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Morre Antonio Geraldo de Aguiar referência na formação do laicato e da defesa do compromisso social cristão

Professor antônio Geraldo Aguiar / Foto: cefep

Morre Antonio Geraldo de Aguiar, referência na formação do laicato e na defesa do compromisso social cristão

Vívian Marler / Projeto Encantar a Política

Professor,  pesquisador, formador, ex-presidente do Conselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLB e ex-assessor da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, Geraldo Aguiar dedicou sua trajetória à formação de cristãos leigos e leigas como sujeitos de transformação da Igreja e da sociedade.

A Igreja no Brasil e o laicato católico receberam, nesta segunda-feira, 10 de agosto, a notícia da morte de Antonio Geraldo de Aguiar, um dos nomes mais importantes na história da organização, da formação e da atuação social dos cristãos leigos e leigas no país. Geraldo construiu uma trajetória marcada pela defesa de uma Igreja participativa, comprometida com os pobres e presente no coração da sociedade.

Sua partida deixa tristeza entre familiares, amigos, companheiros de caminhada e instituições às quais dedicou grande parte de sua vida. Deixa também um legado que ultrapassa os cargos que ocupou. Para muitos, Geraldo não foi apenas um dirigente ou assessor, foi um educador da consciência cristã e cidadã, alguém que ajudou gerações de leigos a compreenderem que a fé não pode permanecer distante dos desafios concretos do mundo.

Geraldo Aguiar presidiu o CNLB, no período de 1986 a 1988, em uma fase decisiva para a consolidação do organismo. Naquele momento, o debate sobre a identidade, a vocação e a missão dos leigos ganhava novo impulso a partir do ‘Concílio Vaticano II’ e da preparação para o Sínodo dos Bispos sobre o Laicato, realizado em Roma, em 1987.

Foi também durante sua atuação que se fortaleceu a articulação nacional dos cristãos leigos e leigas. Em agosto de 1987, o então Conselho Nacional de Leigos promoveu o ‘1º Encontro Nacional de Leigos’, em Vargem Grande Paulista (SP), reunindo cerca de 500 representantes de pastorais, movimentos, Comunidades Eclesiais de Base, conselhos regionais e outras organizações. O encontro discutiu o tema “Leigo: presença, compromisso, participação, Igreja e mundo”.

As conclusões daquele processo permanecem atuais. Os participantes defendiam que a Igreja investisse na formação específica dos leigos, ampliasse sua consciência crítica e oferecesse condições para que homens e mulheres atuassem como “Igreja no coração do mundo” e como agentes de transformação da história. Era uma compreensão de laicato que não se limitava às atividades internas das comunidades, mas alcançava a política, a educação, a cultura, a economia e a defesa da dignidade humana.

Esse foi um dos traços mais fortes da contribuição de Geraldo, a convicção de que a formação cristã deveria conduzir ao compromisso social. Para ele, preparar leigos não significava apenas transmitir conteúdos religiosos, mas ajudá-los a ler a realidade, discernir os sinais dos tempos e agir diante das injustiças, das desigualdades e das situações de exclusão.

Professor da Universidade Estadual Paulista (UNESP), onde também exerceu a direção da Faculdade de Filosofia e Ciências, em Marília (SP), Geraldo uniu a experiência acadêmica à reflexão teológica e pastoral. Também dirigiu o Instituto Teológico Dom Paulo Kopp, em Lins (SP), contribuindo para a formação de agentes de pastoral, lideranças e pessoas comprometidas com a missão da Igreja no mundo.

No Regional Sul 1 da CNBB, teve papel fundamental na organização do laicato. Participou do processo que culminou na constituição do Conselho Nacional do Laicato do Brasil Regional Sul 1, oficialmente instalado em novembro de 1987, tornando-se seu primeiro presidente. Sua atuação ajudou a criar caminhos de participação e corresponsabilidade para os leigos em uma Igreja que buscava superar modelos excessivamente centralizados e clericais.

Entre 2007 e 2015, Geraldo atuou como assessor do Setor Leigos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Nesse período, ofereceu contribuição decisiva para a estruturação e o fortalecimento da Comissão Episcopal para o Laicato. Seu trabalho esteve voltado à animação da vocação, da identidade, da espiritualidade e da missão dos cristãos leigos e leigas.

Ele também foi um dos fundadores do Centro Nacional de Fé e Política “Dom Helder Câmara” (CEFEP), criado para colaborar na formação de cristãos comprometidos com a vida pública e com a construção de uma sociedade mais justa e solidária. No CEFEP, exerceu a função de coordenador pedagógico durante 14 anos, ao lado do padre Ernanne Pinheiro, fundador e primeiro diretor da instituição.

A proposta do CEFEP expressava uma dimensão essencial da caminhada de Geraldo: a compreensão de que a fé cristã possui consequências sociais e políticas. A participação cidadã, o cuidado com os mais pobres, a defesa da democracia e a promoção do bem comum eram entendidos como dimensões inseparáveis do testemunho cristão.

Sua contribuição também alcançou a elaboração inicial do Documento 105 da CNBB, “Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade: Sal da Terra e Luz do Mundo”. Aprovado em 2016, o documento reafirma o laicato como sujeito eclesial e agente de transformação social. A perspectiva dialoga diretamente com o pensamento e a prática de Geraldo, que dedicou décadas à construção de uma Igreja na qual os leigos não fossem vistos apenas como colaboradores, mas como homens e mulheres chamados a assumir responsabilidades na missão evangelizadora e na sociedade.

A própria reflexão deixada por ele sobre o Sínodo de 1987 revela a amplitude de sua visão. Geraldo recordava que naquele encontro foram discutidos temas como a participação dos leigos na Igreja, sua presença na sociedade, a opção pelos pobres, as Comunidades Eclesiais de Base, a formação, a espiritualidade, a juventude, a participação das mulheres e a atuação dos movimentos. Não se tratava, portanto, de um debate restrito à organização interna da Igreja, mas de uma reflexão sobre o lugar do cristão diante da história.

Ao longo das décadas, Geraldo acompanhou com atenção e carinho a caminhada do CNLB. Mesmo depois de deixar funções executivas, permaneceu ligado ao organismo como integrante da Comissão de Assessoria Permanente. Sua presença era descrita como imprescindível, generosa e importante para a continuidade dos processos de formação e articulação do laicato.

Em nota de pesar, o CNLB destacou sua capacidade de diálogo, sua fidelidade ao Evangelho e seu compromisso com uma Igreja sinodal, missionária e servidora. Também o reconheceu como um verdadeiro pedagogo, responsável pela formação de gerações de lideranças leigas que hoje continuam atuando nas comunidades e nos diversos espaços da sociedade.

A morte de Antonio Geraldo de Aguiar encerra uma existência, mas não interrompe a caminhada que ele ajudou a construir. Seu legado permanece nas pessoas que formou, nos organismos que ajudou a consolidar, nos documentos que colaborou para elaborar e, sobretudo, na compreensão de que a fé cristã precisa tocar a vida concreta do povo.

Em tempos marcados pela desigualdade, pela intolerância, pela fragilização da democracia e pela indiferença diante do sofrimento, a memória de Geraldo convoca a Igreja a renovar seu compromisso social. Seu ensinamento continua a lembrar que o cristão leigo é chamado a estar presente no mundo, não como espectador, mas como alguém capaz de cuidar, dialogar, participar e transformar.

Antonio Geraldo de Aguiar deixa esposa, filhos, familiares, amigos e companheiros de missão. Para todos os que caminharam com ele, permanece a gratidão por sua vida e por uma história construída com inteligência, generosidade, compromisso e esperança.

Abaixo, a note de pesar enviada pelo presidente do CNLB:

“NOTA DE PESAR

“Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé.”
(2Tm 4,7)

O Conselho Nacional do Laicato do Brasil, com profundo pesar, comunica o falecimento de Antonio Geraldo de Aguiar, ocorrido no dia de hoje. Presidente do CNLB na gestão de 1986 a 1988, ele se consolidou nas últimas décadas como uma das principais referências no processo de formação do laicato católico.

Professor da Universidade Estadual Paulista (UNESP) – Campus de Marília, onde também exerceu a direção da Faculdade de Filosofia e Ciências, Geraldo dedicou sua vida à formação acadêmica, à reflexão teológica e ao fortalecimento da missão dos cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade.

À frente do CNLB, conduziu o Organismo em um período decisivo de sua consolidação, marcado pela preparação e participação da Igreja no Brasil no Sínodo dos Bispos sobre os Leigos, em 1987.

Foi também um dos principais protagonistas da organização do laicato no Estado de São Paulo. Participou ativamente, a partir de 1985, do processo que culminou na constituição do CNLB Regional Sul 1, oficialmente instalado durante a Assembleia das Igrejas do Regional Sul 1, realizada de 6 a 8 de novembro de 1987, sendo eleito seu primeiro Presidente.

Entre 2007 e 2015, atuou como Assessor do Setor Leigos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), oferecendo contribuição decisiva para a estruturação e consolidação da Comissão Episcopal para o Laicato, cujo trabalho permanece como referência para a animação da vocação, identidade, espiritualidade e missão dos cristãos leigos e leigas no Brasil.

Profundo conhecedor da eclesiologia do Concílio Vaticano II, Geraldo exerceu papel determinante em alguns dos mais importantes processos da caminhada do laicato brasileiro. Participou da fundação do Centro Nacional de Fé e Política “Dom Helder Câmara”, em 2005, esteve na elaboração inicial do Documento 105 da CNBB – Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade: Sal da Terra e Luz do Mundo e contribuiu significativamente para a construção do Ano Nacional do Laicato (2017–2018), iniciativas que permanecem como marcos da formação e da organização recente do laicato.

Seu pensamento, sua capacidade de diálogo, sua fidelidade ao Evangelho e seu compromisso com uma Igreja sinodal, missionária e servidora marcaram profundamente a história do CNLB e da Igreja no Brasil. Geraldo foi um verdadeiro pedagogo, formador de gerações de lideranças leigas, que hoje testemunham seu legado.

Neste momento de dor, o Conselho Nacional do Laicato do Brasil manifesta sua solidariedade à esposa Giselda, aos filhos, familiares, amigos e companheiros de missão da Igreja particular de Lins/SP.

Amparados pela esperança a nós comunicada pelo Senhor Ressuscitado, rendemos graças a Deus pela fecunda vida e missão de Antonio Geraldo de Aguiar e suplicamos ao Senhor da Vida que o acolha em sua infinita misericórdia, face a face.

Márcio José de Oliveira
Presidente do CNLB”

 

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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras.