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Encantar a política: um chamado à participação, à democracia e ao cuidado com a Casa Comum

*Encantar la política: una invitación a la participación, la democracia y el cuidado de la Casa Común*

Encantar a política: um chamado à participação, à democracia e ao cuidado com a Casa Comum

Vívian Marler / Projeto Encantar a Politica
*La traducción al español aparece debajo de este texto en portugués.

Falar de política, atualmente, nem sempre é fácil. O tema costuma aparecer associado a conflitos, denúncias, disputas partidárias, desinformação e frustrações acumuladas. Para muitas pessoas, a política deixou de representar a possibilidade de transformação e passou a ser vista com desconfiança e desencanto.

É justamente nesse cenário que se apresenta o Caderno “Encantar a Política”, uma iniciativa da ‘Rede Eclesial Justiça e Paz na Pátria Grande’, inspirada na experiência desenvolvida pela Igreja no Brasil desde 2022. A publicação propõe recuperar o sentido mais amplo da política: o cuidado com a vida coletiva e a busca do bem comum.

O material não foi pensado apenas para uma leitura individual. Ele pode ser utilizado em paróquias, comunidades, dioceses, pastorais sociais, movimentos populares, grupos de jovens e organizações da sociedade civil. A proposta é favorecer encontros, conversas e processos de reflexão sobre a responsabilidade de cada pessoa na construção da sociedade.

A política, segundo o Caderno, não se resume às eleições, aos partidos ou aos cargos públicos. Ela está presente nas decisões que definem o acesso à saúde, à educação, à moradia, à terra, ao trabalho, à segurança e aos demais direitos fundamentais. Também tem relação com a maneira como os recursos são distribuídos, como os territórios são ocupados e como a natureza é tratada.

O ponto de partida da publicação é uma convicção presente na tradição social da Igreja: a política pode ser uma das formas mais elevadas de exercer a caridade.

Essa compreensão, retomada pelo Papa Francisco e também presente nas reflexões do Papa Leão XIV, não significa transformar a política em instrumento de dominação religiosa. O que está em questão é reconhecer que o amor ao próximo não pode permanecer limitado aos gestos individuais. Ele também precisa alcançar as estruturas sociais e as decisões que afetam a vida de milhões de pessoas.

Uma comunidade que se organiza para defender o direito à saúde ou à educação está praticando uma forma concreta de amor social. O mesmo acontece quando cidadãos acompanham as ações dos governantes, participam dos conselhos, fiscalizam as políticas públicas e cobram dos representantes o cumprimento dos compromissos assumidos.

A democracia se fortalece quando a população deixa de ser apenas espectadora e passa a participar dos processos que definem os rumos da sociedade.

Na apresentação do Caderno em espanhol, o cardeal Jaime Spengler, presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam), chama atenção para os contrastes presentes na América Latina.

A região possui riquezas naturais estratégicas, grande diversidade cultural e um expressivo potencial econômico. Ao mesmo tempo, continua convivendo com desigualdades profundas, dependência externa, fragilidade institucional, violência, pobreza e precarização das condições de vida.

Esse contraste ajuda a compreender o desencanto de muitas pessoas com a política e com a democracia. Em diversos países, a desconfiança é alimentada por promessas eleitorais que não são cumpridas, casos de corrupção, violência política, circulação de notícias falsas e pela sensação de que as decisões públicas estão cada vez mais submetidas aos interesses de grandes grupos econômicos.

O Caderno não ignora essas dificuldades, mas também não se entrega ao pessimismo. A realidade latino-americana é apresentada como um território em disputa. Permanecem antigas formas de dependência e exclusão, mas existem igualmente possibilidades de reconstrução democrática, organização popular e participação cidadã.

A publicação procura ir além da conhecida divisão entre esquerda e direita. Em vez de reduzir o debate a posições ideológicas, propõe olhar para as causas mais profundas da crise: a desigualdade, a frustração social, a fragilidade do Estado, as pressões econômicas e geopolíticas, o crescimento do crime organizado e a dificuldade de construir projetos nacionais voltados para a maioria da população.

Para Emilce Cuda, secretária da Pontifícia Comissão para a América Latina, o verbo “encantar” só pode ser compreendido quando o amor deixa de ser uma ideia abstrata e passa a fazer parte da vida concreta.

A política começa a recuperar sua beleza quando a dor do outro já não é recebida com indiferença. Ela passa a tocar a consciência, o coração e a responsabilidade de cada pessoa.

Essa visão amplia o significado cristão do amor ao próximo. Não basta realizar gestos pessoais de solidariedade, embora eles sejam necessários. Também é preciso enfrentar as estruturas que produzem a fome, o desemprego, a violência, o racismo, a exclusão, a destruição ambiental e a falta de oportunidades.

O primeiro capítulo do Caderno parte da experiência das primeiras comunidades cristãs, narrada nos Atos dos Apóstolos, e estabelece um diálogo com documentos como Fratelli Tutti, do Papa Francisco, e Dilexi Te, do Papa Leão XIV.

A solidariedade aparece, assim, não como uma atitude ocasional, mas como um valor indispensável para a construção do bem comum. Esse bem não corresponde à simples soma dos interesses individuais. Exige que a sociedade se organize para garantir condições dignas de vida para todos, com atenção especial às pessoas e grupos que historicamente permanecem à margem.

O segundo capítulo trata da amizade social e da ética política. Em um ambiente marcado pela intolerância, pela agressividade dos discursos e pela dificuldade de conviver com opiniões diferentes, o Caderno propõe recuperar a capacidade de escutar e dialogar.

Amizade social não significa concordar com tudo. Também não significa negar os conflitos que fazem parte da vida em sociedade. Significa reconhecer a dignidade de quem pensa de outra maneira e procurar caminhos de convivência que não estejam baseados no ódio, na violência ou na eliminação do outro.

A parábola do Bom Samaritano ilumina essa reflexão. O homem ferido à margem da estrada representa tantas pessoas abandonadas pelas estruturas sociais, econômicas e políticas. Diante delas, surge uma pergunta que continua atual, vamos seguir adiante, como se nada tivesse acontecido, ou vamos nos aproximar?

A questão alcança os agentes públicos, as instituições e os cidadãos. Uma política verdadeiramente ética não pode ignorar aqueles que permanecem caídos à beira do caminho. Seu compromisso deve ser criar condições para que ninguém seja tratado como descartável.

O terceiro capítulo aproxima evangelização e política. O Caderno recorda que a missão cristã não se limita ao interior das comunidades. Ela também envolve o compromisso com a transformação da realidade e com a defesa da dignidade humana.

Justiça e paz são apresentadas como dimensões inseparáveis. Não há paz verdadeira onde continuam presentes a fome, a violência, a exploração, a desigualdade e a negação de direitos. Da mesma forma, a justiça não pode ser compreendida apenas como o cumprimento formal das leis. Ela precisa se expressar na construção de relações sociais que respeitem todas as pessoas.

O texto também questiona as causas estruturais da pobreza. Em lugar de responsabilizar individualmente aqueles que sofrem, convida a sociedade a identificar os mecanismos que produzem a exclusão e impedem milhões de pessoas de ter acesso a direitos básicos.

É nesse contexto que a publicação retoma a expressão “civilização do amor”, desenvolvida por São Paulo VI e acolhida por outros pontífices. A proposta aponta para uma sociedade fundada na fraternidade, na solidariedade, na justiça e na paz.

O quarto capítulo é dedicado ao cuidado com a Casa Comum. Inspirado especialmente na encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, o Caderno apresenta a ecologia integral como uma dimensão essencial da ação política.

A crise ambiental não pode ser separada da crise social. Os modelos econômicos que exploram os recursos naturais também atingem com maior intensidade as populações pobres, os povos indígenas, as comunidades tradicionais, os agricultores familiares e todas as pessoas que vivem em territórios ameaçados por grandes projetos.

O grito da Terra é também o grito dos pobres. Quando uma floresta é destruída, um rio é contaminado ou uma comunidade é retirada de seu território, não ocorre apenas um dano ambiental. Há também perda de modos de vida, adoecimento, conflitos, deslocamentos e violações de direitos.

Por isso, o Caderno defende que a política precisa ampliar seu horizonte. Não basta discutir crescimento econômico ou grandes obras. É necessário perguntar quem será beneficiado, quem pagará o preço, quais vidas serão protegidas e que mundo será deixado para as próximas gerações.

Essa reflexão tem um significado especial para a Amazônia, onde a riqueza natural convive com a pobreza, a violência e as constantes ameaças contra os povos e comunidades que protegem a floresta.

O quinto capítulo aborda temas como soberania, eleições, política e governo. A publicação reconhece que a política é muito mais ampla do que o período eleitoral, mas lembra que as eleições continuam sendo um momento fundamental para a expressão da vontade popular.

Votar, contudo, não encerra a participação cidadã. Depois das eleições, permanece a responsabilidade de acompanhar o mandato dos representantes, fiscalizar as decisões, cobrar compromissos e participar dos espaços públicos de debate.

A democracia não pode se limitar ao momento em que o voto é depositado na urna. Ela precisa estar presente na elaboração das políticas públicas, na transparência dos governos, no controle social e na escuta das comunidades.

Nesse caminho, os movimentos populares têm um papel importante. Organizações de trabalhadores, associações comunitárias, pastorais sociais, grupos de defesa dos direitos humanos, comunidades tradicionais e coletivos juvenis são reconhecidos como forças fundamentais para a construção de uma democracia participativa.

A política não pertence exclusivamente aos profissionais que ocupam cargos públicos. Ela pertence ao povo e deve ser exercida por todas as pessoas que desejam contribuir para uma sociedade mais justa.

A proposta metodológica é uma das características mais significativas do Caderno. O material sugere a realização de cinco encontros, correspondentes aos cinco capítulos da publicação. O grupo pode escolher uma periodicidade semanal ou quinzenal, com reuniões de até uma hora e meia.

A dinâmica valoriza a participação de todos, a escolha rotativa da pessoa responsável pela coordenação e o registro das principais reflexões em uma espécie de diário ou roteiro de caminhada do grupo.

Os capítulos apresentam perguntas, exercícios e propostas práticas. A intenção é que o conteúdo não permaneça apenas no campo das ideias. Ele deve ajudar os participantes a observar a própria realidade, identificar problemas, buscar informações e pensar em ações possíveis.

A metodologia também valoriza a escuta e a participação democrática. Por isso, os encontros podem incluir músicas, poesias, orações, celebrações e outros elementos que favoreçam um ambiente acolhedor e fraterno.

A proposta é aprender, refletir, debater, celebrar e agir. Mais do que formar especialistas em política, o Caderno deseja despertar cidadãos e cidadãs conscientes de sua responsabilidade na construção da sociedade.

O Caderno “Encantar a Política” chega como uma contribuição da Igreja para um debate urgente na América Latina e no Caribe. Não oferece respostas prontas para todos os problemas nem pretende esgotar a complexidade dos desafios atuais. Sua principal tarefa é abrir caminhos para a reflexão, o diálogo e a participação.

Ao apresentar a política como serviço, o material questiona a ideia de que ela deve ser compreendida apenas como disputa, carreira ou conquista de poder. Governar é cuidar. Legislar é proteger direitos. Participar é assumir responsabilidade pela vida coletiva.

A proposta se dirige a pessoas de diferentes tradições religiosas, a quem está em busca de Deus e a todas as mulheres e homens de boa vontade que desejam colaborar para a construção de uma sociedade justa e pacífica.

Em tempos de desânimo, o Caderno aposta na possibilidade de reencantar a política por meio da fraternidade, da justiça, da participação popular e do cuidado com a Casa Comum. É um convite para que a fé não permaneça distante da realidade e para que a cidadania seja vivida como compromisso com aqueles que mais sofrem.

Ao final, permanece uma tarefa concreta, transformar as palavras em atitudes. Como recorda o Documento Final do Sínodo sobre a Sinodalidade, cabe aos leigos e às leigas impregnar e transformar as realidades temporais com o espírito do Evangelho.

É no encontro entre fé, responsabilidade social e ação cidadã que a política pode recuperar sua dignidade e voltar a ser instrumento de vida abundante para todos.

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Encantar la política: una invitación a la participación, la democracia y el cuidado de la Casa Común

Vívian Marler / Proyecto “Encantar la política”

El cuaderno de la Red Eclesial Justicia y Paz propone una nueva manera de mirar la política, entendida como servicio, compromiso social y expresión concreta de la caridad

Hablar de política no siempre resulta fácil en la actualidad. El tema suele aparecer asociado a conflictos, denuncias, disputas partidarias, desinformación y frustraciones acumuladas. Para muchas personas, la política dejó de representar una posibilidad de transformación y comenzó a ser vista con desconfianza y desencanto.

Es precisamente en este escenario donde se presenta el cuaderno “Encantar la política”, una iniciativa de la ‘Red Eclesial Justicia y Paz en la Patria Grande’, inspirada en la experiencia desarrollada por la Iglesia en Brasil desde 2022. La publicación propone recuperar el sentido más amplio de la política: el cuidado de la vida colectiva y la búsqueda del bien común.

El material no fue pensado únicamente para una lectura individual. Puede utilizarse en parroquias, comunidades, diócesis, pastorales sociales, movimientos populares, grupos juveniles y organizaciones de la sociedad civil. La propuesta busca favorecer encuentros, conversaciones y procesos de reflexión sobre la responsabilidad de cada persona en la construcción de la sociedad.

La política, según el cuaderno, no se reduce a las elecciones, los partidos o los cargos públicos. Está presente en las decisiones que determinan el acceso a la salud, la educación, la vivienda, la tierra, el trabajo, la seguridad y otros derechos fundamentales. También se relaciona con la manera en que se distribuyen los recursos, se ocupan los territorios y se trata a la naturaleza.

El punto de partida de la publicación es una convicción presente en la tradición social de la Iglesia: la política puede ser una de las formas más elevadas de ejercer la caridad.

Esta comprensión, retomada por el papa Francisco y también presente en las reflexiones del papa León XIV, no significa convertir la política en un instrumento de dominación religiosa. Lo que está en juego es reconocer que el amor al prójimo no puede limitarse a los gestos individuales. También debe alcanzar las estructuras sociales y las decisiones que afectan la vida de millones de personas.

Una comunidad que se organiza para defender el derecho a la salud o a la educación está practicando una forma concreta de amor social. Lo mismo ocurre cuando los ciudadanos acompañan las acciones de los gobernantes, participan en los consejos, fiscalizan las políticas públicas y exigen a sus representantes el cumplimiento de los compromisos asumidos.

La democracia se fortalece cuando la población deja de ser una simple espectadora y comienza a participar en los procesos que definen los rumbos de la sociedad.

En la presentación del cuaderno en español, el cardenal Jaime Spengler, presidente del Consejo Episcopal Latinoamericano y Caribeño (Celam), llama la atención sobre los contrastes presentes en América Latina.

La región posee riquezas naturales estratégicas, una gran diversidad cultural y un importante potencial económico. Al mismo tiempo, continúa enfrentando profundas desigualdades, dependencia externa, fragilidad institucional, violencia, pobreza y precarización de las condiciones de vida.

Este contraste ayuda a comprender el desencanto de muchas personas con la política y con la democracia. En distintos países, la desconfianza se alimenta de promesas electorales incumplidas, casos de corrupción, violencia política, circulación de noticias falsas y de la sensación de que las decisiones públicas están cada vez más sometidas a los intereses de grandes grupos económicos.

El cuaderno no ignora estas dificultades, pero tampoco se entrega al pesimismo. La realidad latinoamericana se presenta como un territorio en disputa. Persisten antiguas formas de dependencia y exclusión, pero también existen posibilidades de reconstrucción democrática, organización popular y participación ciudadana.

La publicación busca ir más allá de la conocida división entre izquierda y derecha. En lugar de reducir el debate a posiciones ideológicas, propone observar las causas más profundas de la crisis, la desigualdad, la frustración social, la fragilidad del Estado, las presiones económicas y geopolíticas, el crecimiento del crimen organizado y la dificultad de construir proyectos nacionales orientados a la mayoría de la población.

Para Emilce Cuda, secretaria de la Pontificia Comisión para América Latina, el verbo “encantar” solo puede comprenderse cuando el amor deja de ser una idea abstracta y pasa a formar parte de la vida concreta.

La política comienza a recuperar su belleza cuando el dolor del otro ya no es recibido con indiferencia. Ese dolor toca la conciencia, el corazón y la responsabilidad de cada persona.

Esta visión amplía el significado cristiano del amor al prójimo. No basta con realizar gestos personales de solidaridad, aunque estos sean necesarios. También es preciso enfrentar las estructuras que producen el hambre, el desempleo, la violencia, el racismo, la exclusión, la destrucción ambiental y la falta de oportunidades.

El primer capítulo del cuaderno parte de la experiencia de las primeras comunidades cristianas, narrada en los Hechos de los Apóstoles, y establece un diálogo con documentos como ‘Fratelli Tutti’, del papa Francisco, y ‘Dilexi Te’, del papa León XIV.

La solidaridad aparece, así, no como una actitud ocasional, sino como un valor indispensable para la construcción del bien común. Este bien no corresponde a la simple suma de los intereses individuales. Exige que la sociedad se organice para garantizar condiciones dignas de vida para todos, con especial atención a las personas y grupos que históricamente han permanecido al margen.

El segundo capítulo aborda la amistad social y la ética política. En un ambiente marcado por la intolerancia, la agresividad de los discursos y la dificultad para convivir con opiniones diferentes, el cuaderno propone recuperar la capacidad de escuchar y dialogar.

La amistad social no significa estar de acuerdo en todo. Tampoco significa negar los conflictos que forman parte de la vida en sociedad. Significa reconocer la dignidad de quienes piensan de otra manera y buscar caminos de convivencia que no estén basados en el odio, la violencia o la eliminación del otro.

La parábola del Buen Samaritano ilumina esta reflexión. El hombre herido al borde del camino representa a tantas personas abandonadas por las estructuras sociales, económicas y políticas. Ante ellas surge una pregunta que continúa siendo actual: ¿seguiremos adelante como si nada hubiera ocurrido o nos acercaremos?

La pregunta interpela a los agentes públicos, a las instituciones y a los ciudadanos. Una política verdaderamente ética no puede ignorar a quienes permanecen caídos al borde del camino. Su compromiso debe ser crear las condiciones para que nadie sea tratado como descartable.

El tercer capítulo relaciona evangelización y política. El cuaderno recuerda que la misión cristiana no se limita al interior de las comunidades. También implica un compromiso con la transformación de la realidad y con la defensa de la dignidad humana.

La justicia y la paz aparecen como dimensiones inseparables. No existe una paz verdadera donde continúan presentes el hambre, la violencia, la explotación, la desigualdad y la negación de derechos. Del mismo modo, la justicia no puede entenderse únicamente como el cumplimiento formal de las leyes. Debe expresarse en la construcción de relaciones sociales que respeten a todas las personas.

El texto también cuestiona las causas estructurales de la pobreza. En lugar de responsabilizar individualmente a quienes sufren, invita a la sociedad a identificar los mecanismos que producen la exclusión e impiden a millones de personas acceder a derechos básicos.

En este contexto, la publicación retoma la expresión “civilización del amor”, desarrollada por san Pablo VI y acogida por otros pontífices. La propuesta apunta a una sociedad fundada en la fraternidad, la solidaridad, la justicia y la paz.

El cuarto capítulo está dedicado al cuidado de la Casa Común. Inspirado especialmente en la encíclica Laudato Si’, del papa Francisco, el cuaderno presenta la ecología integral como una dimensión esencial de la acción política.

La crisis ambiental no puede separarse de la crisis social. Los modelos económicos que explotan los recursos naturales también afectan con mayor intensidad a las poblaciones pobres, los pueblos indígenas, las comunidades tradicionales, los agricultores familiares y todas las personas que viven en territorios amenazados por grandes proyectos.

El clamor de la Tierra es también el clamor de los pobres. Cuando se destruye un bosque, se contamina un río o se expulsa a una comunidad de su territorio, no ocurre únicamente un daño ambiental. También se pierden formas de vida, aparecen enfermedades, se producen desplazamientos y conflictos, y se violan derechos.

Por eso, el cuaderno sostiene que la política debe ampliar sus horizontes. No basta con debatir sobre crecimiento económico o grandes obras. Es necesario preguntarse quiénes serán los beneficiados, quiénes pagarán el precio, qué vidas serán protegidas y qué mundo dejaremos a las próximas generaciones.

Esta reflexión tiene un significado especial para la Amazonía, donde la riqueza natural convive con la pobreza, la violencia y las constantes amenazas contra los pueblos y las comunidades que protegen la selva.

El quinto capítulo aborda temas como la soberanía, las elecciones, la política y el gobierno. La publicación reconoce que la política es mucho más amplia que el período electoral, pero recuerda que las elecciones siguen siendo un momento fundamental para expresar la voluntad popular.

Sin embargo, votar no pone fin a la participación ciudadana. Después de las elecciones, permanece la responsabilidad de acompañar el mandato de los representantes, fiscalizar sus decisiones, exigir el cumplimiento de sus compromisos y participar en los espacios públicos de debate.

La democracia no puede limitarse al momento en que el voto es depositado en las urnas. Debe estar presente en la elaboración de las políticas públicas, en la transparencia de los gobiernos, en el control ciudadano y en la escucha de las comunidades.

En este camino, los movimientos populares desempeñan un papel importante. Las organizaciones de trabajadores, las asociaciones comunitarias, las pastorales sociales, los grupos de defensa de los derechos humanos, las comunidades tradicionales y los colectivos juveniles son reconocidos como fuerzas fundamentales para la construcción de una democracia participativa.

La política no pertenece exclusivamente a los profesionales que ocupan cargos públicos. Pertenece al pueblo y debe ser ejercida por todas las personas que desean contribuir a una sociedad más justa.

La propuesta metodológica es una de las características más significativas del cuaderno. El material sugiere la realización de cinco encuentros, correspondientes a los cinco capítulos de la publicación. El grupo puede elegir una periodicidad semanal o quincenal, con reuniones de hasta una hora y media.

La dinámica valora la participación de todos, la elección rotativa de la persona responsable de la coordinación y el registro de las principales reflexiones en una especie de diario o guía del camino recorrido por el grupo.

Los capítulos presentan preguntas, ejercicios y propuestas prácticas. La intención es que el contenido no permanezca únicamente en el campo de las ideas. Debe ayudar a los participantes a observar su propia realidad, identificar problemas, buscar información y pensar en posibles acciones.

La metodología también valora la escucha y la participación democrática. Por eso, los encuentros pueden incluir canciones, poesías, oraciones, celebraciones y otros elementos que favorezcan un ambiente acogedor y fraterno.

La propuesta es aprender, reflexionar, debatir, celebrar y actuar. Más que formar especialistas en política, el cuaderno busca despertar ciudadanos conscientes de su responsabilidad en la construcción de la sociedad.

El cuaderno “Encantar la política” llega como una contribución de la Iglesia a un debate urgente en América Latina y el Caribe. No ofrece respuestas preparadas para todos los problemas ni pretende agotar la complejidad de los desafíos actuales. Su principal tarea es abrir caminos para la reflexión, el diálogo y la participación.

Al presentar la política como servicio, el material cuestiona la idea de que esta debe entenderse únicamente como disputa, carrera o conquista del poder. Gobernar es cuidar. Legislar es proteger derechos. Participar es asumir responsabilidad por la vida colectiva.

La propuesta se dirige a personas de distintas tradiciones religiosas, a quienes están en búsqueda de Dios y a todas las mujeres y hombres de buena voluntad que desean colaborar en la construcción de una sociedad justa y pacífica.

En tiempos de desánimo, el cuaderno apuesta por la posibilidad de volver a encantar la política mediante la fraternidad, la justicia, la participación popular y el cuidado de la Casa Común. Es una invitación a que la fe no permanezca distante de la realidad y a que la ciudadanía se viva como un compromiso con quienes más sufren.

Al final, permanece una tarea concreta, transformar las palabras en actitudes. Como recuerda el Documento Final del Sínodo sobre la Sinodalidad, corresponde a los laicos y las laicas impregnar y transformar las realidades temporales con el espíritu del Evangelio.

Es en el encuentro entre fe, responsabilidad social y acción ciudadana donde la política puede recuperar su dignidad y volver a ser un instrumento de vida plena para todos.

cuaderno encantar la política

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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras.