Em programa da Rádio Rio Mar, de Manaus, arcebispo defende a formação política a partir da fé, do diálogo e do compromisso com a comunidade e com a Amazônia
Vívian Marler / Projeto Encantar a Política
Antes de pensar em uma candidatura, em um partido ou em um cargo público, o jovem pode começar a sua caminhada política aprendendo a participar, servir e cuidar da comunidade onde vive. Essa é uma das reflexões apresentadas pelo arcebispo de Manaus, Dom Leonardo Steiner, em um programa produzido pela Rádio Rio Mar, em 2022.
A fala permanece atual porque responde a uma inquietação ainda presente entre muitos jovens, como se aproximar da política em um cenário marcado por denúncias de corrupção, disputas de poder e descrédito nas instituições?
Para Dom Leonardo, a resposta não está no afastamento, mas na participação consciente. O jovem, segundo ele, possui uma sensibilidade própria para perceber o sofrimento dos outros e pode transformar essa disposição em compromisso com a vida coletiva.
A participação em um grupo de jovens, na catequese, em ações pastorais ou em qualquer espaço comunitário pode ser uma primeira experiência de responsabilidade social. Nesses ambientes, os jovens aprendem a dialogar, refletir, organizar atividades, tomar decisões e reconhecer que suas escolhas interferem na vida de outras pessoas. “O jovem gosta de participar. O jovem gosta de servir. Ele tem uma sensibilidade muito grande para os outros. Participar ativamente da vida da comunidade é uma maneira de iniciar-se na vida política”, disse o arcebispo.
A experiência comunitária ajuda a ampliar o olhar. Quem aprende a cuidar da própria comunidade de fé pode começar a perceber que também tem responsabilidade diante do bairro, do município, do estado e do país. A política, nesse sentido, deixa de ser uma realidade distante e passa a fazer parte da vida cotidiana.
Na avaliação do arcebispo, um dos grandes desafios atuais é separar a política dos atos de corrupção praticados por determinados políticos. Ao longo dos últimos anos, escândalos e investigações contribuíram para que muitas pessoas passassem a considerar a própria política como algo sujo ou prejudicial à sociedade. Dom Leonardo observa que essa generalização enfraquece a democracia. A existência de políticos corruptos não significa que a política seja, por natureza, corrupta. O problema está nas práticas que desviam a finalidade da atividade política e colocam interesses particulares acima das necessidades da população.
“Ao aparecerem elementos de corrupção, começou-se a atacar a política, em vez de demonstrar apenas que existem políticos corruptos. Começou-se a chamar a política de corrupção. É claro que existe jogo de poder na política, nos partidos, mas esse não é o sentido da política”, explicou Dom Leonardo.
Para recuperar o significado da política, é necessário estudar, debater e refletir. O arcebispo chama atenção para o fato de que, depois do fim da ditadura, a sociedade brasileira pode ter acreditado que a democracia já estava plenamente consolidada e que não seria mais necessário discutir seus fundamentos. Com isso, o debate político foi perdendo espaço em diferentes ambientes, como as periferias, as universidades e as comunidades. Algumas práticas passaram a ser tratadas como normais, mesmo quando estavam relacionadas à corrupção, à destruição dos bens públicos e à chamada antipolítica.
A democracia, porém, não é uma conquista definitiva. Ela precisa ser aprendida, exercitada e protegida continuamente. A contribuição dos cidadãos começa, de acordo com Dom Leonardo, por atitudes simples e profundas: dialogar, conversar e escutar. Em uma sociedade marcada pela polarização, ouvir quem pensa diferente pode se transformar em um gesto de resistência à intolerância.
O diálogo não significa abrir mão das próprias convicções. Significa reconhecer que nenhuma pessoa ou grupo possui sozinho todas as respostas para os problemas da sociedade. A escuta permite compreender a realidade com mais profundidade e construir decisões que considerem as necessidades coletivas. Nesse processo, os jovens têm um papel importante. Além de participar das eleições, podem acompanhar debates, conhecer as propostas dos candidatos, analisar a atuação dos partidos e se envolver nas discussões sobre políticas públicas. Para aqueles que sentem vocação para a vida pública, também existe a possibilidade de ingressar em um partido e, futuramente, disputar uma eleição.
A participação pode levar a diferentes funções, como vereador, prefeito, deputado, senador ou presidente da República. O mais importante, porém, é que o ingresso na política seja acompanhado de formação, ética e compromisso com o bem comum.
Ao tratar das eleições e das escolhas dos cidadãos, Dom Leonardo propõe que a defesa do meio ambiente seja um dos critérios fundamentais para os eleitores da Amazônia. A questão ambiental não deve ser vista como um tema secundário ou restrito a especialistas. Ela está diretamente relacionada à saúde, à educação, à moradia, ao saneamento, à qualidade de vida e ao futuro das comunidades.
O arcebispo cita a deficiência do saneamento básico e o descarte inadequado do lixo como exemplos de problemas que também são políticos. Em Manaus, uma cidade com mais de dois milhões de habitantes, a destinação dos esgotos e dos resíduos produzidos diariamente exige planejamento, investimento e fiscalização do poder público. O plástico jogado nas ruas pode ser levado pelas chuvas, alcançar os igarapés e chegar aos rios. Durante o período de cheia, toneladas de resíduos ficam represadas. Quando as águas baixam, parte desse material segue pelos cursos d’água até alcançar o oceano.
Essas situações revelam que as escolhas políticas estão presentes em questões aparentemente comuns, onde o lixo será destinado, como os esgotos serão tratados, quais áreas receberão saneamento e de que maneira o poder público cuidará dos rios e das florestas. “Esses elementos são políticos. Discutir saneamento básico, educação para o lixo e cuidado com o meio ambiente também é discutir políticas públicas. Nesse sentido, nós estamos sendo políticos”.
A formação política inspirada pelo Evangelho, na perspectiva apresentada por Dom Leonardo, não deve produzir indiferença nem afastamento. Pelo contrário, deve ajudar os cristãos a desenvolver critérios para escolher, participar e cobrar dos representantes públicos. A fé pode oferecer uma referência ética para esse caminho, mas não substitui o estudo da realidade nem a responsabilidade cidadã. É preciso conhecer os problemas do município, ouvir as comunidades, acompanhar o orçamento público e observar se as decisões tomadas realmente beneficiam a maioria da população.
A política é necessária porque a vida em sociedade depende de decisões coletivas. Ela define prioridades, distribui recursos, estabelece direitos e pode proteger, ou abandonar, pessoas e territórios. Por isso, aproximar os jovens da política é também ajudá-los a compreender que o futuro não será construído apenas por quem ocupa os cargos públicos. Será construído por todos aqueles que participam, questionam, acompanham, votam com consciência e não aceitam que a corrupção seja apresentada como algo inevitável.
Como resume Dom Leonardo Steiner, a política é vital para a democracia e para a própria vida da sociedade. Reencantá-la exige recuperar a capacidade de servir, dialogar e cuidar. E esse aprendizado pode começar em qualquer lugar onde alguém decida olhar para além de si mesmo e assumir responsabilidade pelo destino da comunidade.
Assista ao vídeo de Dom Leonardo https://www.facebook.com/share/v/1Ejq9YogXh/
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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras. Siga nosso instagram https://www.instagram.com/encantarapolitica/
