, à perseguição aos cristãos e ao comunismo ateu; estudos históricos mostram, por sua vez, como essa dimensão foi progressivamente incorporada à formação de uma cultura política católica anticomunista em Portugal.
Assim, Maria pode ser apresentada simultaneamente como modelo de feminilidade — maternal, obediente, pura e familiar — e como figura de combate espiritual e político contra um inimigo identificado como ameaça à fé, à Igreja e à ordem social. É justamente essa combinação entre gênero, moralidade, religião e anticomunismo que torna a figura mariana particularmente potente quando deslocada do âmbito estritamente devocional para as disputas políticas contemporâneas.
Essa densidade simbólica torna Aparecida um território privilegiado das disputas religiosas brasileiras na contemporaneidade.
A batalha espiritual contra símbolo religioso diferente
Para compreender parte dessas disputas, é necessário introduzir uma categoria frequentemente ausente das análises meramente eleitorais: a batalha espiritual.
Em determinados segmentos do pentecostalismo e do neopentecostalismo (inclusive essas expressões dentro do catolicismo), a vida social não é interpretada exclusivamente em termos políticos, econômicos ou culturais. Ela pode ser compreendida também como um campo de conflito entre forças espirituais.
Nessa perspectiva, determinadas práticas, símbolos, religiões ou instituições podem ser interpretados como manifestações ou instrumentos de forças espirituais consideradas adversárias. O conflito deixa, então, de ser apenas uma divergência teológica. O adversário pode ser transformado em inimigo espiritual.
A crítica protestante ao culto católico dos santos possui uma longa história e não deve ser confundida, por si só, com intolerância religiosa. O problema surge quando a diferença teológica é transformada em uma lógica de combate, na qual o símbolo religioso do outro deixa de ser simplesmente uma expressão de uma tradição distinta e passa a representar aquilo que deve ser destruído ou exorcizado.
O episódio de 12 de outubro de 1995 tornou-se emblemático. Naquele dia, o bispo Sérgio von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, atacou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa da Rede Record. O episódio provocou forte reação pública e tornou-se um dos casos mais conhecidos de intolerância religiosa envolvendo o catolicismo e o neopentecostalismo protestante no Brasil.
O episódio tornou visível uma lógica que posteriormente reapareceria em diferentes manifestações: destruir ou desqualificar o símbolo do outro como forma de afirmar a verdade da própria religião.
A chamada batalha espiritual ajuda a compreender esse mecanismo. Se o mundo é interpretado como um campo de combate entre Deus e forças demoníacas, o adversário religioso pode ser situado, direta ou indiretamente, no lado do inimigo.
Assim, a destruição de imagens, por exemplo, não é apenas iconoclastia. Ela pode funcionar como um ato performativo de guerra: destruir o símbolo religioso do outro significa demonstrar publicamente que o poder atribuído a ele não existe. Esse tipo de violência simbólica ultrapassa as disputas no campo religioso e torna-se um problema democrático quando passa a organizar a relação das tradições religiosas com toda a sociedade. Um registro inevitável, é a constante e histórica violência (real e simbólica) com tradições de matriz africana, tão normalizada numa cultura hegemonicamente cristã.
Da batalha espiritual ao dominionismo
É importante fazer uma distinção desde o início. Dominionismo não é sinônimo de evangelicalismo, pentecostalismo ou conservadorismo religioso. Tampouco corresponde a uma doutrina única adotada por todas as igreja e comunidades evangélicas brasileiras. Trata-se de um campo heterogêneo de correntes, sobretudo de matriz norte-americana, que apresenta diferentes formulações sobre a relação entre cristianismo, sociedade e poder político.
Em algumas dessas correntes, encontra-se a ideia de que os cristãos devem ampliar sua influência sobre as estruturas sociais e políticas para produzir uma sociedade orientada por determinados princípios cristãos. Daí, a expressão “teologia do domínio”. Entre as formulações que ganharam circulação internacional está a chamada Teologia dos Sete Montes, que identifica diferentes esferas da sociedade — como governo, educação, mídia, família, religião, artes e negócios — como espaços nos quais os cristãos deveriam dominar.
A importância dessa perspectiva para a análise da política contemporânea está no deslocamento do papel das religiões no espaço público e laico. Afinal, participar de eleições, defender políticas públicas ou ocupar cargos públicos é absolutamente legítimo em uma democracia pluralista.
Porém, para os adeptos dessa teologia, não se trata simplesmente de participar da política como cidadãos religiosos. A questão muda quando a participação política passa a ser compreendida como parte de uma missão espiritual de conquista, ocupação ou transformação das estruturas sociais pela religião.
Nesse horizonte, governo, escola, meios de comunicação, cultura, família e instituições públicas deixam de ser apenas espaços plurais de disputa democrática legítima e podem passar a ser percebidos como territórios que precisam ser “conquistados” ou “retomados” pelos cristãos.
É nessa interseção que a batalha espiritual e o dominionismo podem estabelecer uma relação particularmente importante, dado que a batalha espiritual fornece uma gramática do conflito e o dominionismo, em determinadas formulações, fornece uma concepção de presença e conquista das esferas sociais pela religião.
Assim, a guerra cultural de viés religioso oferece os temas, símbolos e adversários capazes de mobilizar politicamente esse conflito.
Maria como territótio da guerra cultural
Nesse contexto, Nossa Senhora Aparecida deixa de ser apenas uma devoção católica. Ela se transforma em território simbólico de disputa religiosa e política. Para setores que interpretam a sociedade a partir de uma lógica de guerra cultural e espiritual, a potência simbólica da imagem de Aparecida pode representar tudo aquilo que precisa ser combatido: o catolicismo, o culto aos santos, a autoridade dos bispos (por isso, os ataques à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB), a tradição religiosa católica brasileira ou, em determinados contextos, uma concepção de cristianismo considerada incompatível com visões pentecostais e neopentecostais.
Trata-se, portanto, de uma disputa sobre quem possui autoridade para definir o que é o verdadeiro cristianismo. E essa questão se torna particularmente relevante quando setores religiosos passam da afirmação de sua própria identidade para a tentativa de deslegitimar a identidade religiosa do outro.
Enquanto o pluralismo religioso reconhece que diferentes tradições podem ocupar legitimamente o espaço público, desde que respeitem as regras democráticas e a liberdade de consciência, os grupos que buscam uma hegemonia religiosa, ao contrário, procuram estabelecer uma determinada interpretação religiosa como parâmetro privilegiado para definir a moralidade, a cidadania e a própria identidade nacional.
Assim, Nossa Senhora Aparecida torna-se particularmente importante nessa disputa porque sua simbologia ultrapassa o catolicismo, à medida que está profundamente incorporada à história cultural brasileira.
Do palanque ao altar
Há uma transformação da disputa religiosa em instrumento de disputa eleitoral. A controvérsia de setembro de 2026 envolvendo Nossa Senhora Aparecida e o candidato a presidente Flávio Bolsonaro demonstra a força eleitoral desse imaginário.
Inicialmente, é preciso registrar que, historicamente, a família Bolsonaro utiliza discricionariamente a questão religiosa como ativo eleitoral. As vinculações dos bolsonaros com grupos pentecostais e neopentecostais radicais e, inclusive, com setores ultraconservadores do catolicismo são fartamente registradas desde a campanha eleitoral de 2018, inclusive na trama golpista de 2022.
Mas, o episódio de setembro de 2026 foi desencadeado pela circulação de uma informação falsa segundo a qual o candidato Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A narrativa foi associada a um antigo projeto de lei, o PL 2.623/2007, que foi apresentado em 2007 pelo então deputado federal Victorio Galli, amigo pessoal de Jair Bolsonaro, e arquivado em 2008. A proposta pretendia alterar a legislação referente ao título de Padroeira do Brasil, estabelecendo uma formulação relacionada aos brasileiros católicos.
Mas, como um projeto parlamentar apresentado e arquivado há quase duas décadas pôde ser reativado no imaginário político de 2026 e transformado em combustível para uma disputa eleitoral contemporânea? Trata-se, novamente, de refletir sobre a força simbólica de Nossa Senhora Aparecida. “Defender Nossa Senhora” pode funcionar como uma poderosa marca de pertencimento religioso e político para os católicos.
A controvérsia também envolveu acusações dirigidas à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que negou participação na produção ou disseminação da informação e reafirmou sua posição institucional de não atuar como organização partidária.
O episódio mostra como um símbolo religioso pode ser convertido rapidamente em marcador de identidade política. Defender Aparecida passa a significar, para importantes segmentos religiosos, defender uma determinada visão de sociedade e de Brasil. E é precisamente esse mecanismo que aproxima a disputa religiosa das chamadas guerras culturais.
*”A força de Aparecida está justamente em sua capacidade de ultrapassar essas fronteiras. Porque trata-se de uma imagem negra encontrada por pescadores pobres, cuja devoção popular foi construída durante séculos, tornando-se um símbolo religioso de milhões de brasileiros e sendo incorporada à parte da história cultural do país” escreve, Robson Sávio Reis Souza.
Robson Sávio Reis Souza é doutor em Ciências Sociais, com pós-doutorado em Direitos Humanos, é professor do Departamento de Ciências da Religião da PUC Minas; presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos de Minas e assessor do Centro Nacional de Fé e Política Dom Hélder Câmara.
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