
A fé que se faz compromisso: o voto como ato de amor ao próximo
Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro (Lucas 16,13)
por CRJP / CNBB Sul 1
Participar das eleições com consciência e coragem é dever de toda pessoa que segue o Evangelho e os ensinamentos de Jesus Cristo. A consciência eleitoral exige compreender que a história humana é o cenário onde o Reino de Deus deve começar a se manifestar. Votar conscientemente significa traduzir o mandamento do amor ao próximo em ação transformadora e estrutural.
Nossa caminhada comunitária nos ensina que ser cristão exige viver o Evangelho nas realidades do mundo. Entre essas realidades, as eleições representam um momento de profunda responsabilidade pastoral e de autêntico testemunho de nossa fé. Participar conscientemente da política é um dever sagrado. É nas decisões políticas que escolhemos se a nossa sociedade vai promover a vida ou perpetuar a exclusão. O voto não é uma mercadoria, nem uma escolha individualista, mas uma ferramenta comunitária de transformação social.
Deus não é neutro diante da opressão. Deus escuta o clamor dos oprimidos e se coloca ao lado deles. O voto da pessoa cristã ou cristão deixa de ser uma escolha baseada em interesses pessoais ou corporativos para se tornar uma ferramenta de libertação dos marginalizados. A partir da opção preferencial pelos pobres, nosso voto ganha um critério ético claro. E tomamos partido entre servir a Deus ou ao dinheiro.
No Estado de São Paulo, há mulheres e homens tendo sua dignidade aviltada pela opressão econômica, pelo desemprego e por uma iníqua distribuição de renda e riqueza, que atingiu um desequilíbrio sem precedentes. A legião dos despossuídos cresce: sem-terra, sem-teto, sem-segurança pública, sem-saúde. A repressão policial, herdeira direta do aparato ditatorial, promove morticínios, como na Baixada Santista e nas periferias.
Como Igreja, não temos partidos, mas temos um lado evangélico: o lado dos famintos, dos sem-teto, dos desempregados e dos marginalizados. O teólogo Gustavo Gutiérrez sempre enfatizou que a salvação em Cristo é universal, mas ela se inicia historicamente na libertação de toda a escravidão, miséria e injustiça. Portanto, ir às urnas com consciência cristã exige questionar quais plataformas de governo de fato promovem a dignidade dos mais vulneráveis, os direitos humanos, a justiça e a paz, e combatem as causas estruturais da pobreza.
A participação consciente no processo eleitoral nos pede que tenhamos conhecimento direto das pessoas que se candidatam, sua origem, trajetória e ação pública. É preciso analisar os programas das candidatas e dos candidatos, as políticas de segurança pública, saúde, educação, reforma agrária, preservação ambiental. Votar com consciência pastoral significa olhar para os planos de governo e perguntar: esse projeto garante dignidade para os que mais sofrem? O processo eleitoral torna-se, assim, um verdadeiro ato litúrgico e profético: o momento de denunciar os projetos de morte e anunciar e construir projetos de vida em abundância para todos.
A injustiça não reside apenas nos corações individuais, mas está incrustada em leis, sistemas econômicos e instituições. As eleições são a oportunidade democrática por excelência para desmontar essas estruturas pecaminosas. O voto consciente do cristão é, fundamentalmente, um compromisso com a justiça social e com a construção de uma sociedade solidária, que antecipa, ainda que de forma imperfeita, a utopia do Reino de Deus. Votar com os olhos fixos na realidade dos que sofrem é fazer da cidadania um exercício concreto de amor, esperança e fidelidade ao Deus que liberta
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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras.