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Eleições 2026: entre a inteligência artificial e a responsabilidade de informar


Eleições 2026: entre a inteligência artificial e a responsabilidade de informar

Vívian Marler / Projeto Encantar a Política

Guia produzido pelo ITS Rio e pela Redes Cordiais mostra como a IA pode apoiar o jornalismo, mas alerta para erros, vieses e riscos de desinformação durante o processo eleitoral.

Em outubro de 2026, mais de 158 milhões de brasileiras e brasileiros estarão aptos a escolher presidente, governadores, senadores e deputados. Será a primeira eleição geral do país realizada em um cenário de uso amplo da inteligência artificial generativa.

A tecnologia já faz parte da rotina de muitas pessoas. É utilizada para pesquisar, resumir documentos, produzir textos, criar imagens, responder dúvidas e organizar informações. Também começa a ocupar um lugar cada vez mais importante no debate político, ajudando eleitores a conhecer candidaturas, comparar propostas e compreender as regras do processo eleitoral.

Mas há uma pergunta que precisa ser feita, quando uma ferramenta de inteligência artificial responde a uma dúvida sobre as eleições, ela está apenas informando ou também pode influenciar a escolha do eleitor?

Essa é uma das questões apresentadas pelo “Jornalismo.IA — Guia IA + Eleições”, produzido pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio) e pela Redes Cordiais, com apoio do Consulado Geral da República Federal da Alemanha no Rio de Janeiro.

Embora dirigido principalmente a jornalistas e produtores de conteúdo, o guia interessa a toda a sociedade. Afinal, compreender como a inteligência artificial funciona e quais são seus limites é também uma forma de proteger a democracia.

A inteligência artificial generativa é capaz de produzir textos, imagens, áudios, vídeos e códigos a partir de comandos feitos pelos usuários. Entre as ferramentas conhecidas estão ChatGPT, Gemini, Claude, Grok e DeepSeek.

Esses sistemas aprendem padrões a partir de grandes volumes de dados e produzem respostas consideradas coerentes para determinada pergunta. Entretanto, uma resposta bem escrita não é necessariamente verdadeira.

O guia chama atenção para o fenômeno conhecido como “alucinação”, quando a ferramenta apresenta uma informação falsa ou sem fundamento como se fosse verdadeira. O conteúdo pode parecer seguro, organizado e convincente, mas conter um erro importante.

Durante uma eleição, isso pode causar danos. Uma ferramenta pode confundir o partido de uma candidatura, atribuir uma proposta a quem nunca a apresentou, misturar cargos, citar datas incorretas ou apresentar como atual uma informação antiga.

Por isso, a inteligência artificial não deve ser tratada como fonte definitiva de informação. Ela pode auxiliar o jornalista a resumir um documento ou organizar dados, mas cada resultado precisa ser conferido em fontes confiáveis.

Outra preocupação apresentada pelo guia diz respeito aos vieses. As ferramentas refletem os dados utilizados em seu treinamento e podem reproduzir desigualdades, estereótipos e ausências presentes na sociedade.

Isso pode aparecer na forma como são tratadas mulheres, pessoas negras, grupos vulneráveis, regiões do país ou determinadas posições políticas. Também pode ocorrer por meio da ausência de informações sobre realidades pouco representadas no ambiente digital.

A questão é ainda mais sensível quando se trata do Brasil. Muitos modelos são treinados majoritariamente com conteúdos em inglês. Como consequência, informações sobre a política brasileira, sobretudo sobre disputas locais e contextos regionais, podem ser incompletas ou imprecisas.

Na Amazônia, o desafio ganha outra dimensão. A existência de municípios com pouca cobertura jornalística reduz a quantidade de informações confiáveis disponíveis na internet. Com menos fontes locais, aumentam as chances de a inteligência artificial utilizar dados antigos, incompletos ou fora de contexto.

Nas eleições municipais de 2024, uma das principais preocupações era a utilização de vídeos e áudios falsos, os chamados ‘deepfakes’, para favorecer ou prejudicar candidaturas.

Embora esses conteúdos tenham provocado preocupação, a desinformação tradicional continuou presente, vídeos verdadeiros retirados de contexto, imagens antigas apresentadas como atuais, títulos enganosos e mentiras sobre o processo eleitoral.

De lá para cá, a produção de conteúdos sintéticos ficou mais barata, rápida e sofisticada. Hoje, já é difícil distinguir, apenas pela observação, uma imagem ou um áudio verdadeiro de outro produzido artificialmente.

A expansão dos conteúdos de baixa qualidade gerados em grande escala, conhecidos como slops, aumenta o ruído nas redes sociais. Em meio a milhares de textos, vídeos e imagens, o eleitor pode não saber mais o que foi produzido por uma pessoa, o que foi manipulado e o que foi inteiramente criado por uma ferramenta.

O Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras específicas para o uso da inteligência artificial nas eleições. A Resolução nº 23.732/2024 determinou que conteúdos eleitorais criados ou modificados por IA devem ser identificados. Também proibiu o uso de deepfakes para favorecer ou prejudicar candidaturas e exigiu que os chatbots utilizados por campanhas se apresentem como sistemas automatizados.

Para as Eleições 2026, a Resolução nº 23.755/2026 ampliou as restrições. Sistemas de inteligência artificial não podem recomendar candidatos; ranquear candidaturas; apontar quem seria o “melhor” candidato; apresentar nomes em ordem que sugira preferência; indicar em quem o eleitor deve votar; elogiar ou desqualificar candidaturas; favorecer ou prejudicar partidos, federações ou coligações.

A regra vale inclusive quando o próprio usuário pergunta diretamente “Em quem devo votar?”

O guia também menciona a chamada “Lei Seca” da IA. Nas 72 horas anteriores a cada turno e nas 24 horas posteriores, fica proibida a circulação de novo conteúdo sintético que altere imagem, voz ou manifestação de candidatos e pessoas públicas, mesmo que o material esteja identificado como produzido por inteligência artificial.

A inteligência artificial passou a ocupar um espaço de intermediação no acesso às informações eleitorais. Segundo o guia, 62,9% dos eleitores consideram consultar uma ferramenta de IA para obter informações sobre o processo eleitoral.

Muitas pessoas recorrem a esses sistemas para saber quem são os candidatos, comparar propostas e entender as regras da eleição. Antes, essa função era desempenhada principalmente pelos veículos de imprensa, pelos buscadores e pelas páginas oficiais da Justiça Eleitoral.

A mudança cria uma nova responsabilidade. Se uma ferramenta escolhe determinadas fontes, omite outras ou organiza candidaturas de maneira desigual, pode influenciar a percepção pública sobre a disputa.

O projeto “Boca de IA”, do ITS Rio, acompanha como sete ferramentas respondem a perguntas eleitorais: ChatGPT, Gemini, Meta AI, Grok, DeepSeek, Perplexity e Claude.

A pesquisa verifica se as plataformas recomendam ou ranqueiam candidaturas; quais fontes são utilizadas; se informações falsas são apresentadas como fatos. Nas rodadas analisadas, todas as ferramentas apresentaram algum grau de ranqueamento em determinados momentos, mesmo após a entrada em vigor das normas eleitorais.

O guia não apresenta a inteligência artificial apenas como ameaça. A tecnologia também pode ser útil para o trabalho jornalístico, desde que permaneça sob supervisão humana.

Entre as possibilidades estão resumir planos de governo; localizar propostas por temas; comparar documentos oficiais; transcrever entrevistas; organizar bases de dados; acompanhar votações legislativas; monitorar discursos de campanhas;
– identificar padrões nas redes sociais; criar painéis de acompanhamento da apuração.

O cuidado fundamental é não permitir que a ferramenta substitua a apuração jornalística. Ao analisar um plano de governo, por exemplo, a IA pode ajudar a localizar propostas sobre saúde, educação, segurança ou meio ambiente. Mas o jornalista precisa conferir cada informação no documento original, verificar a página citada e ouvir as pessoas envolvidas.

A ferramenta pode tornar algumas etapas mais rápidas. Não pode assumir a responsabilidade editorial. A verdade continua sendo uma tarefa humana. Em tempos de tecnologia avançada, o jornalismo precisa reafirmar procedimentos que sempre fizeram parte de sua missão perguntar, verificar, confrontar versões e explicar o contexto.

Uma imagem pode ser falsa. Um áudio pode ter sido manipado. Um texto pode ter sido produzido por uma máquina. Uma resposta pode parecer segura e, ainda assim, estar errada.

Por isso, o eleitor deve ser estimulado a consultar fontes primárias, comparar informações e desconfiar de conteúdos que provocam reações imediatas de medo, indignação ou entusiasmo.

O desafio não está em rejeitar a tecnologia nem em aceitá-la sem questionamento. Está em utilizá-la com responsabilidade, transparência e senso crítico.

A inteligência artificial pode contribuir com a democracia quando amplia o acesso à informação e ajuda a compreender documentos complexos. Mas pode ameaçá-la quando passa a decidir o que o cidadão deve pensar, em quem deve confiar ou qual candidatura merece mais destaque.

Nas Eleições 2026, a decisão continuará sendo humana. E, para que seja verdadeiramente livre, precisará estar apoiada em informação confiável, jornalismo responsável e participação consciente.

Clique no link para ler Jornalismo.IA-Guia-IA-eleicoes
Clique no link para ler o projeto Relatório Boca de IA – Quarta Edição_FINAL

Fonte ‘Jornalismo.IA — Guia IA + Eleições’ – Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio) e Redes Cordiais. Apoio: Consulado Geral da República Federal da Alemanha no Rio de Janeiro.

 

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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras.