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Curso sobre incidência política encerra formação com chamado à vigilância popular e ao combate à corrupção

Curso sobre incidência política encerra formação com chamado à vigilância popular e ao combate à corrupção

Vívian Marler / Projeto Encantar a Política

O encerramento de um curso pode marcar o fim de uma etapa, mas, para quem atua na defesa de direitos, também representa um novo começo. Foi com essa perspectiva que o ‘Curso de Extensão “Incidência Política para as Eleições 2026” encerrou seu ciclo de estudos na noite de quarta-feira (16), com uma aula dedicada à relação entre fé, cidadania e combate à corrupção. Transmitida pelo YouTube do Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB), a formação teve como tema “Incidência Política para as Eleições 2026 – Aula 04” . A iniciativa é promovida pelo Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (SARES), em parceria com o CNLB – Regional Norte 1 , com certificação da Faculdade Católica do Amazonas.

Apresentado por Mary Nelys, que recebeu no debate os assessores Helen Prestes, professora e articuladora da Escola Fé e Cidadania; Diego Aguiar do SARES, e Dom José Ionilton de Oliveira, bispo da Prelazia do Marajó. Desde o início, a aula lembrou que o encerramento do curso não significa o fim da participação política. Ao contrário, é um convite para que os conhecimentos construídos ao longo da formação sejam transformados em presença, organização e ação nos territórios. “Na luta popular, o encerramento de um curso é sempre um ponto de partida para a ação”, destacou a abertura do encontro.

A reflexão também reforçou que o voto é uma importante ferramenta de transformação, mas não atua sozinho. Para que produza mudanças concretas, precisa estar acompanhado de consciência, organização popular e vigilância permanente sobre as decisões e os representantes eleitos.

Ao longo do curso, os participantes foram convidados a compreender a incidência política não como um conceito distante ou restrito aos espaços institucionais, mas como uma prática ligada à vida cotidiana e às lutas concretas da população. A incidência política, conforme foi destacado durante a aula, por Dom Ionilton, tem rosto, cor, território e causas urgentes. Ela nasce das reivindicações por terra, trabalho, moradia digna, saúde, educação, proteção das vidas ameaçadas e enfrentamento da violência contra as mulheres.

Essa perspectiva ganha uma dimensão ainda mais forte na Amazônia, onde comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, camponesas e urbanas enfrentam diariamente desafios relacionados à ausência de políticas públicas, à exploração dos territórios e à desigualdade social. A formação lembrou que a política não pode ser guiada pela lógica do “cada um por si”. O compromisso com a cidadania exige a construção de redes, pontes e alianças entre pessoas e organizações que lutam por direitos.

A mensagem de Helen, foi sintetizada em um chamado à construção de um “Congresso amigo do povo”, compreendido não como apoio a candidatos específicos, mas como defesa de representantes comprometidos com as necessidades reais da população. Helen conduziu a reflexão sobre a corrupção. A provocação inicial foi direta, a corrupção está somente na política institucional? A pergunta abriu espaço para uma análise mais ampla do problema. Embora os grandes desvios de dinheiro público, o superfaturamento e o uso indevido das estruturas do Estado estejam entre as formas mais visíveis de corrupção, a prática também pode se fortalecer por meio de comportamentos cotidianos que passam a ser tratados como normais.

Pequenos privilégios, silêncios diante de irregularidades e a aceitação de práticas antiéticas podem contribuir para a formação de uma cultura de tolerância à corrupção. O problema, nesse caso, não está apenas em identificar “quem são os corruptos”, mas em perguntar o que cada pessoa está fazendo para impedir que a falta de ética se reproduza. A reflexão destacou que a corrupção fragiliza as instituições, destrói a confiança da população e aprofunda a injustiça social. Seus efeitos, no entanto, não atingem a todos da mesma maneira. São os mais pobres e vulneráveis os que costumam sofrer primeiro e com maior intensidade quando os recursos públicos deixam de cumprir sua função social. Por isso, combater a corrupção é também defender a dignidade humana, a justiça social e o bem comum.

Outro ponto abordado durante a aula foi a diferença entre o pecado e a corrupção. A partir de uma reflexão atribuída ao Papa Francisco, os participantes foram convidados a perceber que uma pessoa pode cometer um erro, reconhecê-lo e buscar a mudança. A corrupção, por outro lado, se estabelece quando a prática passa a fazer parte de um modo de vida e é constantemente justificada para continuar acontecendo.

Essa distinção ajuda a compreender que não se trata de colocar no mesmo nível pequenos erros individuais e grandes esquemas de desvio de recursos públicos. A questão central está na repetição, na institucionalização e na capacidade de determinadas práticas prejudicarem toda a sociedade. Quando a corrupção se torna habitual, ela deixa de causar indignação e passa a ser aceita como parte da realidade. É nesse momento que a sociedade corre o risco de perder seus referenciais éticos e de naturalizar situações que deveriam ser enfrentadas.

Inspirado na cartilha “Círculos Bíblicos: Fé e Cidadania”, publicada pela Arquidiocese de Manaus, o curso buscou aproximar a reflexão cristã dos desafios concretos da vida pública. A proposta foi oferecer elementos para que os participantes compreendam a política como espaço de responsabilidade coletiva e de cuidado com a vida. A fé, nesse caminho, não aparece como instrumento de disputa partidária, mas como força capaz de motivar a defesa dos direitos, a solidariedade e o compromisso com as pessoas mais vulneráveis.

A formação também reforçou, através da exposição de Dom José Ionilton, que incidir politicamente significa ocupar espaços de decisão, pressionar autoridades, acompanhar políticas públicas, participar de organizações sociais e contribuir para que as comunidades sejam ouvidas. “Mais do que escolher representantes, a cidadania exige acompanhar seus mandatos, fiscalizar o uso dos recursos públicos e cobrar respostas para os problemas que atingem os territórios”, falou o bispo.

Ao concluir o curso, a mensagem deixada aos participantes foi de continuidade. O conhecimento adquirido não deve permanecer restrito ao ambiente formativo, mas circular nas comunidades, pastorais, movimentos sociais, grupos de fé e espaços de participação popular. Em um período marcado pela desinformação, pela descrença nas instituições e pelos ataques à democracia, a formação reafirmou que a transformação política não acontece de forma automática. Ela depende de pessoas dispostas a conhecer a realidade, organizar-se coletivamente e defender, com coragem, que a vida esteja sempre acima do lucro.

A aula está disponível no https://www.youtube.com/live/fCkuGk-1Wqo?si=pa0MejU0tyhiHilY

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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras. Siga nosso instagram https://www.instagram.com/encantarapolitica/