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Mulheres ainda são minoria nas candidaturas, mas maioria entre quem vota

Mulheres ainda são minoria nas candidaturas, mas maioria entre quem vota

Vívian Marler / Projeto Encantar a Política

Dados das Eleições 2026 revelam avanços tímidos na presença feminina e mostram que, na Amazônia, a disputa por representação passa também pela identidade, pelo território e pelo acesso a recursos.

As mulheres são maioria entre as eleitoras brasileiras, mas continuam sendo minoria entre as pessoas que disputam os cargos públicos. Esse contraste aparece novamente nos registros das Eleições Gerais de 2026 e revela uma pergunta que a democracia brasileira ainda não conseguiu responder plenamente. Por que aquelas que são maioria na sociedade permanecem tão distantes dos espaços de decisão?

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), divulgados neste período de registro de candidaturas, mostram que as mulheres representam 34,8% das 20.496 candidaturas registradas em todo o país. São 7.134 mulheres e 13.362 homens. O percentual é um pouco superior ao registrado nas eleições gerais de 2022, quando as mulheres correspondiam a 33,8% das candidaturas. O crescimento, porém, ainda é pequeno diante da presença feminina no eleitorado: elas somam 52,8% das pessoas aptas a votar, ou aproximadamente 83,9 milhões de eleitoras. A diferença entre quem vota e quem pode ser votada continua evidente.

A legislação eleitoral determina que os partidos assegurem o mínimo de 30% e o máximo de 70% de candidaturas de cada gênero. A regra foi criada para impedir que as mulheres fossem excluídas das chapas, mas o número também expõe uma limitação: em muitos casos, a participação feminina acaba sendo tratada como uma obrigação mínima, e não como uma mudança real na estrutura do poder.

Estar na lista de candidaturas é apenas o primeiro passo. Depois vêm outras barreiras, acesso desigual aos recursos do fundo eleitoral, menor tempo de propaganda, pouca visibilidade, violência política, ataques nas redes sociais e dificuldade para transformar uma candidatura formal em uma candidatura competitiva. A presença numérica, portanto, não garante automaticamente a eleição. É possível cumprir a cota e, ao mesmo tempo, manter os espaços de decisão concentrados nos mesmos grupos de sempre.

A distância aumenta quando se observam os cargos mais importantes da eleição. Segundo o levantamento nacional, as mulheres representam apenas 15% das candidaturas à Presidência da República e 16% das candidaturas aos governos estaduais. Nas disputas proporcionais, para deputadas e deputados federais, estaduais e distritais, a participação feminina chega a 35,3%. Os números sugerem que os partidos ainda se mostram mais dispostos a incluir mulheres nas listas proporcionais do que a lançá-las para os cargos majoritários, onde a disputa exige maior estrutura financeira, visibilidade pública e capacidade de articulação política.

Esse cenário não é apenas um problema das mulheres. É um problema da própria democracia. Quando os espaços de poder não refletem a diversidade da sociedade, uma parte significativa da população passa a ser governada por pessoas que não experimentam as mesmas condições de vida, os mesmos obstáculos e as mesmas urgências.

A reportagem do G1 (link ao final da matéria) sobre o Amazonas mostra que o estado registrou 163 candidaturas femininas entre 462 registros, o equivalente a 35,8%.

O percentual se mantém próximo do observado nas eleições de 2024, mas o número absoluto de candidatas caiu em relação às eleições gerais de 2022, eram 230 mulheres naquele pleito e passaram a ser 163 em 2026, uma redução de 29%.

A maioria das candidatas amazonenses se autodeclara parda,  são 101 mulheres, o equivalente a 61,96% dos registros femininos. O levantamento também registra 26,99% de candidatas brancas e 5,52% de candidatas pretas.

Há ainda oito candidaturas de mulheres indígenas, pertencentes a povos como Kambeba, Munduruku, Kokama, Mura, Tikuna e Witoto. Duas candidaturas são de mulheres quilombolas.

A maior parte das candidatas concorre ao cargo de deputada estadual, são 100 dos 163 registros femininos. Para os cargos majoritários, os números são muito menores, há três candidaturas para vice-governadora, quatro para primeira suplência e apenas uma candidatura feminina para cada um dos cargos de governadora, senadora e segunda suplência.

O retrato amazonense expõe duas questões ao mesmo tempo, as mulheres estão presentes nas listas, mas ainda têm pouco espaço nas disputas de maior visibilidade; e a diversidade étnica da população não aparece na mesma proporção entre as candidaturas.

No Pará, os dados apontam um cenário um pouco diferente. Segundo levantamento publicado pelo jornal O Liberal (link ao final da matéria) , o estado registra 713 candidaturas para as Eleições 2026. As mulheres correspondem a 37% desse total, acima dos 34% registrados em 2022.

O estado também ampliou a presença indígena nas candidaturas, passou de três registros em 2022 para oito em 2026. Entre os nomes aparecem representantes de povos como Tembé, Arapiun, Aruá, Gavião Parkatêjê, Kayapó e Munduruku.

Apesar do crescimento proporcional, a participação indígena ainda representa apenas 1,12% das candidaturas. O dado chama atenção porque o Pará possui uma expressiva presença de povos originários e uma história profundamente ligada às disputas por território, proteção ambiental, direitos sociais e reconhecimento cultural.

A participação de mulheres indígenas, quilombolas e de outros grupos historicamente afastados da política institucional não deve ser vista apenas como uma questão estatística. Ela representa a possibilidade de levar para os espaços de decisão experiências que muitas vezes permanecem invisíveis nos programas de governo e nos debates eleitorais.

No entanto, como observa o cientista político Edir Veiga na reportagem de O Liberal, a presença nas listas não significa necessariamente acesso ao poder. O financiamento, a estrutura partidária e a viabilidade eleitoral continuam concentrados em grupos com histórico de influência.

Falar da participação feminina no Norte do país exige ir além da comparação entre homens e mulheres. A Amazônia é formada por mulheres urbanas, ribeirinhas, indígenas, quilombolas, agricultoras, trabalhadoras, profissionais liberais, lideranças comunitárias, religiosas e defensoras dos territórios. Cada uma dessas experiências oferece uma leitura diferente sobre saúde, educação, segurança, transporte, mudanças climáticas, violência, saneamento e desenvolvimento.

Quando essas mulheres entram na política, não levam apenas uma identidade. Levam também conhecimentos, memórias e demandas coletivas. Uma mulher indígena que disputa uma vaga pode trazer ao debate a realidade de seu povo e a defesa do território. Uma liderança quilombola pode apresentar problemas que não aparecem nos grandes centros. Uma mulher ribeirinha pode falar sobre o deslocamento até os serviços públicos, a qualidade da água e as dificuldades enfrentadas pelas comunidades isoladas.

A presença dessas vozes não deve ser reduzida a uma fotografia de diversidade. Elas precisam ter condições reais de disputar, receber recursos, participar dos debates e exercer o mandato, caso sejam eleitas.

A escolha consciente não envolve apenas analisar propostas econômicas ou promessas de campanha. Também pode incluir uma reflexão sobre quem está sendo apresentado para representar a sociedade.

O eleitor pode perguntar.  Há mulheres entre as candidaturas do partido? Elas ocupam posições competitivas ou aparecem apenas para cumprir a cota? Existem candidaturas indígenas, quilombolas e negras? Os recursos de campanha estão sendo distribuídos de maneira equilibrada? As propostas contemplam as diferentes realidades do estado? Os partidos enfrentam ou silenciam diante da violência política contra as mulheres?

Essas perguntas não obrigam ninguém a votar em determinado candidato ou candidata. Elas ajudam a ampliar os critérios de análise e a compreender que representação política também é uma dimensão da qualidade democrática.

O aumento de um ponto percentual na participação feminina nacional é um sinal de mudança, mas não permite comemoração completa. Os números mostram que as mulheres continuam enfrentando obstáculos para chegar às urnas como candidatas e, sobretudo, para ocupar os cargos de maior poder.

No Amazonas, a redução do número absoluto de candidatas em relação a 2022 exige atenção. No Pará, o crescimento proporcional das mulheres e das candidaturas indígenas é uma notícia importante, mas ainda insuficiente diante da diversidade da população e dos desafios vividos no estado.

A democracia se fortalece quando ninguém precisa pedir licença para participar. E uma política verdadeiramente representativa não pode considerar normal que mulheres sejam maioria entre eleitoras e minoria entre as pessoas que decidem os rumos do país.

As Eleições 2026 oferecem ao eleitor a oportunidade de olhar não apenas para os discursos, mas também para a composição das candidaturas, as condições oferecidas pelos partidos e a presença, ou ausência, das diferentes vozes brasileiras. No Norte do país, esse olhar é ainda mais necessário. Porque representar o território também significa permitir que suas mulheres, seus povos e suas comunidades participem das decisões que definem o futuro da região.

Fontes consultadas
https://g1.globo.com/am/amazonas/eleicoes/2026/noticia/2026/08/20/no-amazonas-mulheres-sao-35percent-das-candidaturas-registradas-nas-eleicoes-de-2026.ghtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=canais&utm_campaign=g1-manaus
https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/08/16/mulheres-candidaturas-eleicoes-2026.ghtml
– https://www.oliberal.com/eleicoes/para-registra-aumento-na-proporcao-de-mulheres-e-amplia-presenca-indigena-nas-urnas-1.1157970

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