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Democracia se constrói na vida cotidiana, para além do voto

Democracia se constrói na vida cotidiana, para além do voto

Vívian Marler / Projeto Encantar a Política

No 37º episódio do podcast ‘Escolha a Vida’, professor Francisco de Assis Ribeiro Cavalcante refletiu sobre participação popular, desigualdade, educação política e os desafios de transformar a cidadania em experiência concreta. A democracia não começa nem termina diante da urna eletrônica. Ela se manifesta na escola, na comunidade, no sindicato, na associação, na Igreja, nos movimentos sociais e em todos os espaços onde as pessoas se encontram para dialogar, reivindicar direitos e decidir os rumos da vida coletiva.

Essa foi uma das principais reflexões apresentadas no 37º episódio do podcast ‘Escolha a Vida’, que abordou o tema “Democracia, eleições 2026 e participação para além do voto”. O programa recebeu o professor de Filosofia Francisco de Assis Ribeiro Cavalcante, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE), Campus Pesqueira. Mestre em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco, o convidado possui trajetória dedicada ao ensino, à cidadania, à política, à cultura e à organização coletiva.

Conduzido por Felipe, o episódio procurou aproximar conceitos filosóficos da realidade enfrentada diariamente pelas comunidades urbanas e rurais. A proposta foi mostrar que falar de democracia não significa tratar de um assunto distante, reservado a especialistas ou aos períodos eleitorais. Significa discutir a maneira como a sociedade se organiza e como cada pessoa pode participar da construção do bem comum.

Ao iniciar a conversa, Francisco Cavalcante afirmou que a democracia precisa ser compreendida como uma forma de organização coletiva, e não apenas como um sistema de governo que se limita à alternância entre candidatos e grupos políticos.

Para ele, a vida em sociedade é construída no encontro com os outros. Esse encontro, porém, não acontece somente entre pessoas que pensam de maneira semelhante. A democracia exige convivência com a pluralidade e com as diferenças. “A democracia pressupõe esse conflito com a diferença, ou seja, esse conflito de diferenças que vão fazendo com que a gente possa melhorar esse espaço onde a gente vive”, explicou.

A afirmação revela uma das dificuldades do tempo presente: a tendência de transformar quem pensa diferente em inimigo. Em vez de diálogo, cresce a tentativa de silenciar. Em vez da escuta, prevalece a imposição. Em vez de reconhecer a diversidade, muitos grupos procuram construir ambientes onde todos sejam obrigados a repetir a mesma opinião.

O professor destacou que o diálogo democrático não significa ausência de conflitos. Significa aprender a lidar com eles sem eliminar o outro. Pessoas podem defender interesses semelhantes, mas enxergar os problemas por perspectivas diferentes. É justamente nessa convivência que a democracia encontra sua força.

A participação política costuma ser associada exclusivamente às eleições ou à filiação partidária. O episódio, porém, ampliou essa compreensão. Segundo Francisco, não é necessário ser especialista em política, nem integrar um partido, para participar da construção democrática.

Escolas, universidades, sindicatos, associações, movimentos sociais, comunidades e espaços religiosos também podem ser lugares de formação cidadã e de exercício da democracia. “Nas escolas, nas universidades, nos sindicatos, nas associações, nos movimentos sociais, na comunidade, nos espaços públicos, na própria Igreja também, há sempre uma oportunidade de se construir uma experiência democrática”, afirmou.

Essa percepção é especialmente importante para pessoas que vivem em regiões rurais, periferias urbanas e comunidades afastadas dos centros de decisão. A política não está somente em Brasília ou nos palácios de governo. Ela aparece quando uma comunidade se organiza para reivindicar uma estrada, quando moradores cobram atendimento em uma unidade de saúde ou quando trabalhadores se unem para defender direitos. A democracia se torna real quando as pessoas deixam de ser apenas receptoras de decisões e passam a participar da elaboração, do acompanhamento e da fiscalização das políticas públicas.

Durante a entrevista, o professor chamou atenção para uma contradição presente na sociedade brasileira, muitas pessoas são reconhecidas legalmente como cidadãs, mas continuam sem acesso às condições materiais necessárias para exercer plenamente essa cidadania. O direito pode estar escrito na Constituição, mas não se concretiza quando falta alimentação, água potável, saneamento básico, atendimento de saúde, transporte ou moradia digna. “Eu sou um cidadão, mas, ao mesmo tempo, tenho déficit de cidadania”, resumiu.

A expressão ajuda a compreender que a cidadania não se limita ao direito de votar ou possuir documentos. Ela depende também da possibilidade concreta de viver com dignidade e participar das decisões que afetam a própria existência. Uma pessoa que passa fome, não consegue acessar um serviço de saúde ou vive sem condições mínimas de transporte enfrenta obstáculos que limitam sua participação política. Não se pode exigir que todos se envolvam da mesma forma no debate público quando parte da população está ocupada exclusivamente em sobreviver. Por isso, a educação política é necessária, mas não suficiente. A formação cidadã precisa caminhar ao lado de políticas públicas capazes de reduzir a desigualdade e garantir direitos básicos.

Francisco também questionou a ideia de que bastaria educar as pessoas para que todos os problemas sociais fossem resolvidos. A educação tem um papel decisivo na formação de uma consciência crítica, mas não consegue, sozinha, superar a pobreza, a exclusão e a ausência de serviços públicos. “Não basta dizer para a pessoa, ‘Você é um cidadão’. É preciso dizer também, ‘Você tem condições e possibilidades para exercer essa cidadania”, observou.

A reflexão toca uma ferida antiga da democracia brasileira. Muitas pessoas conhecem seus direitos, mas não conseguem exercê-los. Sabem que podem participar de uma audiência pública, acompanhar um conselho municipal ou cobrar um representante, mas não dispõem de tempo, transporte, informação ou segurança para fazê-lo. Em outros casos, a urgência das necessidades conduz a escolhas imediatas. Quem está sem emprego pode aceitar uma promessa em troca de apoio. Quem enfrenta a falta de medicamentos pode se tornar dependente de favores políticos. Quem vive em uma comunidade sem estrada pode ficar vulnerável a quem oferece uma solução pontual, ainda que não apresente um projeto permanente para o território. Essa realidade não deve ser interpretada como falta de consciência individual. Ela revela uma estrutura desigual que fragiliza a autonomia das pessoas e favorece relações de dependência.

Ao aproximar a discussão da realidade brasileira, especialmente das cidades do interior, o diálogo abordou práticas de coronelismo e de controle político. O professor lembrou que ainda existem grupos econômicos e familiares que concentram poder e influenciam decisões públicas. O controle pode aparecer de diversas formas, promessa de emprego, distribuição de benefícios, pressão sobre trabalhadores, uso da máquina pública ou ameaça velada de retirar oportunidades de quem não segue determinada orientação política.

Nessas situações, a democracia é esvaziada. O voto continua existindo formalmente, mas a liberdade de escolha é comprometida. “Quando se quer dizer ‘aqui quem manda sou eu, aqui quem determina sou eu’, não há espaço para negociação”, afirmou Francisco.

A autoridade pode ser necessária em algumas relações sociais, como na família ou na escola. No entanto, no campo democrático, ela precisa estar submetida ao diálogo, à igualdade e ao respeito. Quando se transforma em poder absoluto, deixa de servir à organização coletiva e passa a limitar a liberdade. A compra de votos, por sua vez, não é apenas uma prática ilegal. É também uma forma de exploração da vulnerabilidade social. O eleitor recebe uma vantagem momentânea, mas a comunidade inteira pode permanecer sem políticas públicas estruturantes durante anos.

Outro conceito apresentado no episódio foi o de “analfabetismo político”. A expressão não se refere somente à falta de informação sobre partidos, cargos ou eleições. Trata-se da dificuldade de compreender como as decisões públicas afetam a vida de cada pessoa e como a população pode interferir nesse processo. O analfabetismo político se fortalece quando a sociedade é convencida de que política é assunto exclusivo de quem possui dinheiro, influência ou mandato.

Essa visão alimenta a apatia. As pessoas passam a acreditar que nada pode ser mudado, que todos os políticos são iguais e que a participação não produz resultados. Aos poucos, afastam-se dos espaços de decisão e deixam de acompanhar o trabalho dos representantes que elegeram. No entanto, a ausência da população não elimina a política. Apenas abre mais espaço para que grupos organizados definam prioridades de acordo com seus próprios interesses.

Por isso, a participação precisa ir além do momento do voto. É necessário acompanhar os governos, fiscalizar os representantes, participar de conselhos, fortalecer associações, acompanhar audiências públicas e construir redes de solidariedade.

O professor Francisco destacou que a pessoa isolada é mais vulnerável. A organização coletiva, por outro lado, permite que grupos historicamente fragilizados conquistem força para reivindicar direitos e disputar os rumos da sociedade. Essa organização pode ocorrer em diferentes espaços, comunidades rurais, movimentos sociais, sindicatos, coletivos culturais, pastorais, universidades e entidades da sociedade civil.

Não se trata de eliminar as diferenças entre as pessoas, mas de reconhecer objetivos comuns e construir estratégias de participação. “Sem a organização não se consegue provocar transformações na sociedade”, afirmou.

Essa constatação possui grande significado em um cenário marcado pela fragmentação e pela polarização. Muitas vezes, as redes sociais aproximam pessoas que pensam de maneira semelhante, mas não necessariamente favorecem a construção de ações coletivas. Compartilhar uma publicação pode ser importante, mas não substitui a presença em uma reunião, a mobilização comunitária ou a cobrança organizada por direitos. A democracia precisa de cidadãos conectados, mas também de pessoas dispostas a caminhar juntas no mundo real.

A presença de um professor de Filosofia no podcast possibilitou uma reflexão sobre o papel do pensamento crítico na vida pública. Desde a experiência democrática da Grécia antiga até os desafios contemporâneos, a filosofia ajuda a questionar conceitos que muitas vezes são usados sem que seu significado seja compreendido. Liberdade, igualdade, autoridade, cidadania e participação não são palavras abstratas. Elas precisam ser examinadas a partir das experiências concretas das pessoas.

A liberdade, por exemplo, não pode ser entendida apenas como a ausência de proibições. Uma pessoa sem acesso à educação, à renda ou à saúde possui liberdade apenas formal. Da mesma maneira, a igualdade não significa que todos sejam idênticos, mas que tenham oportunidades e condições para participar sem medo de serem submetidos pela força ou pelo poder econômico.

A filosofia contribui para que a sociedade não aceite como natural aquilo que foi historicamente construído. Também ajuda a perceber que a realidade pode ser transformada. Inspirado em Paulo Freire, o professor lembrou que educar não significa apenas aprender a ler palavras, mas também interpretar o mundo e reconhecer as possibilidades de intervir nele.

O nome do podcast ‘Escolha a Vida’ ganhou um sentido especial ao longo da conversa. Escolher a vida, nesse contexto, não se resume a uma decisão individual. É assumir compromisso com a existência do outro, com os direitos coletivos e com a construção de uma sociedade em que ninguém seja descartado. A escolha da vida passa pelo combate à fome, pela defesa da educação pública, pelo acesso à saúde, pela preservação ambiental e pelo respeito às diferenças. Passa também pela disposição de enfrentar práticas políticas que transformam necessidades humanas em instrumentos de controle.

As eleições de 2026 aparecem, assim, como uma oportunidade de reflexão, mas não como o único momento de participação. O voto é importante, mas precisa ser acompanhado por informação, diálogo e acompanhamento dos eleitos. O cidadão não deve entregar um cheque em branco ao candidato escolhido. Deve perguntar, acompanhar, cobrar e participar.

Ao tratar da democracia para além do voto, o 37º episódio do podcast convida a uma mudança de postura. Em vez de esperar que alguém resolva tudo, é necessário reconhecer que a vida pública também depende das escolhas e da organização cotidiana da sociedade. A democracia não é uma obra pronta. É uma construção permanente, feita de encontros, conflitos, escuta, responsabilidade e coragem.

Ela começa quando uma pessoa percebe que sua voz tem valor. Fortalece-se quando essa voz se junta à de outras. E pode transformar a realidade quando a comunidade decide não aceitar como destino aquilo que é resultado de escolhas políticas.

No fim, participar é mais do que votar. É não desistir do outro, não abandonar a vida coletiva e não permitir que as decisões sobre o futuro sejam tomadas sempre pelos mesmos.

O episódio 37 do podcast ‘Escolha a Vida’ está disponível no canal do programa https://youtu.be/U_2-srt2KN0?si=SyzPgGweAuLA4bNP

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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras. Siga nosso instagram https://www.instagram.com/encantarapolitica/