
‘Religião e política’ Dom Geremias Steinmetz destaca o compromisso cristão com o bem comum
por Vívian Marler / Projeto Encantar a Política
Em entrevista ao podcast Conexão Alvorada, arcebispo de Londrina explica a contribuição da Igreja para a formação política e alerta que espaços eclesiais não podem se transformar em palanques partidários. É possível falar de política dentro da Igreja sem transformar a celebração em comício? Como os cristãos devem participar da vida pública sem confundir compromisso social com defesa partidária? Essas questões orientaram a entrevista com Dom Geremias Steinmetz, Arcebispo de Londrina (PR), presidente da CNBB Regional Sul 2 e membro do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
A conversa foi realizada pelo padre Jefferson, no podcast ‘Conexão Alvorada’, uma iniciativa da ‘Rádio Alvorada de Londrina’, e teve como tema “Religião e política: Cartilha de Orientação Política 2026”.
Durante o diálogo, Dom Geremias apresentou a proposta da ‘Cartilha de Orientação Política 2026 – “A Política Melhor e a Cultura do Encontro”, elaborada pela CNBB Regional Sul 2. A publicação busca ajudar a população a refletir sobre o processo eleitoral a partir dos princípios da Doutrina Social da Igreja, sem indicar candidatos, partidos ou ideologias.
Para Dom Geremias, não existe separação absoluta entre política e vida cotidiana. As decisões tomadas pelos governantes interferem diretamente no transporte público, na escola, no posto de saúde, no hospital, no saneamento, na segurança, no trabalho e nas condições de vida das famílias. Por isso, o voto não deve ser tratado como uma escolha sem consequências. Ele representa a confiança depositada em pessoas que terão a responsabilidade de conduzir políticas públicas e tomar decisões que atingirão toda a sociedade.
O arcebispo reforça que o objetivo da participação política deve ser a construção do bem comum, o respeito aos direitos humanos, a valorização do trabalho e a promoção da educação. A política, nessa perspectiva, não é apenas uma disputa pelo poder. É uma forma de cuidar daquilo que pertence a todos.
Dom Geremias retoma uma ideia atribuída ao Papa Pio XI e repetida por outros pontífices, entre eles o Papa Francisco, a política é uma das formas mais elevadas de caridade.
A afirmação ganha sentido quando a política é compreendida como serviço e não como instrumento de dominação. É nesse ponto que a inspiração cristã se distancia da busca pelo poder a qualquer custo e se aproxima da responsabilidade com os mais vulneráveis.
Um dos momentos centrais da entrevista trata da presença da política nos espaços eclesiais. O arcebispo afirma que a Igreja deve contribuir para a formação da consciência dos cristãos, defender a democracia, os direitos sociais e a dignidade humana, mas não pode transformar o altar, o púlpito ou as celebrações em palanques partidários.
A Igreja está a serviço de todas as pessoas, inclusive daquelas que pensam de maneira diferente. Por essa razão, padres, bispos e ministros ordenados devem se manter afastados da atuação político-partidária. Dom Geremias explica que o campo próprio da participação partidária é o dos cristãos leigos e leigas. São eles que vivem inseridos nas realidades da família, do trabalho, da educação, da saúde, da economia e da organização social.
Isso não significa que a Igreja deva permanecer em silêncio diante dos problemas do país. Ao contrário, sua missão inclui anunciar o Evangelho, formar consciências e defender a vida, a justiça e os direitos das pessoas. A diferença está em não transformar esse compromisso em apoio oficial a candidaturas ou partidos.
A Cartilha de Orientação Política 2026 está fundamentada na Doutrina Social da Igreja, que oferece princípios para iluminar a participação cidadã. Dom Geremias destaca que a Igreja não apresenta uma solução técnica única para os problemas da sociedade. Ela oferece valores e critérios que podem ajudar os cidadãos a avaliar propostas, candidatos e projetos de país.
Entre esses critérios estão a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a defesa dos direitos sociais, a solidariedade, a democracia, a participação popular e a atenção especial às pessoas mais vulneráveis. O arcebispo lembra que o bem comum deve começar por aqueles que mais dependem das políticas públicas. Pessoas em situação de pobreza, crianças, idosos, trabalhadores, comunidades tradicionais e grupos historicamente excluídos precisam estar no centro das decisões políticas.
Na entrevista, Dom Geremias também chama atenção para a ecologia integral. Para ele, a crise ambiental exige decisões políticas responsáveis e de longo prazo. As mudanças climáticas, as secas, as enchentes e os eventos extremos já provocam impactos na vida das populações. O que está em jogo não é apenas a preservação de áreas naturais, mas a sobrevivência e a dignidade das gerações presentes e futuras.
Nesse sentido, cuidar do meio ambiente também é cuidar das pessoas. A política precisa considerar a relação entre economia, trabalho, desenvolvimento, saúde e preservação da natureza. A Laudato Si’ é apresentada como uma contribuição importante para que governos e sociedade compreendam que a Casa Comum não pode ser tratada como mercadoria ou como recurso inesgotável.
Outro aspecto humano destacado por Dom Geremias é a necessidade de coerência. Se a Igreja anuncia a paz, o respeito e a fraternidade, esses valores precisam aparecer também na convivência familiar, comunitária e social. O período eleitoral costuma ser marcado por polarização, brigas e rupturas. Muitas vezes, as divergências chegam às famílias, aos grupos de oração, às pastorais e às comunidades.
Para o arcebispo, discutir política não precisa significar romper relações. A boa política deve criar condições para o diálogo e para a construção de uma sociedade em que todos tenham lugar e direitos respeitados. A democracia não exige que todos pensem da mesma forma. Ela exige que as diferenças possam conviver sem violência, com respeito e responsabilidade.
Ao longo da entrevista, Dom Geremias reforça que ninguém deve dizer “não tenho nada a ver com política”. Todos são afetados pelas decisões públicas e, por isso, todos têm responsabilidade na escolha dos representantes e no acompanhamento dos governos. A Cartilha de Orientação Política 2026 nasce como um instrumento para ajudar as comunidades a estudar, conversar e discernir. Seu objetivo não é impor uma escolha partidária, mas estimular uma participação consciente, fundamentada nos valores do Evangelho e na Doutrina Social da Igreja.
A entrevista realizada pelo Conexão Alvorada, da Rádio Alvorada de Londrina, contribui para ampliar esse debate e lembrar que religião e política podem dialogar quando o centro da conversa é a dignidade humana e o bem comum.
A mensagem que permanece é clara: a fé não deve ser usada para dividir, manipular ou conquistar votos. Ela deve inspirar o serviço, a solidariedade e o compromisso com uma sociedade mais justa.
Assista a entrevista, conheça a Cartilha de Orientação Política 2026 e leve essa reflexão para sua família, sua comunidade e seus grupos pastorais. Participar da política com consciência também é uma forma de cuidar da vida e construir a cultura do encontro.
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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras.