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Diocese de Parintins promove diálogo sobre fé, democracia e participação cidadã nas eleições

Diocese de Parintins promove diálogo sobre fé, democracia e participação cidadã nas eleições

Vívian Marler / Projeto Encantar a Política

A Diocese de Parintins, no Amazonas, realizou um encontro on-line para refletir sobre a participação cidadã, o compromisso cristão com a democracia e os desafios do processo eleitoral. A atividade foi conduzida por Dom José, bispo da Diocese de Parintins, e contou com a assessoria de Daniel Seidel, da Comissão Brasileira Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

A reunião teve como ponto de partida a leitura da carta “Não deixemos cair a profecia”, apresentada por Daniel Seidel. O documento denuncia os ataques sofridos por agentes pastorais, religiosas, religiosos, padres, bispos e leigos comprometidos com a defesa dos pobres, da democracia e da Casa Comum. No entanto, o encontro avançou para outras questões relacionadas à presença da Igreja na sociedade, à responsabilidade dos eleitores e à necessidade de fortalecer a educação política nas comunidades.

Durante a transmissão, Daniel Seidel destacou que a Igreja não deve indicar partidos ou candidaturas, mas tem o dever de oferecer critérios para que os cristãos façam escolhas responsáveis. “Nós não temos partido, mas temos lado. E esse lado é o lado dos pobres, de quem respeita os pobres, de quem defende a democracia e a soberania do país”, afirmou.

Para o assessor da Comissão Brasileira Justiça e Paz, a Doutrina Social da Igreja oferece elementos importantes para o discernimento dos eleitores. A dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a justiça social e o cuidado com a criação devem ser considerados na análise das propostas e da trajetória dos candidatos. Segundo ele, o voto não pode ser tratado como uma escolha baseada em simpatia, aparência ou propaganda. Também não deve ser compreendido como uma espécie de torcida organizada. “Não tem que ser um ato de amor; tem que ser um ato de justiça”, disse Daniel, ao defender que os eleitores conheçam a história, as posições e os compromissos dos candidatos antes de escolher.

Ao participar do encontro, Dom José lembrou que a política está presente em decisões que interferem diretamente na vida da população. Saúde, educação, segurança, moradia, assistência social, trabalho e proteção ambiental dependem de escolhas políticas e da forma como os recursos públicos são administrados. Para o bispo, o afastamento da população em relação à política pode favorecer grupos que desejam manter o poder sem participação ou fiscalização social.

A realidade do Amazonas, segundo Dom José, apresenta desafios específicos. Ele mencionou a permanência de grupos familiares e econômicos tradicionais na política e a dificuldade de renovação dos quadros públicos. “Vamos olhar a origem dos nossos candidatos. A grande maioria são filhos, netos e parentes de outros políticos”, afirmou, ao defender que os eleitores observem não apenas os discursos, mas também as práticas e os interesses que envolvem cada candidatura.

O bispo também chamou atenção para a necessidade de analisar o trabalho do Congresso Nacional e dos parlamentos estaduais. Para ele, não basta escolher apenas o candidato à Presidência da República. É preciso conhecer as atribuições de deputados estaduais, deputados federais, senadores, governadores e prefeitos, além de acompanhar como cada representante vota e atua.

A participação das mulheres na política foi um dos temas que mobilizaram as participantes do encontro. As lideranças destacaram que, apesar de constituírem a maioria do eleitorado brasileiro, as mulheres ainda são minoria nos espaços de decisão. Dom José defendeu a presença feminina na política e recordou que a Igreja já participou de debates em defesa da ampliação da representação das mulheres. Daniel Seidel também criticou o uso de candidaturas femininas apenas para cumprir formalidades legais, sem oferecer condições reais de disputa. Segundo ele, alguns partidos registram mulheres apenas para atender à legislação eleitoral, sem garantir estrutura, recursos ou apoio efetivo.

Durante o encontro, uma das participantes lembrou que a redução da jornada de trabalho e o fim da escala seis por um podem beneficiar especialmente as mulheres, que ainda enfrentam a dupla jornada, acumulando o trabalho remunerado com as tarefas domésticas e os cuidados com os filhos e familiares. A discussão também abordou a importância de rejeitar discursos que questionam o direito das mulheres ao voto. Para as lideranças, essa conquista precisa ser protegida e ampliada por meio da participação feminina nos partidos, nos movimentos sociais e nos espaços de governo.

A forma como as campanhas eleitorais são realizadas também foi questionada durante a live. A professora Sálvia, integrante da Coordenação Diocesana de Pastoral de Parintins, criticou a exploração de pessoas pobres em atividades de campanha. Ela relatou a presença de jovens, mulheres, idosos e trabalhadores expostos ao sol por longas horas para realizar atividades de rua em troca de valores considerados baixos. “O povo mais humilde é usado. Esse modelo de fazer campanha é muito dinheiro e explora a pobreza”, afirmou.

Sálvia defendeu que a Igreja e as comunidades promovam uma reflexão mais ampla sobre o financiamento das campanhas e sobre a necessidade de reformular o modo de fazer política no país. Outra participante, identificada como Lídia, reforçou a crítica ao uso de trabalhadores em atividades de campanha. Segundo ela, muitas pessoas permanecem nas ruas em temperaturas elevadas, recebendo valores que não correspondem ao esforço realizado. As falas também destacaram a distribuição de santinhos, o uso de imagens e a propaganda baseada na aparência dos candidatos. Para as participantes, esses mecanismos podem afastar o debate sobre propostas concretas e favorecer quem possui mais recursos financeiros ou maior exposição na mídia.

A circulação de notícias falsas e conteúdos manipulados foi outro ponto central do encontro. As lideranças alertaram que grupos de WhatsApp e redes sociais têm sido utilizados para disseminar informações sem fonte, vídeos fora de contexto e acusações contra candidatos ou adversários políticos. A jornalista Hortência Almeida afirmou que a responsabilidade pela escolha dos representantes exige uma investigação cuidadosa sobre a vida pública de cada candidato. “Não basta um recorte ou uma mensagem. É preciso investigar quem são essas pessoas que estão se colocando à disposição para fazer políticas públicas”, destacou.

Daniel Seidel recomendou que as pessoas não compartilhem imediatamente qualquer conteúdo recebido. Antes, é necessário verificar a origem da informação, conferir a data, consultar outras fontes e observar se o conteúdo foi publicado por veículos confiáveis. A preocupação aumenta diante do avanço das ferramentas de inteligência artificial, que permitem criar imagens, áudios e vídeos falsos com aparência de realidade. A orientação apresentada durante o encontro foi simples, na dúvida, não compartilhar. Além de evitar a propagação de mentiras, a atitude protege a credibilidade de agentes pastorais e lideranças comunitárias, que podem acabar dando aparência de verdade a conteúdos falsos apenas por encaminhá-los.

A irmã Rita, Filha da Caridade, que atua em Boa Vista do Ramos, afirmou que tem buscado orientar as pessoas nas reuniões pastorais. Para ela, mesmo quando uma liderança se sente sozinha ao abordar determinados temas, não é possível permanecer omissa diante da realidade. “Não quero ser omissa naquilo que compreendo e estou buscando”, declarou.

A jornalista Hortência Almeida também defendeu que padres, bispos e lideranças religiosas criem momentos de orientação nas comunidades, sem transformar celebrações em espaços de propaganda eleitoral. Na avaliação das participantes, a Igreja pode contribuir para que as pessoas compreendam a diferença entre política partidária e participação cidadã. Falar sobre políticas públicas, direitos sociais, democracia e responsabilidade eleitoral não significa apoiar uma candidatura específica.

A política, nesse sentido, faz parte da missão pastoral porque interfere na vida do povo. Dom José afirmou que as comunidades precisam criar espaços permanentes de diálogo, não apenas durante o período eleitoral. Para ele, a formação política deve estar presente nas paróquias, pastorais, grupos de reflexão e encontros comunitários.

Durante a live, Daniel Seidel apresentou também ações do projeto ‘Encantar a Política 2026‘ , desenvolvido para promover educação política, participação cidadã e valorização da democracia. Entre os materiais mencionados estão cadernos de formação, roteiros para reuniões, a revista ‘Casa Comum’, conteúdos voltados para a juventude e subsídios sobre espiritualidade e participação política.

O projeto também prevê iniciativas de acompanhamento da atuação parlamentar. Em parceria com o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, serão analisadas votações de deputados federais e senadores a partir de critérios relacionados à defesa dos direitos sociais, à democracia, à dignidade humana e à proteção ambiental. A proposta é oferecer informações para que os eleitores conheçam o desempenho dos parlamentares e não escolham seus representantes apenas com base em propaganda, popularidade ou promessas de campanha.

Daniel explicou que a avaliação não pretende substituir o discernimento dos eleitores, mas oferecer elementos para uma escolha mais consciente. “A gente precisa de mecanismos de avaliação. É importante conhecer quem já está na política e como essas pessoas votaram”, afirmou.

Ao longo do encontro, as falas convergiram para uma mesma preocupação, a necessidade de recuperar o sentido do voto e da participação popular. Muitas pessoas não se lembram em quem votaram para deputado estadual, deputado federal ou senador. Outras escolhem seus candidatos a partir de santinhos encontrados no chão, de vídeos curtos ou de informações recebidas em grupos de mensagens.

Para Daniel Seidel, essa realidade revela a urgência de uma educação política permanente. Ele defendeu que cada liderança comunitária ajude outras pessoas a compreenderem o processo eleitoral e a acompanharem a atuação dos eleitos. A proposta é formar uma rede de cidadãos conscientes, capazes de dialogar sem agressividade, verificar informações e analisar os projetos apresentados pelos candidatos.

Em meio às críticas, o encontro também foi marcado pela esperança. As lideranças reconheceram que existem políticos comprometidos com o bem comum e que muitas comunidades já desenvolvem experiências de participação e controle social. A irmã Valéria lembrou que a Igreja precisa ampliar os espaços de diálogo sobre a realidade do país, especialmente com as pessoas que têm pouco tempo ou poucas oportunidades para acessar informações de qualidade. “Vamos fazendo a nossa parte”, afirmou, ao defender que a esperança seja acompanhada por organização e compromisso.

Ao encerrar sua participação, Daniel Seidel recordou que a política pode ser uma forma de servir ao povo. Para ele, o compromisso cristão não permite abandonar a vida pública aos interesses daqueles que utilizam a pobreza, a desinformação e a manipulação religiosa para conquistar ou manter poder. A mensagem que atravessou o encontro foi clara: o voto não tem preço, mas tem consequências. E cuidar da democracia também é uma forma de cuidar da vida.

Leia a Carta dos Bispos NÃO DEIXEMOS CAIR A PROFECIA
Leia a Revista Casa Comum RCC_15edicao-2-1

Leia o Caderno Encantar a Politica ENCANTAR A POLITICA 2026