PRINCÍPIOS QUE DEVE ORIENTAR NOSSA ATIVIDADE POLÍTICA!
Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, SDV / Prelazia do Marajó
Entramos na semana que antecede o dia da votação das Eleições de 2026. Nós vamos votar para escolher o Presidente ou a Presidenta da República e o Governador ou Governadora do Estado. Elegeremos, também, os que vão nos representar na Assembleia Legislativa do nosso Estado (Deputados/Deputadas), na Câmara Federal (Deputados/Deputadas Federais), dois Senadores ou Senadoras.
Na eleição de 2018 escrevi alguns artigos sobre nosso compromisso como Católicos e Católicas diante deste direito/dever de votar. Entre estes está o artigo “Profeta Ezequiel e as lições para as Eleições”, que publiquei na página da CNBB, no espaço dedicado aos “Artigos dos Bispos”. Convido vocês a relerem estes artigos na íntegra (cf. www.cnbb.org.br/artigos dos bispos).
No entanto, quero dirigir-me mais uma vez a vocês meus irmãos católicos e minhas irmãs católicas, especialmente da Prelazia do Marajó sobre este momento importante que estamos vivendo em nosso país e em nosso Estado.
Acreditamos, como o Papa Francisco, que “a política é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum” (Exortação Apostólica Evangelli Gaudim – A alegria do Evangelho, nº 205). Segundo o Catecismo da nossa Igreja (Artigos 1906 a 1909), este bem comum comporta três elementos essenciais: respeito pela pessoa humana, bem-estar social e a paz.
Princípios que deve nos orientar em nossa atividade política:
- Participar e exercer nosso direito/dever de VOTAR
Nós não devemos nos abster (deixar de comparecer), nem anular ou votar branco. Pensando no bem comum, objetivo maior de toda atividade política, devemos escolher um entre os Projetos que nos foram apresentados para o Brasil e para o nosso Estado e votar. Quando votamos em uma pessoa, estamos votando em um projeto que esta pessoa representa.
É verdade que o voto não esgota o exercício da cidadania, mas tem um valor fundamental para que consigamos manter o Brasil vivendo a democracia representativa. Vivemos um longo tempo, durante a ditadura militar (1964 a 1985) sem votar para presidente, governador e prefeito das capitais e das grandes cidades. Muitas pessoas lutaram muito para pedindo diretas já. Recuperado este direito a partir de 1989, não devemos desvalorizar. Votando, estamos reafirmando que nunca mais queremos ditadura militar no Brasil.
O Concílio Vaticano II assim nos orienta: “Lembrem-se, portanto, todos os cidadãos ao mesmo tempo do direito e do dever de usar livremente seu voto para promover o bem comum” (Gaudium et Spes, 75a).
A Cartilha de Orientação Política da CNBB de 2018, afirmava que “votar nulo ou branco é como a atitude de Pilatos, que lavou as mãos” (cf. página 20). O católico e a católica devem comparecer na seção eleitoral onde está inscrito e votar. Não podemos pecar por omissão, não podemos fazer como Pilatos, lavar as mãos e deixar que Cristo continue sendo condenado a morte.
A Igreja ao nos incentivar a exercer este nosso direito/dever de votar, pede que nosso Voto seja:
- a) CONSCIENTE, ou seja, devemos saber em quem estamos votando, procurar conhecer os candidatos/as, seus partidos, suas propostas para o Brasil, para o nosso Estado, para a nossa região);
- b) LIVRE, ou seja, devemos votar em quem queremos e não em quem alguém manda que votemos; o assédio eleitoral é crime. Devemos votar porque acreditamos na pessoa que estamos votando e nas suas propostas em vista do bem comum.
Jamais devemos vender o voto, porque voto não tem preço, tem consequência e porque vender e comprar voto é crime pela lei 9840/1999; diante da urna eletrônica estamos sozinhos/sozinhas, apenas nós, nossa consciência e Deus.
- c) RESPONSÁVEL, ou seja, devemos votar sabendo que nosso voto pode ajudar a construir o bem comum, objetivo próprio da política e não votar pensando em tirar vantagens pessoais, para nossa família, para nossa igreja ou para nosso grupo de amigos e de amigas. Voto responsável é aquele que é dado em nome de quem ainda não vota, crianças e adolescentes até 15 anos e migrantes; voto responsável é o voto dado pensando na natureza que não vota, mas precisa de cuidado e proteção.
- Recusar a quem nos incentiva a votar por revolta ou por ódio aos partidos e aos políticos
Nossa Igreja nos ensina que devemos usar de nossa inteligência na hora de votar. Isto significa que nosso voto, como já foi lembrado acima, deve ser dado com liberdade, consciência e responsabilidade. Devemos Votar no candidato/na candidata à Presidência e ao Governo do nosso Estado e para o Poder Legislativo estadual e federal que apresentem o melhor Projeto, ou seja, aquele projeto que promova o bem comum, respeite as diferenças, distribua renda, invista em políticas públicas na área da saúde, educação, moradia, segurança e saneamento básico, invista na preservação dos nossos biomas, de modo especial da Amazônia e do Cerrado.
Votar simplesmente para protestar contra partidos e políticos pode nos fazer contribuir com a eleição de projetos e pessoas que pensam somente em si mesmos, em suas famílias e em grupos de apoiadores. Não podemos esquecer que o voto tem consequências.
- Votar levando em conta os ensinamentos da Palavra de Deus, especialmente os ensinamentos de Jesus
Apresento agora alguns dos critérios, que brotam da Palavra de Deus e podem nos ajudar na escolha do Projeto de Governo para o Brasil e para nosso Estado:
- a) Um Projeto fundamentado no amor
“Eu dou a vocês um mandamento novo: amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês” (Jo 13, 34). “O amor é o pleno cumprimento da lei” (Rm 13, 10).
Quem propõe ações contrárias ao amor, foge da proposta de Jesus e não merece o nosso voto. Portanto, quem defende a pena de morte, o uso indiscriminado de armas de fogo, quem propaga o ódio, a perseguição aos que pensam diferente, quem ofende as mulheres, os negros, os indígenas, os pobres, os nordestinos e nortistas, os migrantes, as pessoas em situação de rua, não merece o nosso voto.
- b) Um Projeto fundamentado no perdão e na misericórdia
“Vocês ouviram o que foi dito: ‘olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, lhes digo: não se vinguem de quem fez o mal a vocês” (Mt 5, 38-39). “Não paguem a ninguém o mal com o mal… Não façam justiça por própria conta… Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem” (Rm 12, 17.19.21). “Todos vocês são irmãos” (Mt 23, 8).
A situação de violência a que somos afetados, refiro-me a todas as formas de violência (física, psicológica, privação de direitos, silenciosa), especialmente contra as crianças, adolescentes e mulheres não pode nos induzir a abraçar a solução fácil da violência para superar a violência. Nossa Igreja diz não à pena de morte oficial (aprovada por lei) ou indireta (feita por cada pessoa que porte uma arma de fogo). Esta falsa solução somente faz aumentar a insegurança e a violência na sociedade, bem como somente os mais pobres, negros e grupos minoritários serão as vítimas e muitas vezes, vítimas injustas, fruto do preconceito.
- c) Um Projeto fundamentado na promoção da VIDA, maior dom que Deus nos deu
“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Vida desde a concepção, passando por todas as etapas, da criança que nasce, cresce, chega à adolescência e à juventude, chega a idade adulta e depois na velhice, morre naturalmente. Por isto nossa Igreja diz NÃO a todas as formas de atentado à vida humana: não ao aborto, não à mortalidade infantil, não à redução da maioridade penal para nossos jovens, não às injustiças sociais que nega direitos e que produz morte em todas as idades, não a eutanásia (a antecipação da morte de idosos e enfermos com doenças incuráveis), não a violência policial e das milícias.
Temos que votar no Projeto para o Brasil e para o nosso Estado que garanta sempre a vitória da vida e os direitos inalienáveis de toda pessoa humana: direito de nascer, de ter uma família, de ter moradia, alimentação, condições de conservar e recuperar a saúde, acesso à educação de qualidade (da alfabetização até o ensino superior), trabalho com justa remuneração, do descanso semanal (5 por 2), liberdade religiosa (direito a professar sua fé livremente e o direito até de não professar uma fé), liberdade de expressão com responsabilidade e liberdade de ir e vir; ter direito de escolher os representantes pelo voto direto e livre e de participar da vida política do país, do estado e do município; direito de organizar-se em associações, sindicatos e ONGs para trabalhar pelo bem comum.
- d) Um Projeto fundamentado no serviço aos mais pobres
“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Notícia aos Pobres (Lc 4, 18). “Todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram” (Mt 25, 40). “Fizeram isso”: com fome, demos de comer; com sede, demos de beber; estrangeiro, recebemos em casa; sem roupa, vestimos; doente e preso e fomos visitar. Disse Jesus: “foi a mim que o fizeram”, numa clara opção de Jesus pelos pobres. Tiago, Pedro e João pediram a Paulo que se lembrasse dos pobres. Paulo declara: “Isso eu tenho procurado fazer com muito cuidado” (Gl 2, 10).
Nosso voto tem que ser no Projeto para o Brasil e para nosso Estado que faça uma clara opção pelos pobres, excluídos e marginalizados da sociedade e que garanta a superação das desigualdades sociais entre pessoas, raças e regiões. Seja um projeto para todos, mas que olhe de modo especial os empobrecidos e marginalizados de nossa sociedade, que mantenha e amplie as políticas públicas de superação da miséria, da fome, das injustiças, do racismo, da meritocracia, da discriminação por causa da região onde nasceu ou mora.
- e) Um projeto que respeite o Meio Ambiente, nossos Biomas
O livro do Gênesis nos apresenta Deus como criador de todas as coisas que existem no mundo, incluindo os animais, os pássaros, as plantas, as águas, o rio, o mar e nós homens e mulheres (conferir capítulo 1).
Na hora de escolher o Projeto para o Brasil e para o nosso Estado, merece levar em consideração, um Projeto que respeite a natureza e se comprometa em preservar nossos biomas: caatinga, mata atlântica, pampas, cerrado, amazônia e pantanal.
Para nós que vivemos na Amazonia brasileira, precisamos votar em quem no seu projeto se compromete com a preservação de nossa Floresta, dos nossos Rios, Lagos e Igarapés, bem como garanta o respeito aos territórios e culturas dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores artesanais, seringueiros, açaizeiros e pequenos agricultores.
Vamos votar pela natureza, por nosso bioma, quando formos escolher em quem vamos votar para Deputado/Deputada Federal e para Senador/Senadora. Precisamos qualificar melhor o nosso Congresso Nacional, diminuindo o mais que se puder as chamadas bancadas da bola, da bala, do boi, das bets; gente que vota contra o meio ambiente, contra nossos biomas; gente que vota a favor da liberação de venenos para a agricultura, a favor do marco temporal, do avanço do agronegócio e da mineração.
Votemos em quem apoia as políticas públicas com foco na justiça socioambiental, de valorização da agroecologia, da economia solidária, da agricultura familiar, da reserva extrativista, da reforma agrária.
Conclusão
Nestes últimos dias que antecede a eleição, sozinho, com a família, na sua Comunidade, Pastoral, Organismo, Grupo, Movimento, rezemos a oração atribuída a Salomão, que está no capítulo 9 do Livro da Sabedoria, especialmente o versículo 10: “Manda a Sabedoria desde o céu santo e a envia desde o teu trono glorioso, para que ela me acompanhe e participe de meus trabalhos, me ensine o que é agradável a ti”.
Devemos rezar e deixar-nos guiar pela sabedoria divina na escolha do voto que vamos dar no dia 04 de outubro, para manter nosso Estado democrático de direito e nossa soberania: Brasil livre e para os brasileiros e brasileiras! Pará e Marajó livres e para os paraenses e marajoaras!
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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras. Siga nosso instagram https://www.instagram.com/encantarapolitica/
