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“Mulheres vivas” manifesto transforma indignação em compromisso contra a violência

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“Mulheres vivas” manifesto transforma indignação em compromisso contra a violência

Vívian Marler / Projeto Encantar a Politica

Live realizada pelo CNLB, pela CRB e pelas Comunidades Eclesiais de Base marcou o lançamento de uma mobilização em defesa da vida das mulheres e pelo fortalecimento de redes de proteção, denúncia e cuidado. Na noite da última quinta-feira, 3 de setembro, uma palavra atravessou a live “Mulheres Vivas — live, conversa e encontro”, transmitida pelo canal do Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB) no YouTube, ‘compromisso’. Mais do que apresentar um manifesto, a iniciativa propôs uma tomada de posição diante da violência que atinge mulheres de todas as idades, territórios e condições sociais. O documento é uma ação conjunta do CNLB, da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), com a participação de assessores e assessoras ligados à articulação das comunidades.

A mobilização nasce da indignação, mas não se encerra nela. O propósito anunciado durante a transmissão é transformar a dor em ação, a memória em responsabilidade e o silêncio em denúncia. “Quando uma mulher é violentada, toda a humanidade também é violentada”. A frase resume o espírito do manifesto. A violência contra as mulheres não é apresentada como um problema privado, restrito à casa ou à relação entre vítima e agressor. Ela é compreendida como uma ferida social, sustentada por estruturas de desigualdade, machismo, omissão e naturalização da violência.

A live começou com uma afirmação simples, mas carregada de significado, a vida das mulheres importa. Importa porque são elas que trabalham, estudam, cuidam, educam, criam soluções e sustentam rotinas que muitas vezes permanecem invisíveis. Estão na ciência, na saúde, na educação, no campo, nas fábricas, nos serviços, na administração pública e nas comunidades.

A sociedade se movimenta diariamente a partir do trabalho das mulheres, remunerado ou não. Elas cuidam de pessoas, organizam casas, acompanham famílias, constroem relações e permanecem firmes mesmo quando enfrentam sobrecarga, medo e insegurança. Ainda assim, muitas vivem cercadas pela ameaça. A violência aparece no controle do corpo, na limitação da autonomia, na agressão física, na violência psicológica, no abuso sexual, na humilhação, na dependência econômica e também nos ataques praticados no ambiente digital.

“Viver não pode ser ato de coragem. Existir não pode ser risco diário”. A frase, repetida durante a transmissão, dá dimensão ao desafio. Uma sociedade que obriga mulheres a calcular rotas, silenciar opiniões, esconder marcas, controlar comportamentos e temer dentro da própria casa ainda não conseguiu garantir o direito mais básico, viver em segurança.

O manifesto rejeita a ideia de que a violência contra as mulheres seja resultado de episódios isolados ou de situações imprevisíveis. Ela é apresentada como consequência de uma estrutura social que, durante séculos, atribuiu aos homens o direito de decidir e às mulheres a obrigação de obedecer, cuidar e suportar. Nesse modelo, o controle pode ser confundido com amor, o ciúme pode ser tratado como prova de afeto e a dominação pode ser escondida atrás de justificativas familiares ou culturais.

Mas violência não é demonstração de amor. É crime, controle e abuso de poder. A responsabilidade nunca é da mulher que sofre a agressão. Não está na roupa, no comportamento, no horário, na profissão, na decisão de terminar uma relação ou na tentativa de reconstruir a própria vida. A responsabilidade é de quem agride, e também de uma sociedade que se cala, relativiza ou protege o agressor. “A culpa nunca é de quem sofre. A agressão é de quem agride”. Por isso, a proposta apresentada na live não se limita à denúncia. É preciso educar para relações de respeito e igualdade, prevenir a violência, acolher as vítimas, fortalecer os canais de proteção e responsabilizar os agressores.

Um dos momentos mais fortes da transmissão foi a leitura do trecho do Segundo Livro de Samuel que narra a violência sexual sofrida por Tamar, violentada pelo próprio irmão, Amnom. A história bíblica revela não apenas a violência cometida contra Tamar, mas também o abandono que veio depois. Ela foi expulsa, desonrada e deixada em situação de desolação. O pai, Davi, não tomou providências, e a vítima permaneceu marcada pelo silêncio e pela omissão de quem deveria protegê-la.

A narrativa foi apresentada como um espelho de muitas situações ainda vividas por mulheres. A violência acontece dentro de casa, praticada frequentemente por alguém conhecido, e pode ser seguida pelo descrédito, pela culpabilização da vítima e pela ausência de resposta das instituições e da própria família. Tamar não aparece apenas como personagem de uma história antiga. Ela representa as mulheres que tiveram seus corpos violados, suas palavras desacreditadas e seus sonhos interrompidos. A pergunta que permanece é incômoda, quantas mulheres ainda são violentadas e depois abandonadas à própria sorte?

Durante a live, foram lembradas mulheres assassinadas em diferentes cidades brasileiras. Seus nomes foram pronunciados como forma de romper com a estatística fria e devolver humanidade às vítimas. Jéssica Nathália Assis, Denise Tiso, Fabrícia Costa de Souza, Tainara Souza Santos, Adriele Malaquias, Érica Vidal da Silva, Leila Lopes da Silva, Cláudia Valério de Sardo, Adriana Lúcia de Souza, Rosilene Barbosa, Erica França da Conceição e Maria José Ferreira foram algumas das mulheres mencionadas.

Também foram lembradas vítimas de feminicídio no estado de Mato Grosso, entre elas Dinah Mário Ferreira da Silva, Rosilda Nogueira Rodrigues, Francisca Alves do Nascimento, Maila Rafaela Martins, Vitorina Alves, Janaína Ribeiro do Nascimento, Lorrane Cristina da Silva Limas, Eva Domingas de Oliveira, Maíra Balbino Dias, Júlia Iglesias Souza Neres e Raquel Catani. Cada nome carregava uma história, uma família, uma cidade e uma ausência. Pronunciá-los foi uma forma de afirmar que nenhuma mulher deve desaparecer completamente sob o peso dos números.

Por trás de cada registro de feminicídio existe uma pessoa que tinha planos, vínculos, afetos e possibilidades. Existe uma mãe que chora, uma filha que sente falta, uma amiga que procura respostas, uma comunidade que tenta compreender como aquela vida foi interrompida. A memória, nesse contexto, não é apenas lembrança. É também denúncia. Recordar as vítimas significa recusar a normalização da violência e exigir que suas mortes não sejam tratadas como acontecimentos inevitáveis.

A transmissão também prestou homenagem a Maria da Penha Maia Fernandes, farmacêutica e ativista cuja trajetória se tornou símbolo da luta contra a violência doméstica no Brasil. A Lei nº 11.340, sancionada em 7 de agosto de 2006, nasceu depois de anos de luta contra a impunidade e a omissão do Estado brasileiro. O caso de Maria da Penha chegou à Comissão Interamericana de Direitos Humanos e contribuiu para que o Brasil fosse responsabilizado internacionalmente pela ausência de medidas eficazes de proteção às mulheres.

A legislação representou uma mudança profunda na maneira de compreender a violência doméstica. Situações que antes eram tratadas como conflitos particulares passaram a ser reconhecidas como violações de direitos e responsabilidade do Estado. A Lei Maria da Penha estabeleceu mecanismos de proteção, medidas protetivas de urgência, atendimento especializado e instrumentos de responsabilização dos agressores. Também contribuiu para a criação e o fortalecimento de uma rede de atendimento formada por profissionais da assistência social, psicologia, segurança pública e Justiça.

A própria live, no entanto, ressaltou que a existência da lei não encerra a luta. É necessário garantir que ela seja conhecida, aplicada e acompanhada por políticas públicas capazes de proteger as mulheres. O manifesto lembra ainda a importância do Disque 180, canal de orientação e denúncia de violência contra a mulher, além das Delegacias Especializadas, das Casas da Mulher Brasileira e dos demais serviços da rede de proteção.

Embora atinja mulheres de diferentes grupos, a violência não se manifesta da mesma maneira para todas. Mulheres negras, indígenas, pobres, migrantes, mulheres com deficiência e aquelas que vivem em áreas distantes dos centros urbanos enfrentam obstáculos adicionais para denunciar e acessar proteção. A desigualdade econômica pode prender a mulher ao agressor. A ausência de transporte, atendimento especializado e rede familiar pode dificultar a saída de uma situação de violência. O racismo, a pobreza e a invisibilidade institucional tornam ainda mais perigoso o caminho em busca de ajuda.

O manifesto chama atenção para a necessidade de políticas públicas articuladas, capazes de alcançar as mulheres nos territórios onde vivem. Não basta criar leis. É preciso garantir serviços, profissionais preparados, acolhimento, proteção e acompanhamento. A violência psicológica também foi destacada como uma das formas mais silenciosas e persistentes de agressão. Ela pode aparecer no controle, na humilhação, na ameaça, no isolamento e na destruição da autoestima. Muitas vezes, precede a violência física e permanece invisível até que a situação se agrave.

Um dos compromissos assumidos durante a live foi o de construir comunidades que não escondam as feridas. A proposta é que igrejas, grupos, movimentos e organizações sociais sejam espaços de acolhida, escuta e proteção, nunca ambientes onde a vítima seja desacreditada ou pressionada a permanecer em uma relação violenta. A fé, segundo o manifesto, não pode ser indiferente ao sofrimento. Deve se traduzir em cuidado, compromisso e defesa da dignidade. Isso significa não usar valores religiosos para justificar submissão, silenciamento ou permanência forçada em situações de risco.

Também significa não proteger agressores em nome da reputação de uma família, de uma comunidade ou de uma instituição. O compromisso apresentado é direto não silenciar diante da violência; não culpabilizar as vítimas; não proteger os agressores; acolher e escutar; denunciar e cuidar; educar para relações de respeito e igualdade; defender a vida das mulheres em todas as circunstâncias.

A mensagem do manifesto encontra sua síntese em uma convocação que ultrapassa os limites das organizações que o promovem, “Nem uma mulher a menos. Nem uma vida silenciada. Nenhuma violência tolerada”. A mobilização pretende dialogar com outras religiões, movimentos populares, organizações sociais e diferentes segmentos da sociedade. O objetivo é somar forças para enfrentar as múltiplas formas de violência contra as mulheres, inclusive aquelas que se intensificam nas redes sociais por meio de discursos de ódio, ameaças e exposição indevida.

A luta pela vida das mulheres não pode ser responsabilidade exclusiva delas. Homens também precisam se comprometer com a transformação das relações, questionar comportamentos machistas e abandonar a omissão diante da violência praticada por outros homens. A prevenção começa na educação. Nas famílias, nas escolas, nas comunidades, nas igrejas, nos locais de trabalho e nos espaços públicos. É preciso ensinar meninos e meninas que amor não é posse, autoridade não é dominação e diferença não pode produzir desigualdade.

Ao final, a live assumiu um tom de oração e compromisso. As palavras pediram coragem para romper o silêncio, sabedoria para reconhecer os sinais da violência e disposição para denunciar as estruturas que alimentam o machismo e a dominação sobre os corpos das mulheres. A oração também evocou o desejo de que nenhuma mulher precise fugir para sobreviver, nenhuma menina cresça aprendendo a ter medo e nenhuma mãe seja obrigada a chorar a morte de uma filha assassinada.

Mas, para além da oração, a transmissão deixou uma tarefa concreta, transformar as comunidades em redes de proteção e a indignação em atitude. Porque nenhuma mulher deveria enfrentar sozinha a violência. Nenhuma vítima deveria precisar convencer o mundo de que sua dor é verdadeira. Nenhuma denúncia deveria ser recebida com desconfiança ou silêncio.

A campanha ‘Mulheres Vivas’ nasce, assim, como um chamado para que a sociedade reconheça a violência, enfrente suas causas e proteja as mulheres antes que a ameaça se transforme em tragédia. Até que todas possam viver sem medo, a luta continua. Com memória para não esquecer as vítimas, resistência para enfrentar as estruturas de violência e esperança para construir relações mais justas.

‘Mulheres vivas. Mulheres livres. Mulheres protegidas’. Para denúncias e orientações sobre violência contra a mulher, ligue 180. Em situação de emergência, procure a polícia pelo 190.

Assista a live https://www.youtube.com/live/6EjZHYvXuDE?si=Zso2Eh8JuODmlSVA

 

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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras. Siga nosso instagram https://www.instagram.com/encantarapolitica/