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Na véspera do voto, nota do Vaticano de 2002 recorda: a fé também se expressa na vida pública

Na véspera do voto, nota do Vaticano de 2002 recorda: a fé também se expressa na vida pública

Vívian Marler / Projeto Encantar a Política

Publicado em 2002, documento da Santa Sé não indica candidatos nem partidos, convida católicos a formar a consciência, discernir com liberdade e assumir responsabilidade pelo bem comum.

Amanhã, dia 4 de outubro, milhões de brasileiras e brasileiros irão às urnas. A escolha feita na cabine, porém, não se encerra ali, as decisões de quem for eleito terão efeitos sobre a vida cotidiana, os serviços públicos, os direitos e o futuro dos territórios. Na Amazônia, onde tantas comunidades enfrentam longas distâncias, falta de infraestrutura e ameaças aos seus modos de vida, pensar no voto é também pensar em quem costuma ser ouvido, e em quem continua esperando por dias melhores.

Às vésperas da eleição, uma Nota Doutrinal publicada pelo Vaticano em 2002 oferece uma reflexão que permanece atual “qual é a responsabilidade dos católicos diante da vida política?” A resposta do documento não é uma lista de candidatos nem uma orientação partidária. É um convite à participação consciente, à formação da consciência e ao compromisso com o bem comum.

A Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política foi aprovada pelo papa João Paulo II na audiência de 21 de novembro de 2002. Foi assinada pelo então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Joseph Ratzinger, que em 2005 seria eleito papa com o nome de ‘Bento XVI’ e pelo secretário, Tarcísio Bertone, SDB. Publicada em 24 de novembro daquele ano, solenidade de Cristo Rei, a Nota continua oferecendo critérios para refletir sobre a presença cristã na sociedade.

A nota https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20021124_politica_po.html

Formar a consciência, sem escolher pelo eleitor, o documento afirma que cabe à Igreja instruir e iluminar a consciência dos fiéis, especialmente daqueles que participam da vida pública. Mas também ressalta que não lhe cabe formular soluções concretas, muito menos soluções únicas, para as questões temporais, que dependem do juízo livre e responsável de cada pessoa.

Essa distinção é essencial em uma eleição, a fé pode inspirar valores e orientar o discernimento, mas a escolha do voto não deve ser imposta por uma autoridade religiosa. O compromisso cristão com a política começa pelo esforço de conhecer candidaturas, trajetórias e propostas e de avaliar suas consequências para a sociedade.

A liberdade, porém, não significa indiferença. A Nota lembra que os cristãos não devem separar a vida espiritual da atuação na família, no trabalho, na comunidade e na política. A busca pelo bem comum, pela dignidade humana, pela justiça e pelo respeito aos direitos pode atravessar todos esses espaços. Também alerta para o risco de reduzir a responsabilidade pública a um único tema, esquecendo os demais desafios que afetam a vida das pessoas.

Na Amazônia, o bem comum passa por quem vive no território, para as comunidades amazônicas, avaliar propostas significa olhar para situações muito concretas acesso à saúde e à educação, transporte, saneamento, trabalho digno, proteção ambiental e respeito aos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e demais comunidades tradicionais. A pergunta sobre o desenvolvimento também é decisiva ‘quem se beneficia das escolhas públicas e quem arca com seus custos?’

A reflexão dialoga com a exortação apostólica ‘Querida Amazônia’, do saudoso papa Francisco, que apresentou sonhos sociais, culturais, ecológicos e eclesiais para a região. Amar a Amazônia, nessa perspectiva, não é apenas admirar sua beleza, é reconhecer a dignidade de seus povos e cuidar das condições que permitem à vida florescer.

Leia ‘Querida Amazonia’ https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20200202_querida-amazonia.html

Também o papa Leão XIV, em discurso de setembro de 2026, contrapôs a resignação à participação ativa da sociedade pela paz e pelo bem comum. Ele destacou a importância de caminhar juntos, inclusive com quem pensa diferente, e afirmou que a paz e os equilíbrios justos se constroem com a participação dos diversos setores sociais. Na exortação ‘Dilexi te’, o pontífice volta a atenção para o amor aos pobres e para a proximidade com quem sofre.

Leia ‘Dilexi te’ https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/apost_exhortations/documents/20251004-dilexi-te.html

Nos meses que antecederam a votação, alertas, formações, mesas-redondas, bate-papo online, encontros, transmissões, materiais formativos e iniciativas da Igreja no Brasil e da sociedade civil ajudaram a relacionar fé, cidadania e responsabilidade eleitoral, muitos projetos como o ‘Projeto Encantar a Política’ que integra esse caminho coletivo, e propõe formação, diálogo constante, sempre à luz do Evangelho, para que a população reflita sobre democracia, direitos, ética pública e participação.

Amanhã, cada eleitora e eleitor fará sua escolha de forma livre. Depois da votação, continua a tarefa de acompanhar as decisões, cobrar compromissos e defender a vida e a dignidade de todas as pessoas. A Nota de 2002 não oferece uma resposta pronta para a urna; recorda que a consciência cristã não deve se afastar da realidade social nem delegar a outros o cuidado com o bem comum.

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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras. Siga nosso instagram https://www.instagram.com/encantarapolitica/