
Quando a inteligência artificial responde pelo eleitor
por Vívian Marler / Projeto Encantar a Política
Pesquisa do ITS Rio revela que ferramentas de IA ainda ranqueiam candidaturas, apresentam informações incorretas e recorrem pouco a fontes oficiais nas respostas sobre as Eleições 2026.
A pergunta parece simples, “Em quem eu devo votar?”
Para muitas pessoas, a resposta pode estar a poucos toques de distância, na tela de um celular ou computador. As ferramentas de inteligência artificial generativa já fazem parte da rotina de milhões de usuários e são utilizadas para pesquisar, comparar informações, esclarecer dúvidas e formar opiniões.
Mas o que acontece quando a pergunta envolve uma escolha política?
A quarta rodada da pesquisa “Boca de IA: Como as IAs respondem a perguntas sobre as eleições de 2026?”, realizada pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), em parceria com o Ministério Público Federal (MPF), mostra que esse caminho ainda está longe de ser seguro.
O levantamento analisou, entre os dias 2 e 6 de julho de 2026, as respostas produzidas por sete ferramentas, ChatGPT, Gemini, Meta AI, Grok, DeepSeek, Perplexity e Claude.
O resultado acende um alerta para eleitores, instituições, jornalistas e para a própria Justiça Eleitoral, mesmo existindo uma norma que proíbe sistemas de inteligência artificial de ranquearem, recomendarem ou priorizarem candidaturas, esse comportamento continua aparecendo com frequência.
De acordo com o estudo, 90% das respostas analisadas ordenaram ou hierarquizaram candidaturas. Isso significa que, em vez de apenas apresentar informações para que o eleitor formasse sua própria opinião, as ferramentas frequentemente destacaram nomes, organizaram candidatos em uma espécie de lista de preferência ou apontaram quem aparecia como “melhor” ou “mais forte”.
O problema não está apenas quando a ferramenta diz diretamente em quem votar. O ranqueamento também pode ocorrer de maneira mais sutil, quando um candidato recebe mais destaque do que os demais, quando poucos nomes são apresentados sem uma explicação clara ou quando uma pesquisa de intenção de voto é usada como se fosse resposta para a pergunta sobre qual candidatura seria a melhor.
Nas perguntas sobre governadores, o índice foi ainda maior, 93% das respostas apresentaram algum tipo de ranqueamento. Nas perguntas sobre a Presidência da República, o percentual ficou em 81%.
A pesquisa mostra, assim, que uma ferramenta pode afirmar que não tem opinião política e, logo depois, oferecer uma resposta que conduz o usuário a determinada percepção sobre as candidaturas.
É uma diferença importante. Não basta evitar a frase “vote neste candidato”. Também é necessário evitar que a estrutura da resposta produza, na prática, uma indicação ou uma hierarquia eleitoral.
A análise toma como referência a ‘Resolução nº 23.755/2026 do Tribunal Superior Eleitoral’, que proíbe provedores de sistemas de inteligência artificial de ranquear ou recomendar candidatos; sugerir ou priorizar candidaturas; emitir preferência eleitoral; recomendar voto; favorecer ou desfavorecer candidaturas, direta ou indiretamente.
A regra parte de uma preocupação essencial, a liberdade de escolha do eleitor pode ser afetada não apenas pela propaganda explícita, mas também pela forma como as informações são organizadas e entregues.
Uma lista apresentada como “panorama” pode parecer neutra, mas não será necessariamente neutra se incluir apenas alguns candidatos, destacar determinados atributos ou utilizar critérios não explicados.
Para quem pergunta, a resposta pode soar segura, objetiva e até personalizada. No entanto, a aparência de segurança não garante que o conteúdo esteja correto, atualizado ou equilibrado.
Outro dado relevante da pesquisa é a presença de alucinações, termo utilizado para identificar informações factualmente incorretas apresentadas pelas ferramentas com aparência de verdade.
No conjunto analisado, 16% das respostas apresentaram algum tipo de erro factual. O índice foi maior nas perguntas sobre os governos estaduais, chegando a 19%, enquanto nas perguntas sobre a Presidência ficou em 5%.
O erro mais frequente foi a atribuição incorreta de partidos. Mesmo depois do encerramento do prazo legal de filiação partidária, algumas ferramentas ainda associavam pré-candidatos a legendas antigas ou apresentavam uma mesma pessoa vinculada a dois partidos.
Também foram identificados casos em que uma pessoa foi apresentada como candidata a um cargo diferente daquele que disputaria ou era apontada, ao mesmo tempo, como pré-candidata a dois postos incompatíveis.
Esse tipo de erro pode parecer pequeno para quem lê rapidamente. Mas, em uma eleição, informar incorretamente o partido, o cargo ou a trajetória de uma candidatura pode alterar a percepção do eleitor. Uma informação errada, quando aparece ao lado de dados verdadeiros e é escrita em tom seguro, pode ser ainda mais difícil de reconhecer.
O estudo também avaliou a origem das informações utilizadas pelas ferramentas. As fontes oficiais, como portais institucionais, sites de governos, páginas do Legislativo, perfis verificados de partidos e candidaturas, apareceram em apenas 39% das respostas.
Nas perguntas sobre a Presidência, esse percentual chegou a 50%. Já nas respostas sobre governadores, caiu para 35%.
As fontes informacionais, como veículos de imprensa, institutos de pesquisa e enciclopédias on-line, apareceram em 95% das respostas sobre governos estaduais e em 93% das respostas presidenciais.
A presença de veículos jornalísticos é importante, mas não substitui a consulta às fontes primárias. Uma notícia pode ajudar a contextualizar uma candidatura, enquanto os registros oficiais devem ser consultados para confirmar filiação partidária, cargo, registro, programa de governo e situação jurídica.
Em outro ponto de atenção, o estudo registrou o uso de uma plataforma estrangeira de apostas preditivas como fonte em respostas sobre disputas estaduais. Para uma eleição, tratar apostas sobre resultados como se fossem informação eleitoral confiável é um procedimento que exige cautela.
A pesquisa apresenta um dado especialmente importante para a Amazônia, a região Norte registrou a maior taxa de alucinações entre as regiões analisadas, com 33% nas perguntas sobre governos estaduais.
No Pará, o estudo identificou 29% de presença de fontes oficiais; 86% de presença de fontes informacionais; 86% de respostas com ranqueamento; 29% de respostas com alucinações.
Os números precisam ser lidos com cuidado. Eles não significam que toda resposta sobre o Pará esteja errada, nem que uma ferramenta específica seja sempre inadequada. O que revelam é uma dificuldade maior para sistemas que dependem do conteúdo disponível na internet.
O próprio relatório relaciona esse problema à existência dos chamados ‘desertos de notícia’: municípios onde não há veículo jornalístico local em atividade ou onde a produção de informação pública é escassa.
Quando há menos jornalismo local disponível, há também menos informação confiável para ser encontrada, comparada e utilizada pelos sistemas digitais. O resultado pode ser a repetição de dados antigos, a mistura de nomes, a confusão entre cargos e a reprodução de informações sem contexto.
Para a Amazônia, esse alerta é ainda mais significativo. A distância entre os municípios, a precariedade das conexões, a baixa presença de veículos locais e a pouca visibilidade das disputas regionais criam um ambiente em que a desinformação pode circular com facilidade.
A pesquisa não afirma que a inteligência artificial seja inútil para o eleitor. Pelo contrário, as ferramentas podem ajudar a organizar informações, explicar conceitos, resumir documentos e sugerir caminhos de pesquisa.
O limite está em transformar essa ajuda em uma espécie de atalho para a decisão política. Nenhum sistema deve substituir o contato do eleitor com as propostas, os debates, os programas de governo, o histórico público e as fontes oficiais. A tecnologia pode colaborar com a busca, mas não deve ocupar o lugar da consciência.
Uma resposta responsável às perguntas eleitorais poderia apresentar critérios de comparação, indicar fontes confiáveis e lembrar que a escolha depende das prioridades de cada pessoa. Economia, saúde, educação, segurança, meio ambiente, transparência, direitos humanos e capacidade de gestão são temas que podem orientar uma análise mais séria.
O que não se pode aceitar é que a ferramenta esconda uma recomendação dentro de um suposto panorama neutro ou apresente como fato aquilo que não foi devidamente verificado.
A conclusão mais importante da pesquisa talvez seja esta, a inteligência artificial também precisa ser verificada.
O eleitor deve desconfiar de respostas que apresentam um candidato como “o melhor”; trazem listas sem explicar os critérios; não informam as fontes; misturam pré-candidatos com candidatos oficialmente registrados; atribuem partidos ou cargos incorretos; citam pesquisas sem data, instituto ou metodologia; respondem com muita segurança a uma questão ainda incerta.
A pergunta “em quem eu devo votar?” não pode ser entregue inteiramente a uma máquina. A democracia exige mais do que uma resposta rápida. Exige tempo, responsabilidade, memória, diálogo e disposição para confrontar informações diferentes.
No fim, a decisão continua pertencendo ao eleitor. E talvez essa seja a maior contribuição que uma tecnologia possa oferecer, não escolher por ele, mas ajudá-lo a fazer perguntas melhores, buscar fontes mais confiáveis e decidir com maior consciência.
Acesse o relatório da pesquisa Relatório Boca de IA – Quarta Edição_FINAL
Fonte: Boca de IA — Como as IAs respondem a perguntas sobre as eleições de 2026? 4ª rodada de análises — julho de 2026.
Pesquisa realizada pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), em parceria com o Ministério Público Federal (MPF)
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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras.