Pular para o conteúdo
Home » Notícias e Artigos » Pastorais do Campo defendem soberania popular e voto comprometido com os territórios

Pastorais do Campo defendem soberania popular e voto comprometido com os territórios

Pastorais do Campo defendem soberania popular e voto comprometido com os territórios

Vívian Marler / Projeto Encantar a Política

Live promovida pela Comissão Episcopal para a Ação Social Transformadora da CNBB abriu ciclo de debates sobre as eleições de 2026 e chamou atenção para os direitos de camponeses, povos indígenas, quilombolas, pescadores, ribeirinhos e migrantes. A soberania de um país não se mede apenas pela força de suas instituições ou pelo tamanho de sua economia. Ela também se revela na capacidade de seu povo decidir os próprios caminhos, proteger seus territórios e participar das escolhas que definem o presente e o futuro da sociedade.

Foi a partir dessa compreensão que a Comissão Episcopal para a Ação Social Transformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) abriu, na noite de quinta-feira, 3 de setembro, o ciclo de debates “Eleições 2026: Ação Sociotransformadora por Soberania”. A transmissão foi realizada pelo canal @cepastcnbb, no YouTube, e reuniu representantes da Articulação das Pastorais do Campo.

O primeiro encontro teve como eixo a necessidade de construir um projeto de país que coloque a vida, a justiça social, a soberania popular e a proteção dos territórios no centro do debate eleitoral. A programação seguirá ao longo do mês de setembro, sempre às quintas-feiras, às 19h30, reunindo articulações das pastorais sociais e organismos ligados à ação transformadora da Igreja.

Na abertura, Tiago Valentim, secretário executivo da Articulação das Pastorais do Campo, acolheu os participantes e apresentou a proposta do ciclo. Segundo ele, a iniciativa pretende contribuir para uma participação democrática mais qualificada, estimular o voto consciente e levar para o debate público as pautas concretas vividas nos territórios.

A proposta não é indicar candidatos ou partidos. O objetivo é oferecer elementos para que eleitoras e eleitores possam analisar projetos, trajetórias e compromissos. A política, nesse sentido, não aparece como uma disputa distante, restrita aos palanques ou aos espaços institucionais. Ela está presente na vida de quem luta pela permanência na terra, na defesa dos rios, na proteção das florestas, na garantia dos territórios indígenas e quilombolas e na sobrevivência da pesca artesanal. A cada decisão tomada no Congresso Nacional, nas assembleias legislativas e nos governos municipais e estaduais, a vida das comunidades pode ser protegida ou ameaçada.

Ao saudar os participantes, padre Edinho, assessor da Comissão Episcopal para a Ação Social Transformadora, destacou que a iniciativa nasce de uma responsabilidade cidadã e de uma sensibilidade diante da realidade concreta do povo. O assessor lembrou que cada pastoral acompanha uma dimensão específica da vida social. As Pastorais do Campo, por exemplo, caminham junto a camponeses, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores, comunidades tradicionais e populações que vivem da terra, das águas e da floresta.

Essa proximidade permite perceber aquilo que muitas vezes não aparece nos discursos oficiais: a insegurança provocada pela falta de regularização fundiária, a ameaça de expulsão dos territórios, a violência contra lideranças, o avanço de projetos predatórios e a ausência de políticas públicas capazes de garantir condições dignas de vida.  A fala de padre Edinho reforçou que o discernimento eleitoral precisa considerar essas realidades. O voto não pode ser separado da vida concreta das pessoas. A escolha de um representante tem relação direta com a possibilidade de uma família permanecer em seu território, de uma comunidade preservar sua cultura, de um rio continuar vivo e de uma população ter acesso a direitos básicos.

Em mensagem exibida durante a live, Dom Nilton Lisboa de Oliveira, presidente da Comissão Pastoral da Terra e bispo referencial da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora, afirmou que o processo eleitoral precisa ser acompanhado com atenção pelas pastorais sociais. A orientação apresentada pelo bispo foi para que os eleitores analisem os projetos dos candidatos e verifiquem seus compromissos com os camponeses, os povos indígenas, as comunidades quilombolas, os pescadores, os ribeirinhos e os pequenos agricultores.

Mais do que avaliar os cargos do Executivo, Dom Nilton chamou atenção para a importância de escolher também representantes para as assembleias legislativas, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal. É nesses espaços que são discutidas e aprovadas leis capazes de afetar diretamente a vida dos territórios. Uma decisão tomada em Brasília pode alterar direitos conquistados ao longo de décadas e atingir comunidades que, muitas vezes, não têm acesso direto aos centros de poder.

A mensagem do bispo pode ser resumida em uma convocação, votar nas causas que as pastorais defendem e nas pessoas dispostas a assumir compromisso com elas. Para Dom Nilton, a ação pastoral durante o período eleitoral inclui ajudar as comunidades a pensar, refletir e participar. Não se trata de escolher por elas, mas de contribuir para que tenham condições de fazer escolhas livres, conscientes e responsáveis.

Outro ponto destacado foi o enfrentamento à corrupção eleitoral e à compra de votos. Dom Nilton mencionou a importância dos comitês de combate à corrupção eleitoral e citou a experiência desenvolvida no Pará, por meio de uma parceria entre a CNBB Regional e o Ministério Público Eleitoral.

A compra de votos foi apresentada como uma prática que transforma direitos em favores e enfraquece a autonomia do eleitor. Quando uma necessidade básica é utilizada para controlar a escolha política de uma pessoa, a democracia é atingida em sua raiz. Por isso, a orientação foi para que experiências de fiscalização e denúncia sejam fortalecidas em outros estados e que as comunidades conheçam os caminhos para comunicar irregularidades. A democracia precisa garantir que cada pessoa possa votar sem medo, sem pressão e sem ser obrigada a trocar sua consciência por uma promessa imediata.

Durante a transmissão, Tiago Valentim apresentou as organizações que integram a Articulação das Pastorais do Campo Pastoral da Juventude Rural; Conselho Indigenista Missionário (CIMI);  Comissão Pastoral da Terra (CPT); Cáritas Brasileira; Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM); Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP).

Embora atuem em áreas distintas, as pastorais se encontram em uma realidade comum: a defesa da vida de populações que enfrentam desigualdades, abandono, violência e ameaças aos seus modos de viver.

Cada representante trouxe para a live a experiência de quem está próximo das comunidades. Não são apenas análises sobre o campo, a floresta ou os rios. São falas construídas a partir da convivência com famílias, lideranças e grupos que resistem diariamente para permanecer onde sempre viveram. A participação dos representantes deu ao debate um rosto concreto. A soberania, naquele espaço, não foi tratada como conceito abstrato, mas como direito de uma comunidade decidir sobre seu território, de um povo manter sua cultura e de uma família produzir sem ser expulsa da terra.

Na exposição do Tiago Valentim, o processo eleitoral de 2026 foi situado em um cenário de forte tensão política e social. A análise apresentada questionou a ideia de que o Brasil esteja simplesmente dividido entre dois polos equivalentes. O que estaria em jogo, segundo a reflexão, seria a defesa da democracia diante de forças que estimulam rupturas institucionais, degradam o debate público e transformam adversários políticos em inimigos.

A conjuntura atual foi relacionada a um processo mais amplo, vivido pelo país ao longo dos últimos dez ou doze anos, marcado pelo crescimento de fundamentalismos, pela emergência da extrema direita, pela fragmentação social e pelo enfraquecimento da convivência democrática. Quando a divergência passa a ser tratada como ameaça, a política perde sua capacidade de construir soluções. O debate deixa de ser espaço de escuta e se transforma em disputa permanente, alimentada pelo medo, pelo ódio e pela desinformação.

Para Tiago Valentim, a defesa da democracia exige recuperar a capacidade de diálogo, respeitar a Constituição Federal e fortalecer a participação das comunidades. A democracia, nessa perspectiva, não se resume à defesa das instituições. Ela precisa alcançar os territórios e garantir direitos para quem historicamente permanece à margem das decisões. A fala do CIMI destacou a permanência das ameaças aos direitos dos povos indígenas, especialmente no que se refere à demarcação e à proteção territorial.

Tiago Valentim lembrou que a luta contra o chamado marco temporal continua aberta e que, nos últimos anos, o Congresso Nacional aprovou ou discutiu diversas medidas consideradas prejudiciais aos direitos indígenas. Entre os pontos citados esteve a Lei nº 14.701, relacionada à tese do marco temporal e aos procedimentos de demarcação. A exposição chamou atenção para o impacto de decisões legislativas sobre centenas de terras indígenas que ainda aguardam a conclusão de processos administrativos.

O dado apresentado durante a live aponta a existência de centenas de territórios com pendências de demarcação. Cada uma dessas áreas, porém, não representa apenas um processo ou um número. Ali vivem povos, famílias, crianças, anciãos e comunidades cuja sobrevivência está vinculada à terra. A demora na demarcação amplia a insegurança, favorece conflitos e deixa os povos indígenas mais vulneráveis à invasão, à exploração ilegal e à violência. Por isso, o voto foi apresentado como uma ferramenta decisiva. Escolher representantes comprometidos com os direitos indígenas significa também defender o direito coletivo a um meio ambiente saudável e enfrentar a naturalização da violência contra os povos originários.

Uma das contribuições mais importantes do encontro foi deslocar o foco exclusivo da disputa presidencial. As Pastorais do Campo lembraram que a vida das comunidades também depende da composição do Congresso Nacional e das assembleias legislativas. São deputados e senadores que votam leis sobre terra, mineração, meio ambiente, agricultura, pesca, povos indígenas, comunidades tradicionais e proteção social.

A escolha de um parlamentar, portanto, não pode ser orientada apenas pela popularidade, pela propaganda ou pela capacidade de comunicação nas redes sociais. É necessário observar como cada candidato compreende o direito à terra, a defesa dos territórios e a proteção das populações vulneráveis. A pergunta que atravessou a live foi direta, que projeto de país está sendo defendido por cada candidatura? E, ainda mais importante, esse projeto considera a vida de quem vive no campo, nas águas, nas florestas e nas periferias?

Apesar do diagnóstico de um cenário difícil, a live não terminou entregue ao desânimo. A fala do Tiago Valentim afirmou que a Igreja e a sociedade têm o desafio de voltar às bases, recuperar a formação política e fortalecer as comunidades. É preciso sair dos espaços fechados e reencontrar o povo onde ele vive, trabalha, sofre e se organiza. Essa aproximação é fundamental para recuperar o sentido da política como possibilidade de transformação. Não uma política baseada em interesses particulares ou em disputas de poder, mas uma política capaz de construir um país mais justo, solidário e democrático.

A formação política, nesse contexto, não significa impor escolhas. Significa ajudar as pessoas a compreenderem a realidade, identificarem ameaças, reconhecerem propostas e participarem com autonomia. O desafio é reconstruir a confiança na participação popular, especialmente entre aqueles que foram levados a acreditar que nada muda e que a política não tem relação com sua vida.

Ao reunir as Pastorais do Campo, a live revelou que falar de soberania é falar do direito de permanecer. Permanecer na terra sem ser expulso. Permanecer no território sem ter a cultura destruída. Permanecer junto ao rio sem ver a pesca desaparecer. Permanecer na floresta sem conviver com a ameaça constante da invasão. Permanecer na comunidade com dignidade, segurança e direitos.

A soberania popular começa quando o povo pode decidir sobre os rumos de sua própria vida. E essa decisão passa pelo voto, mas não termina nele. Passa pela organização comunitária, pela fiscalização dos eleitos, pela denúncia da corrupção, pela defesa dos direitos humanos e pela disposição de construir um país que não trate seus territórios e suas populações como obstáculos ao desenvolvimento.

A primeira live do ciclo deixou um recado para as eleições de 2026: não basta perguntar quem está concorrendo. É preciso perguntar que projeto de sociedade cada candidatura representa e quem será protegido por suas decisões. Nas comunidades do campo, nas aldeias, nos quilombos, nas colônias de pescadores e entre os povos migrantes, a política se mede pela vida concreta.

E, quando o voto é orientado pela memória, pela consciência e pelo compromisso com os mais vulneráveis, ele deixa de ser apenas uma escolha individual. Torna-se parte da construção coletiva de um país soberano, democrático e socialmente justo.

Assista a live em https://www.youtube.com/live/_5OLYIgTOBo?is=Q9yuXOabeTfJmEw1

…………..
Se você gostou deste artigo inscreva-se no canal do WhatsApp https://whatsapp.com/channel/0029VbDXXZ4LI8YcEhonar3m
O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras. Siga nosso instagram https://www.instagram.com/encantarapolitica/