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Programa “A Voz da Amazônia” refletiu sobre consciência política, responsabilidade do eleitor e necessidade de acompanhar a atuação dos representantes públicos

Programa “A Voz da Amazônia” refletiu sobre consciência política, responsabilidade do eleitor e necessidade de acompanhar a atuação dos representantes públicos

Vívian Marler / Projeto Encantar a Política

A política pode voltar a despertar esperança quando deixa de ser vista apenas como disputa pelo poder e passa a ser compreendida como um caminho de cuidado com a vida. Essa foi uma das principais reflexões apresentadas no programa “A Voz da Amazônia”, exibido no dia 29 de agosto pela Rádio Hub Amazônia, a rádio multiplataforma da Amazônia.

Com o tema “Como nos encantar pela política?”, o programa reuniu os apresentadores Antonio Delfino e Patrícia Cabral em uma conversa sobre participação cidadã, eleições, políticas públicas e responsabilidade dos eleitores. A proposta foi estimular uma consciência política capaz de superar o desencanto provocado pela corrupção, pelas promessas não cumpridas e pela distância entre os representantes eleitos e as comunidades.

O programa transmitido ao vivo todos os sábados, a partir das 16h, pela Rádio Hub Amazônia, iniciou com uma oração pelo período eleitoral. O texto pediu sabedoria para que os eleitores conheçam a história dos candidatos, a atuação dos partidos e as propostas apresentadas antes de decidir o voto. Também destacou a necessidade de escolher representantes comprometidos com a ética, o bem comum, a dignidade humana, a defesa da natureza e as famílias mais vulneráveis. Mais do que uma oração para o momento da eleição, a mensagem foi apresentada como um convite à responsabilidade. O voto não deve ser orientado pelo egoísmo, pela manipulação da fé, pela influência das redes sociais ou por promessas imediatas. Ele precisa estar relacionado a um projeto de sociedade e ao compromisso com aqueles que mais precisam.

Durante o programa, Patrícia Cabral explicou que o projeto ‘Encantar a Política’ nasceu do diálogo entre organismos ligados à Igreja e outras organizações comprometidas com a educação política e com a defesa da democracia. A iniciativa procura apresentar a política a partir do bem comum e da compreensão de que as decisões públicas devem beneficiar a coletividade, e não apenas determinados grupos. A proposta também deu origem a materiais de formação, entre eles o segundo caderno do projeto, voltado às eleições e ao papel dos parlamentares. A publicação propõe reflexões para serem realizadas nas comunidades, ajudando os eleitores a compreender as atribuições de cada cargo e a avaliar melhor as propostas dos candidatos.

Um dos pontos destacados no programa foi a necessidade de diferenciar o que um candidato realmente pode fazer daquilo que promete apenas para conquistar votos. Um deputado, por exemplo, não possui as mesmas atribuições de um prefeito. Por isso, promessas de obras e serviços precisam ser analisadas com atenção, levando em conta as responsabilidades de cada função pública. A conversa também lembrou práticas ainda presentes no imaginário eleitoral, como a expectativa de que um político ofereça uma cesta básica, uma dentadura ou qualquer outro benefício individual em troca do apoio. Essas ações podem criar uma relação de dependência e desviar a atenção dos problemas estruturais que afetam toda a comunidade.

A política pública não deve ser confundida com favor. Quando um representante é eleito, recebe salário, estrutura e recursos para cumprir uma função pública. Executar o que foi apresentado à população não é um presente oferecido ao eleitor, mas uma obrigação assumida diante da sociedade. Outra questão levantada no programa foi a dificuldade de muitos eleitores em acompanhar a atuação dos candidatos depois das eleições. Com frequência, a população volta a prestar atenção nos políticos apenas quando começa um novo período eleitoral. A consequência é que representantes que não cumpriram suas promessas, votaram contra interesses da população ou não apresentaram resultados podem receber novamente um mandato sem que sua trajetória seja devidamente avaliada.

O programa propôs uma mudança de atitude, o eleitor precisa acompanhar, questionar e cobrar durante todo o mandato. A participação não termina no momento em que a urna confirma o resultado. Ela continua na fiscalização das ações, na análise das votações, no acompanhamento do orçamento público e na cobrança por serviços essenciais. Para isso, as comunidades precisam criar espaços de conversa e formação. Reunir vizinhos, grupos pastorais, associações e movimentos sociais para discutir os problemas do território é uma forma concreta de exercer a cidadania.

A conversa aproximou o debate eleitoral de situações concretas vividas pela população. O atraso no pagamento de trabalhadores, as paralisações no transporte público e a falta de remuneração de profissionais da saúde foram apresentados como exemplos de problemas que não podem ser tratados como acontecimentos isolados. Quando um trabalhador deixa de receber, a situação afeta sua família. Quando uma categoria paralisa as atividades, toda a sociedade sente os efeitos. Por trás desses problemas existem decisões administrativas, prioridades orçamentárias e responsabilidades que precisam ser identificadas.

A pergunta feita durante o programa foi direta, quem deixou de cumprir sua obrigação continuará se apresentando como candidato? E o que o eleitor fará diante disso? Esse tipo de questionamento ajuda a romper com a ideia de que a população não tem como interferir. O cidadão pode buscar informações, conhecer o histórico dos representantes e decidir se deseja ou não renovar a confiança depositada anteriormente.

A realidade amazônica também ocupou espaço importante na reflexão. As queimadas, a estiagem, a redução do nível dos rios, a morte de peixes e botos e as dificuldades enfrentadas pelas comunidades ribeirinhas foram relacionados ao debate sobre políticas públicas. Em municípios onde os rios são as principais vias de transporte, a seca altera a rotina, encarece o deslocamento e dificulta o acesso a alimentos, medicamentos, escolas e serviços de saúde. Nas cheias, as famílias que vivem em áreas de barranco ou próximas aos rios enfrentam perdas, riscos e falta de estrutura adequada.

Essas situações não devem ser vistas apenas como fenômenos naturais. Elas também exigem planejamento, prevenção e políticas públicas. Por isso, o eleitor precisa perguntar o que os candidatos propõem para enfrentar as mudanças climáticas, proteger os rios, cuidar das florestas e apoiar as comunidades atingidas pelas secas e pelas cheias. Não basta acompanhar as notícias quando a emergência acontece. É necessário verificar se existem planos de governo, recursos destinados, ações permanentes e mecanismos de proteção para a população.

A formação foi apresentada como uma das ferramentas mais importantes para enfrentar o desencanto político. O programa destacou que muitas pessoas afirmam não querer mais votar porque deixaram de acreditar nos políticos ou porque enxergam apenas corrupção, brigas e falta de resultados. Esse afastamento, porém, pode fortalecer justamente aqueles que se beneficiam da desinformação e da ausência de participação popular. Quando o cidadão abandona o debate, outras pessoas passam a decidir os rumos da sociedade em seu lugar.

A cartilha ‘Encantar a Política’ propõe encontros e círculos de diálogo para discutir temas relacionados à democracia, às eleições, ao papel dos parlamentares e às políticas públicas. O material pode ser utilizado por comunidades e grupos interessados em estudar a realidade local e construir uma participação mais consciente. A proposta está em sintonia com o ensino social da Igreja, que compreende a fé não como uma experiência limitada à oração, mas como um chamado à ação em defesa da justiça e da dignidade humana. A oração pode iluminar a consciência, mas não substitui o compromisso de conhecer, participar e cobrar.

Encantar-se pela política não significa ignorar a corrupção, fechar os olhos para os erros ou acreditar em qualquer promessa. Significa recuperar a capacidade de reconhecer que a política é necessária para organizar a vida coletiva e construir respostas para problemas que ninguém consegue resolver sozinho. O encantamento nasce quando a comunidade percebe que pode se reunir, estudar, fazer perguntas e participar das decisões. Nasce quando o eleitor deixa de se enxergar apenas como alguém que recebe promessas e passa a se reconhecer como sujeito de direitos e responsabilidades.

A política pode ser uma ferramenta de transformação quando está a serviço da vida, da verdade e da justiça. Para isso, precisa ser acompanhada por cidadãos atentos, comunidades organizadas e representantes comprometidos com o bem comum. O programa “A Voz da Amazônia” reforçou essa mensagem ao lembrar que o futuro da região não pode ser decidido apenas nos gabinetes. Ele também é construído nas comunidades, nas conversas entre vizinhos, nos grupos de formação e na escolha responsável de cada eleitor. Porque, no fim, encantar-se pela política é voltar a acreditar que a participação de cada pessoa pode ajudar a transformar a realidade de todos.