Segundo episódio da série “A Política Melhor e a Cultura do Encontro” destaca dignidade humana, bem comum, solidariedade e responsabilidade cidadã
por Vívian Marler / Projeto Encantar a Política
A política não deve ser compreendida apenas como disputa pelo poder. Ela também é um espaço de responsabilidade, serviço e construção coletiva. Essa foi uma das principais reflexões do segundo episódio da série de podcasts “A Política Melhor e a Cultura do Encontro”, iniciativa do Regional Sul 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB Sul 2. O programa contou com a participação de Dom Reginaldo Andrietta, bispo de Jales (SP), que conversou com os jornalistas Karina de Carvalho Nadal, da CNBB Regional Sul 2, e Jorge Teles, da Diocese de Guarapuava.
A série propõe o aprofundamento dos temas apresentados na ‘Cartilha de Orientação Política 2026’. Ao todo, serão dez episódios, publicados semanalmente, sempre às quintas-feiras. Com o tema “O que a Doutrina Social da Igreja tem a dizer sobre a participação dos cristãos na vida pública?”, o episódio apresenta princípios que podem ajudar eleitores, candidatos e comunidades a fazerem um discernimento ético diante da realidade social e política do país.
Ao recordar a origem formal da Doutrina Social da Igreja, Dom Reginaldo destaca a encíclica Rerum Novarum, publicada pelo Papa Leão XIII em 1891. O documento surgiu em um contexto de profundas transformações provocadas pela Revolução Industrial. Trabalhadores e trabalhadoras enfrentavam jornadas exaustivas, baixos salários e ausência de leis que protegessem seus direitos. Homens, mulheres e até crianças chegavam a trabalhar por até 16 horas diárias em condições de exploração e miséria. Diante daquela realidade, a Igreja passou a refletir de forma mais sistemática sobre a condição dos trabalhadores e sobre a relação entre capital e trabalho.
Segundo Dom Reginaldo, a encíclica defendeu que os trabalhadores fossem tratados com dignidade e chamou a atenção dos empresários para a necessidade de relações mais justas. Também ajudou a desenvolver a compreensão sobre a função social da propriedade e a prioridade do bem comum sobre os interesses particulares. Desde então, a Doutrina Social da Igreja continuou sendo atualizada por diferentes papas e conferências episcopais, sempre em diálogo com os desafios de cada período histórico.
Uma das contribuições mais importantes do episódio está na distinção entre princípios éticos e programas políticos. Dom Reginaldo explica que não cabe à Igreja apresentar soluções técnicas para todos os problemas sociais nem defender programas partidários ou ideologias políticas. Essa tarefa pertence aos cristãos leigos e leigas, que devem participar da vida pública com autonomia e responsabilidade.
A Igreja oferece princípios que ajudam a avaliar as propostas e a discernir o que contribui ou não para o bem comum. Esses princípios orientam o modo como as pessoas devem se relacionar entre si, com a sociedade e com o meio ambiente. Eles ajudam a refletir sobre o justo e o injusto, o bem e o mal, a dignidade e a desumanização. Os princípios éticos apresentados pela Igreja são valores fundamentais que orientam os seres humanos”, explica Dom Reginaldo. Para ele, esses valores devem inspirar escolhas políticas e sociais, sem serem transformados em fórmulas rígidas ou respostas únicas para todos os contextos.
A Doutrina Social da Igreja, portanto, não é uma proposta fechada. Ela se atualiza permanentemente, assim como a própria Igreja, porque precisa dialogar com as mudanças da sociedade e com os novos desafios que surgem.
O primeiro e maior princípio destacado no podcast é a dignidade da pessoa humana. Para Dom Reginaldo, todas as instituições sociais, políticas, econômicas, culturais e religiosas devem existir para servir à pessoa. Isso significa que ninguém pode ser reduzido à sua condição econômica, origem, etnia, cultura, religião, deficiência, identidade ou posição social.
Uma sociedade só pode ser considerada justa quando respeita a dignidade de cada ser humano. Ao mesmo tempo, essa dignidade só pode ser plenamente vivida em uma sociedade que assegure direitos e condições básicas de existência. Essa perspectiva tem consequências concretas para a atuação dos governantes e legisladores. Cabe ao Estado promover políticas públicas que garantam saúde, educação, moradia, transporte, segurança, trabalho, formação profissional, proteção social e condições dignas de vida.
O cuidado deve alcançar todas as fases da existência humana, com atenção especial às crianças, adolescentes, idosos, pessoas enfermas e pessoas com deficiência. A dignidade, nesse sentido, não pode permanecer apenas como um conceito bonito. Ela precisa orientar os orçamentos, as leis e as decisões dos governos.
O segundo princípio abordado é o bem comum. Ele diz respeito às condições que permitem a todas as pessoas viverem e conviverem com dignidade, sem discriminação. Para o bispo de Jales, ninguém pode se considerar dispensado da responsabilidade de colaborar com a coletividade. Cada pessoa, instituição e grupo social deve oferecer suas capacidades em favor de uma sociedade mais justa.
A destinação universal dos bens está diretamente ligada ao bem comum. A Igreja reconhece o direito à propriedade privada, mas lembra que os bens da criação têm uma finalidade social e não podem ser utilizados de forma a negar os direitos dos demais. A água é apresentada como exemplo. Mesmo quando chega a uma residência por meio de uma conta individual, continua sendo um bem essencial à vida e deve ser utilizado com responsabilidade, principalmente em situações de escassez.
Já o princípio da subsidiariedade recorda que as instâncias superiores não devem fazer aquilo que as comunidades, grupos e organizações menores podem realizar melhor. Ao Estado cabe apoiar, coordenar e garantir condições para que a iniciativa social se desenvolva, sem substituir a criatividade e a responsabilidade das comunidades.
A solidariedade, por sua vez, significa reconhecer que a vida de cada pessoa está relacionada à vida dos outros. O ser humano cresce em dignidade quando coloca suas capacidades a serviço do bem comum. Essa solidariedade também se estende à relação com a natureza. Cuidar do meio ambiente é cuidar da própria humanidade, já que a preservação da Casa Comum garante melhores condições de vida para as gerações presentes e futuras.
Durante a entrevista, Dom Reginaldo aponta três erros frequentes na interpretação da Doutrina Social da Igreja. O primeiro é conhecê-la de forma superficial ou parcial, reduzindo-a a ações assistenciais. Embora a solidariedade concreta seja importante, a Doutrina Social também chama a atenção para as estruturas sociais, econômicas e políticas que produzem desigualdade e exclusão.
O segundo erro é separar a Doutrina Social da missão evangelizadora da Igreja. Para o bispo, o compromisso social não é uma atividade à parte, mas uma expressão do amor e da compaixão de Cristo. O terceiro, considerado ainda mais grave, é acreditar que a Igreja precisa escolher entre cuidar da dimensão espiritual ou cuidar da vida concreta das pessoas.
Para Dom Reginaldo, essa separação não faz sentido. O cuidado com a alma não pode excluir o cuidado com o corpo, com a sociedade e com a vida em sua totalidade. A fé cristã, portanto, não pode ser indiferente à fome, à violência, à injustiça, à destruição ambiental ou à falta de acesso aos direitos básicos.
Ao concluir o episódio, Dom Reginaldo destaca que a principal contribuição da Doutrina Social da Igreja em um ano eleitoral é despertar o senso de responsabilidade social. As eleições são uma forma importante de participação na vida pública, mas não devem ser vividas de maneira individualista ou baseada apenas em interesses pessoais. O eleitor é chamado a escolher pessoas que representem projetos e programas construídos coletivamente. Nesse processo, as comunidades cristãs também podem desempenhar um papel importante, promovendo encontros, estudos e diálogos sobre a realidade do país.
A formação política, apresentada no podcast, não pretende substituir a consciência de cada eleitor. Ao contrário, busca oferecer instrumentos para que cada pessoa possa exercer sua liberdade com mais conhecimento e responsabilidade.
O segundo episódio da série “A Política Melhor e a Cultura do Encontro” lembra que ninguém está autorizado a se afastar completamente da construção do bem comum. A democracia precisa da participação dos cidadãos, da fiscalização da sociedade e do compromisso de todos com a dignidade humana.
Ouça o episódio, acompanhe os próximos programas e compartilhe essa reflexão em sua comunidade. Participar da vida pública também é uma forma de cuidar das pessoas e construir uma sociedade mais justa, solidária e fraterna.
Ouça o podcast:
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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras.
