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A inteligência artificial e os novos riscos das eleições quando a imagem parece falar

A inteligência artificial e os novos riscos das eleições quando a imagem parece falar

Vívian Marler / Projeto Encantar a Política

Avatares, clonagem de voz e vídeos manipulados desafiam as regras eleitorais e colocam diante do cidadão uma pergunta urgente. Ainda podemos confiar no que vemos e ouvimos?

Durante muito tempo, uma fotografia era recebida como prova. Um áudio parecia carregar a verdade de quem falava. Um vídeo era visto como testemunha de um acontecimento.

A inteligência artificial mudou essa relação com as imagens e as vozes. Hoje, é possível criar uma pessoa que nunca esteve em determinado lugar, fazê-la pronunciar palavras que nunca disse e produzir cenas capazes de parecer reais, embora jamais tenham acontecido.

Nas eleições, essa possibilidade deixa de ser apenas uma novidade tecnológica. Ela passa a tocar um dos fundamentos da democracia, a liberdade de escolha do eleitor.

O problema não está no uso da tecnologia em si. Ferramentas de inteligência artificial podem ajudar campanhas a produzir materiais, ampliar o acesso à informação e dialogar com públicos diferentes. A preocupação surge quando a tecnologia é usada para enganar, manipular, atacar adversários ou fabricar uma realidade paralela.

No Brasil, um caso envolvendo a imagem e a voz do ex-presidente Jair Bolsonaro colocou novamente essa discussão no centro do debate eleitoral. Durante o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, foi exibido um vídeo produzido com inteligência artificial no qual aparece um avatar do pai do candidato. A peça informa que se trata de uma simulação, mas reproduz a imagem e a voz de Jair Bolsonaro para pedir apoio ao filho.

O episódio passou a ser questionado no âmbito da Justiça Eleitoral e levantou uma questão que ainda não tem resposta simples, a identificação de que o conteúdo foi produzido por inteligência artificial é suficiente para torná-lo legítimo?

Reportagem da BBC News Brasil mostrou que, paralelamente ao vídeo utilizado na convenção, circulam nas redes outros materiais falsos em que o chamado “Bolsonaro de IA” aparece pedindo votos, fazendo apelos emocionais ou divulgando informações que nunca foram pronunciadas pelo ex-presidente.

A diferença entre os conteúdos é importante. No vídeo apresentado oficialmente, havia indicação de que se tratava de uma simulação. Já nos demais materiais, o público poderia ser levado a acreditar que Bolsonaro realmente estava falando.

É justamente nessa zona de incerteza que surgem os principais riscos, quem autorizou o uso da imagem? A pessoa retratada concordou com o conteúdo? O público foi informado de maneira clara? A peça apenas representa uma mensagem ou tenta produzir a impressão de que o candidato está falando de verdade? A discussão não é apenas jurídica. É também ética.

Para as eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras específicas para o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral. Segundo o TSE, conteúdos sintéticos produzidos ou significativamente alterados por IA, textos, áudios, vídeos ou imagens, devem informar de maneira explícita, destacada e acessível que foram gerados ou modificados por essa tecnologia.

A regulamentação também busca impedir a disseminação de conteúdos fabricados ou manipulados para divulgar fatos falsos ou descontextualizados capazes de prejudicar o equilíbrio das eleições.

Outra regra estabelece restrições à publicação, republicação e ao impulsionamento pago de novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por inteligência artificial no período de 72 horas antes do pleito até 24 horas depois da votação. O TSE prevê ainda a retirada imediata de conteúdos que descumpram as normas, sem impedir a aplicação de multa.

Essas regras representam um avanço, mas não encerram o debate. A tecnologia se movimenta com velocidade maior do que a legislação. Um vídeo pode ser criado em poucos minutos, circular por diferentes plataformas, alcançar milhares de pessoas e desaparecer antes que uma decisão judicial seja tomada.

Por isso, a pergunta sobre o avatar de Bolsonaro não deve ser tratada apenas como uma disputa entre grupos políticos. Ela revela um desafio que poderá atingir qualquer candidatura, qualquer partido e qualquer eleitor.

Na Índia, os deepfakes também foram usados para explorar a força simbólica de figuras públicas. A reportagem da emissora australiana ABC News mostrou o caso de Muthuvel Karunanidhi, importante político e ator indiano morto em 2018. Em um vídeo produzido com inteligência artificial, ele aparece como se estivesse vivo, fazendo elogios ao filho e atual líder político de Tamil Nadu, MK Stalin.

A imagem tinha forte poder de persuasão. Não se tratava apenas de uma montagem desconhecida, mas da simulação de uma liderança respeitada, cuja voz e trajetória poderiam influenciar eleitores. A mesma reportagem relatou a circulação de um vídeo com a voz manipulada do ator Aamir Khan, como se ele criticasse o governo e declarasse apoio a um partido de oposição. O próprio ator esclareceu que não havia feito aquela manifestação.

O caso mostra que a IA pode ser usada para fabricar apoios, criar ataques e produzir declarações falsas com aparência de autenticidade.

Na Indonésia, o uso da inteligência artificial apareceu de uma forma diferente. Em reportagem publicada pela Reuters, o candidato Prabowo Subianto foi apresentado em materiais de campanha como uma versão cartunizada, de aparência simpática e juvenil. O personagem foi utilizado em outdoors, camisetas, adesivos e publicações nas redes sociais. A estratégia ajudou a construir uma nova imagem pública para um político mais velho e com uma trajetória associada a uma postura nacionalista. A tecnologia foi empregada para aproximar o candidato de eleitores jovens.

Esse caso mostra que nem todo uso eleitoral de IA é um deepfake destinado a mentir. Há situações em que a inteligência artificial é utilizada para construir uma identidade visual, suavizar a imagem de um candidato ou torná-lo mais atraente para determinado público.

A questão passa a ser, até que ponto essa estratégia é apenas comunicação e quando começa a fabricar uma personalidade que não corresponde à realidade?

Nos Estados Unidos, um dos episódios mais graves da eleição de 2024 envolveu uma ligação automática com a voz clonada do então presidente Joe Biden.

Eleitores democratas de New Hampshire receberam uma mensagem que imitava a voz de Biden e sugeria que não comparecessem às urnas na eleição primária. A orientação era falsa e tinha potencial para desestimular a participação eleitoral. O caso foi noticiado pela Reuters e pela Associated Press e tornou evidente que a clonagem de voz pode ser utilizada não apenas para atacar um candidato, mas para afastar eleitores do processo democrático.

A mensagem não precisava convencer todos os cidadãos. Bastava alcançar uma parte do eleitorado, especialmente pessoas que confiassem na voz reproduzida.

Na Romênia, as eleições também foram marcadas por denúncias e investigações relacionadas à influência externa e à circulação de conteúdos digitais. A reportagem da BBC sobre o caso mostra que a ameaça à democracia não se resume a vídeos falsos ou avatares.

Há também redes coordenadas, perfis artificiais, propaganda disfarçada, manipulação de tendências e campanhas destinadas a criar a impressão de que determinado candidato ou ideia possui apoio popular maior do que realmente tem. Essa observação é importante, nem toda notícia falsa é produzida por inteligência artificial, e nem todo uso de IA é necessariamente uma fraude. O que precisa ser analisado é a intenção, a transparência, o contexto e o efeito provocado sobre o eleitor.

Na Argentina, a inteligência artificial também entrou no ambiente político por meio de imagens, vídeos e conteúdos produzidos para favorecer ou atacar grupos e candidatos.

A plataforma de checagem Chequeado acompanhou a circulação de vídeos falsos de políticos nas eleições argentinas e registrou a presença de conteúdos enganosos no debate eleitoral.

A experiência argentina reforça uma constatação, a disputa eleitoral acontece também pela construção de narrativas. A inteligência artificial apenas amplia a velocidade, o alcance e a aparência de veracidade dessas narrativas.

Os exemplos de diferentes países revelam uma mudança profunda. Já não basta perguntar se uma imagem é verdadeira. É preciso perguntar ‘Quem produziu esse conteúdo?’; ‘A pessoa retratada autorizou o uso da imagem e da voz?’; ‘Existe identificação clara de que houve uso de inteligência artificial?’; ‘A informação foi confirmada por fontes independentes?’; ‘O vídeo apresenta uma proposta ou tenta provocar medo e indignação?’; ‘O conteúdo chegou por um canal oficial ou por perfis anônimos?’; ‘A mensagem estimula a participação ou tenta afastar o eleitor das urnas?’

A responsabilidade não pode ser atribuída apenas às plataformas, aos partidos ou à Justiça Eleitoral. O cidadão também possui um papel decisivo. Antes de acreditar, é preciso verificar. Antes de compartilhar, é preciso parar. Antes de julgar alguém, é preciso procurar a fonte. Em muitas situações, o melhor gesto democrático pode ser não encaminhar uma mensagem.

O uso da inteligência artificial nas campanhas políticas ainda está formando seus limites. As leis procuram acompanhar as mudanças, os tribunais analisam casos concretos e as plataformas anunciam mecanismos de controle. Mas nenhuma regra será suficiente se a sociedade perder a capacidade de discernir.

A democracia depende de eleições livres, mas também de cidadãos capazes de reconhecer manipulações. Depende do direito à informação, mas também do compromisso de não transformar a mentira em instrumento de convencimento.

O avatar pode falar. A voz pode ser clonada. O rosto pode ser reproduzido. A cena pode parecer verdadeira. Mas a decisão continua sendo humana.

E é justamente por isso que a educação política precisa ensinar não apenas a votar, mas a observar, questionar, verificar e participar com responsabilidade. Em tempos de imagens fabricadas, cuidar da verdade é uma forma de proteger a liberdade.

Fontes:
Brasil

– Tribunal Superior Eleitoral — regras sobre o uso de IA na campanha eleitoral de 2026 – https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Abril/por-dentro-das-eleicoes-conheca-as-regras-sobre-uso-de-ia-na-campanha-eleitoral-de-2026

– BBC News Brasil — Os “Bolsonaros de IA” que fazem campanha até contra Flávio nas redes sociais https://www.bbc.com/portuguese/articles/cedjgylxd2no

– UOL — O avatar de Bolsonaro é uma brecha nas regras eleitorais das redes?
https://www.uol.com.br/tilt/colunas/carlos-affonso-de-souza/2026/07/27/o-avatar-de-bolsonaro-e-uma-brecha-nas-regras-eleitorais-das-redes.htm

Estados Unidos

– Reuters — Fake “Biden” robocall tells New Hampshire Democrats to stay home
https://www.reuters.com/world/us/fake-biden-robo-call-tells-new-hampshire-voters-stay-home-2024-01-22/

– Associated Press — New Hampshire investigates fake Biden robocall
https://apnews.com/article/new-hampshire-primary-biden-ai-deepfake-robocall-f3469ceb6dd613079092287994663db5

Índia

– ABC News — Como partidos políticos indianos usaram deepfakes contra adversários  https://www.abc.net.au/news/2024-05-30/how-ai-is-disrupting-india-election-campaign/103899138

Indonésia

– Reuters — A IA generativa pode mudar as eleições: a experiência da Indonésia
https://www.reuters.com/technology/generative-ai-faces-major-test-indonesia-holds-largest-election-since-boom-2024-02-08/

Argentina

– Chequeado — Vídeos falsos de políticos foram protagonistas nas eleições de 2025
https://chequeado.com/ultimas-noticias/los-videos-falsos-de-politicos-hechos-con-ia-fueron-protagonistas-en-las-elecciones-2025/

Romênia

– BBC — Suspeitas de interferência russa nas eleições romenas
https://www.bbc.com/news/articles/c7vee5n5lp0o

Imagem de capa: gerada pela IA e publicada em https://www12.senado.leg.br/radio/1/noticia/2026/02/23/ia-nas-eleicoes-tse-debate-regras-contra-deepfakes-e-desinformacao

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O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras. Siga nosso instagram https://www.instagram.com/encantarapolitica/