‘Quando a fé vira instrumento de poder político’ Robson Sávio alerta para o uso da religião nas eleições e convida eleitores a praticar a checagem e o discernimento
Vívian Marler / Projeto Encantar a Política
A religião pode ser, para muitas pessoas, um lugar de acolhimento, esperança e confiança. Em momentos difíceis, a fé ajuda a encontrar sentido, fortalecer vínculos e renovar a disposição para cuidar da vida em comunidade. Mas essa mesma confiança pode ser utilizada de maneira indevida no período eleitoral. Em um depoimento sobre as Eleições 2026, Robson Sávio chama atenção para o risco de grupos políticos se apresentarem como representantes exclusivos da fé e utilizarem símbolos religiosos para conquistar apoio, espalhar medo e apresentar determinadas candidaturas como se fossem escolhidas por Deus.
A reflexão não questiona a presença de pessoas religiosas na política. Pelo contrário, homens e mulheres de fé têm o direito de participar da vida pública, defender ideias e se candidatar. O alerta é outro, nenhuma religião deve ser transformada em instrumento de dominação política, nem a consciência dos fiéis pode ser substituída por obediência eleitoral.
Segundo Robson Sávio, uma das formas de manipulação da fé acontece por meio do moralismo. Determinados discursos apresentam uma única visão de família, costumes e comportamento como se ela fosse a única expressão possível dos valores cristãos. Com isso, questões complexas da sociedade são reduzidas a frases prontas, enquanto outros temas fundamentais acabam deixados de lado. O depoimento recorda que o Evangelho não se resume à defesa de normas morais. Ele também envolve amor ao próximo, compaixão, justiça, cuidado com os pobres, defesa da dignidade humana e compromisso com quem sofre. Quando a religião é usada apenas para condenar, excluir ou criar inimigos, perde-se uma parte essencial da mensagem cristã, a capacidade de acolher, servir e buscar o bem comum.
Outro alerta apresentado por Robson Sávio está relacionado ao uso das redes sociais e dos aplicativos de mensagens. Perfis falsos, correntes de oração, áudios alarmantes, vídeos antigos e conteúdos retirados do contexto podem ser utilizados para provocar medo. Muitas mensagens exploram o receio do inimigo, do fim dos tempos, do pecado ou de uma suposta ameaça que colocaria toda a sociedade em perigo. A emoção ocupa o lugar da informação.
Em seguida, aparece a promessa de uma solução simples, um candidato apresentado como o único capaz de salvar o país. A linguagem política passa a se aproximar da linguagem religiosa, e o candidato é retratado como enviado, escolhido ou instrumento direto de Deus. Esse tipo de discurso merece atenção porque transforma uma disputa democrática em uma batalha entre o bem e o mal. Quem apoia determinado grupo passa a ser visto como defensor da verdade. Quem discorda é tratado como inimigo, pecador ou ameaça. A democracia, no entanto, não funciona com salvadores. Ela depende de instituições, regras, participação popular, fiscalização e respeito à pluralidade.
Uma das orientações centrais do depoimento é desconfiar de quem se apresenta como única solução para todos os problemas. Nenhuma candidata ou candidato possui poderes absolutos. Nenhuma pessoa eleita será capaz de resolver sozinha as desigualdades, a violência, o desemprego, a crise ambiental, os problemas da saúde ou as dificuldades da educação. A política é uma atividade humana e coletiva. Ela envolve decisões, recursos, prioridades, alianças, responsabilidades e limites institucionais.
Quando alguém se apresenta como o único capaz de salvar o país, a cidade ou a própria religião, é preciso perguntar. Qual é o projeto apresentado? Como ele será colocado em prática? Quem será beneficiado? Que grupos poderão ser prejudicados? O candidato respeita as instituições? Reconhece os limites do cargo que pretende ocupar? Aceita críticas e opiniões diferentes? A linguagem religiosa não substitui a análise das propostas nem a avaliação da trajetória pública.
Robson Sávio também chama atenção para a existência de grupos que utilizam o discurso religioso para alcançar um projeto de poder político. A questão não é a participação de pessoas religiosas nas eleições. Uma democracia plural precisa garantir que cristãos, judeus, muçulmanos, religiões de matriz africana, pessoas de outras tradições religiosas e também quem não possui religião possam participar do debate público em condições de igualdade.
O problema surge quando um grupo tenta utilizar a fé para impor sua visão a toda a sociedade, inclusive às pessoas que não compartilham da mesma crença. Em um país plural, as políticas públicas devem considerar o conjunto da população. O Estado não pode ser transformado em propriedade de uma denominação religiosa, de uma liderança espiritual ou de um grupo que se declara dono da verdade.
A fé pode inspirar valores e compromissos. Mas o poder público precisa atuar de acordo com a Constituição, os direitos humanos e o respeito à diversidade. O uso de versículos bíblicos soltos, frases de efeito e imagens religiosas pode dar aparência de legitimidade a qualquer discurso. Uma passagem da Bíblia, quando retirada do contexto, pode ser utilizada para sustentar praticamente qualquer interpretação. Por isso, o eleitor precisa ter cuidado quando uma mensagem política tenta encerrar uma discussão apenas com uma citação religiosa.
A pergunta não deve ser apenas, “Esse discurso usa a Bíblia?”. É necessário perguntar também o texto foi interpretado corretamente? O versículo está sendo usado para acolher ou para excluir? A mensagem está sendo utilizada para defender a vida ou para espalhar medo? O discurso está coerente com a prática da pessoa que o pronuncia? A proposta apresentada respeita a dignidade de todos? A fé não deve ser usada como atalho para impedir o pensamento crítico.
O depoimento apresenta uma orientação simples, mas muito importante, não compartilhar imediatamente conteúdos que provoquem medo, indignação ou revolta. Durante o período eleitoral, até pessoas próximas podem repassar informações falsas sem perceber. Familiares, amigos e lideranças religiosas também podem ser enganados por vídeos manipulados, áudios antigos ou mensagens descontextualizadas.
A confiança em quem enviou o conteúdo não é suficiente para comprovar sua veracidade. Antes de compartilhar, é importante. Conferir a data da publicação; identificar a fonte original; pesquisar se outros veículos confiáveis divulgaram a mesma informação; verificar se o vídeo é atual; observar se o áudio foi cortado; consultar plataformas de checagem; procurar informações nos canais oficiais da Justiça Eleitoral.
Uma mensagem acompanhada de “compartilhe antes que apaguem” deve despertar ainda mais cautela. A urgência artificial é uma das estratégias utilizadas para impedir que as pessoas tenham tempo de verificar o conteúdo.
Outro convite apresentado por Robson Sávio é comparar o discurso da candidatura com sua trajetória. Uma pessoa pode falar muitas vezes sobre família, valores e defesa dos mais pobres. Mas é necessário observar suas ações concretas. Como votou em matérias de interesse social? Que políticas públicas defendeu? Como se posicionou diante da pobreza? Demonstrou compromisso com a saúde e a educação? Respeitou as mulheres, os povos indígenas, as comunidades tradicionais e as minorias? Atuou de forma transparente? Prestou contas de suas decisões? Tratou adversários e pessoas diferentes com respeito?
A coerência entre palavra e prática é um dos critérios mais importantes para a escolha de representantes. A política não deve ser avaliada apenas pelo tom do discurso, pela quantidade de citações bíblicas ou pela capacidade de mobilizar emoções. É preciso observar resultados, posicionamentos, alianças e responsabilidades.
A fé pode oferecer princípios para a vida pública. Honestidade, compaixão, justiça, solidariedade e cuidado com os mais vulneráveis são valores que podem orientar o compromisso cidadão. O que não pode acontecer é alguém convencer outra pessoa de que votar em determinada candidatura é uma obrigação religiosa ou a única maneira de ser um bom cristão.
A consciência é um espaço de liberdade. Nenhuma liderança, igreja, grupo político ou candidato pode tomar para si a decisão que pertence ao eleitor. Uma pessoa pode votar motivada por valores cristãos e, ainda assim, escolher candidaturas diferentes de outras pessoas que também professam a mesma fé. A diversidade de escolhas não significa falta de compromisso religioso. Significa que a consciência não pode ser aprisionada por um projeto partidário.
O depoimento de Robson Sávio oferece uma contribuição importante para o debate sobre as Eleições 2026 porque ajuda a diferenciar fé de manipulação religiosa. A religião tem lugar na sociedade e pode contribuir para a defesa da justiça, da dignidade humana, da paz, da democracia e do cuidado com a Casa Comum. Comunidades de fé podem formar cidadãos, combater a desinformação, acolher pessoas vulneráveis e estimular a participação social.
Mas a fé não deve ser usada para fabricar inimigos, impor candidaturas ou transformar divergências políticas em guerras religiosas. No ‘Encantar a Política’, a formação cidadã parte do respeito à liberdade de consciência e à autonomia do eleitor. O projeto não indica candidatos nem partidos. Seu compromisso é oferecer informação, critérios de análise e instrumentos para que cada pessoa faça sua escolha de maneira livre e responsável.
Nas eleições, a fé pode iluminar valores. Mas nenhuma candidatura deve ser apresentada como dona de Deus, da verdade ou da salvação nacional. O eleitor tem o direito de acreditar, questionar, comparar e decidir. E, antes de apertar a tecla “confirma”, também tem o dever de cuidar para que sua escolha não seja conduzida pelo medo, pela manipulação ou por uma mentira compartilhada em nome da fé.
Fonte: Esta matéria foi elaborada a partir da transcrição de um depoimento em vídeo de Robson Sávio, sobre o uso da religião no debate eleitoral e os cuidados necessários diante da desinformação, do moralismo político e da tentativa de apresentar candidaturas como escolhidas por Deus.
A publicação contextualiza as falas como uma reflexão do participante e não como posicionamento institucional de todas as religiões ou comunidades de fé.
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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras. Siga nosso instagram https://www.instagram.com/encantarapolitica/
