
‘Tentativa de interferência dos EUA é alarmante’
Jan Niklas – Do Rio / Valor
Nas últimas semanas a crise entre Brasil e Estados Unidos, iniciada com o tarifaço americano em 2025, vive uma escalada por conta de críticas do governo Lula sobre supostas tentativas do presidente dos EUA, Donald Trump, de interferir nas eleições brasileiras. Essa preocupação, explicitada pelo presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), na semana passada, também é manifestada pelo cientista político Octavio Amorim Neto, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).
O especialista vem se dedicando a observar a interferência americana no que classifica como “alarmante” intromissão nas eleições brasileiras. Na visão de Amorim, as ações do governo Trump teriam, desde o início, o objetivo de favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).
“A interferência americana nos rumos eleitorais do Brasil é uma realidade desde julho de 2025 quando Trump impôs o aumento tarifário aos produtos brasileiros”, diz Amorim Neto. E prossegue: “Não foi apenas manobra comercial, foi manobra acompanhada de uma carta publicada nas redes sociais pedindo que [Jair] Bolsonaro deixasse de ser ‘perseguido’”, completa.
O professor lembrou que essa pedra inaugural de interferência dos EUA gerou reações opostas das forças políticas no Brasil naquele momento. “O bolsonarismo aplaudiu explicitamente e a direita tradicional brasileira não defendeu a soberania nacional de forma enfática dizendo que tudo era culpa do Lula”, recorda.
No contexto da época, a defesa da soberania gerou alta de popularidade para Lula, lembra Amorim Neto. Ele afirma que tanto entre a população, quanto entre as elites políticas, o presidente teve sua postura elogiada por ter cumprido a obrigação constitucional de defender a soberania nacional.
Mas desde que a campanha eleitoral começou de fato, em agosto deste ano, esse efeito de popularidade se esvaiu. Amorim aponta que houve uma esperança no PT que o tema da soberania poderia ser um mote de campanha, aglutinando apoios, como ocorreu com a eleição do primeiro-ministro Mark Carney, no Canadá.
Porém, até o momento, esse cenário não se concretizou: “Eu esperava que esse tema fosse gerar mais dividendos eleitorais para Lula nessa campanha, mas não está rendendo. É um sinal da enorme fortaleza do bolsonarismo na sociedade brasileira. E, ao mesmo tempo, mostra equivocos da campanha de Lula”, afirma Amorim.
O cientista político elenca uma série de ações dos EUA que, como peças de um quebra-cabeças, montam o atual quadro do que considera ameaça à soberania nacional. Além das tarifas comerciais e do apoio explícito à família Bolsonaro, cita: a suspensão do visto de entrada nos EUA de membros do Supremo Tribunal Federal; a tentativa de envio de funcionários do Departamento de Estado para levantar suspeitas sobre o sistema de votação brasileiro; a atuação de Eduardo Bolsonaro alinhado a membros do governo americano e a suspensão do visto da embaixadora do Brasil nos EUA, Maria Luiza Viotti.
Tirar o visto da embaixadora brasileira foi o momento mais agressivo de todos. Isso não tem precedente na história”, diz. Outro agente de pressão americano citado por Octavio Amorim Neto é a articulação do Escudo das Américas — coalizão lançada pela administração Trump que reúne governos alinhados ideologicamente aos Estados Unidos. A aliança conta com a participação de países como Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru, Equador e El Salvador.
Liderados por governos de esquerda, Brasil e México não foram convidados a integrar a coalizão. A iniciativa tem como foco coordenar operações militares e combater o crime organizado no continente, seguindo uma doutrina trumpista para a região. Atendendo a um pedido de Trump, o grupo assinou acordo para designar as facções brasileiras PCC e CV como narcoterroristas. Segundo o cientista político, isso é perigoso pois abre brecha para uma intervenção militar americana no Brasil.
Trata-se ainda, diz, de munição eleitoral nas mãos de Flávio: “O bolsonarismo atualiza o discurso duríssimo do ‘bandido bom é bandido morto’ usando essa classificação perigosíssima norte-americana de transformar PCC e CV em organizações terroristas. É um tema complexo e acaba favorecendo Bolsonaro pois a população brasileira está desesperada por respostas na segurança pública”, analisa.
Procurada, a campanha de Flávio Bolsonaro não respondeu às perguntas do Valor sobre o tema.
Pela complexidade do tema, Amorim Neto avalia que a defesa de Lula sobre a soberania nesta eleição, nesse caso — apesar de correta — acaba tendo pouco efeito eleitoral por ser algo distante da realidade da população. “Depois do golpe de 1964, não há precedente recente na memória coletiva brasileira de intervenção militar americana no Brasil. Então o eleitorado não atina pro significado disso”, explica.
Pesquisa Datafolha divulgada em agosto corroborou o argumento do analista. O levantamento mostrou que 50% dos brasileiros acreditam que pode haver algum tipo de interferência estrangeira nas eleições. Apenas 32%, porém, dizem que isso representaria um problema para o país. Já 18% afirmam não ver o tema como ameaça.
Nas últimas semanas, prossegue o analista, apareceram outros elementos que ilustram a ameaça que ronda o sistema eleitoral brasileiro. Em relatório enviado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) alertou para o risco de interferência dos EUA nas eleições, segundo noticiado pela Folha de S.Paulo.
A Abin destaca, segundo o jornal, a atuação do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, atribuindo-lhe motivações ideológicas voltadas a influenciar a política interna da região, tendo como alvo o Brasil.
Na semana passada, o PT acionou o ministro Flávio Dino, do STF, solicitando medidas para apurar supostas ações do governo Trump em benefício de Flávio Bolsonaro. Na petição, o partido pediu a abertura de inquérito pela Polícia Federal e o endurecimento das regras contra a aplicação de exigências externas sem respaldo no Brasil. A ação do PT apoia-se em suspeitas de repasses financeiros de organizações da extrema-direita americana à campanha de Flávio, apoio a conteúdos para redes sociais fornecidos à estrutura do PL e impulsionamento pago por perfis no exterior. O objetivo seria identificar os financiadores, prestadores de serviço e beneficiários dessas medidas.
Segundo Amorim, ainda não dá para saber até onde a influência de Trump poderá chegar. O especialista critica, porém, a posição que considera “submissa” adotada pela direita frente a essa ameaça externa. Na visão dele, há uma subserviência aos Estados Unidos estimulada pela família Bolsonaro que não seria uma pauta orgânica de movimentos de direita no Brasil: “O que é o bolsonarismo? É o conservadorismo moral, defesa do liberalismo econômico, intervencionismo militar, é antiespetismo, é contra a universidade, é contra a ciência, é contra a grande imprensa”, diz Amorim, e completa:
“Porém, ele [Bolsonaro] também se diz patriota. Como um patriota pode defender um total alinhamento do Brasil à maior potência do mundo em momento de imperialismo escancarado? Esse alinhamento radical com os Estados Unidos não é uma demanda do eleitorado bolsonarista, isto é uma criação da família Bolsonaro.”
fonte: A transcrição foi feita diretamente da imagem (foto de capa). Valor | Política Eleições — Octavio Amorim Neto, da FGV, diz que ações americanas buscam influenciar pleito no Brasil.
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