
Entre a ruptura democrática e a defesa da Constituição Federal de 1988
Robson Sávio Reis Souza*
O debate público brasileiro costuma ser resumido por uma fórmula simplista: a ideia de que o país vive uma “polarização simétrica”, dividida entre dois extremos radicais. No entanto, uma análise rigorosa do cenário contemporâneo revela que essa narrativa não apenas deforma a realidade, mas esconde a verdadeira natureza da crise política enfrentada pelo Brasil.
A polarização que vivenciamos no país não é um fenômeno isolado, mas a manifestação local do avanço da extrema direita global. Esse movimento internacional ganha tração ao explorar um sentimento difuso de cansaço cidadão com as democracias liberais. Ao entregar menos do que o desejável em termos de bem-estar social, igualdade e segurança, o sistema democrático tradicional abriu brechas para que narrativas autoritárias se apresentem como alternativas viáveis.
A extrema direita soube instrumentalizar com maestria as plataformas digitais, convertendo as redes em arenas de mobilização do afeto, do medo e da desinformação. Em uma sociedade pautada pelo imediatismo e pela urgência do consumo, respostas complexas para problemas estruturais perdem espaço para promessas disruptivas e soluções salvacionistas. O algoritmo passa a recompensar a indignação e o pânico moral, minando o espaço do diálogo racional.
Somado a isso, destaca-se a instrumentalização da fé. Setores do cristianismo têm sido apropriados para o recrudescimento de pautas radicais, moralistas, excludentes e abertamente autoritárias. O discurso religioso, que historicamente pode servir ao acolhimento e à justiça social, é capturado para demarcar uma fronteira maniqueísta entre o “bem” e o “mal“, transformando o adversário político em um inimigo moral a ser destruído.
Contudo, ao observar o quadro eleitoral e político brasileiro, fica nítido que não há uma simetria entre dois polos radicais. Os resultados das urnas mostram a extrema direita consolidando e ampliando sua base de apoio popular.
Do outro lado, não existe uma “extrema esquerda” com força equivalente ou projeto de ruptura, mas sim um amplo campo democrático e popular que reúne diferentes forças sociais, progressistas e institucionais em defesa do pacto civilizatório.
Portanto, a verdadeira disputa em jogo no Brasil não é entre dois extremismos opostos, mas entre a preservação do campo democrático e a ameaça de ruptura institucional. O que se coloca no horizonte é a viabilidade de manter e expandir as conquistas sociais, os direitos fundamentais e as garantias institucionais advindas da Constituição de 1988. Normalizar o avanço do radicalismo como se fosse apenas “um dos lados da moeda” é flertar com a erosão por dentro do próprio regime democrático.
*Robson Sávio Reis Souza é licenciado em Filosofia, doutor em Ciências Sociais, com pós-doutorado em Direitos Humanos. Professor da PUC Minas, faz parte do Grupo de Análise Sociopolítica da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e integra o Observatório da Comunicação Religiosa. É presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos de Minas Gerais (MG).
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