Pular para o conteúdo
Home » Notícias e Artigos » Bispos do Brasil fazem apelo à paz, à democracia e à defesa da vida

Bispos do Brasil fazem apelo à paz, à democracia e à defesa da vida

imagem criada por IA

Bispos do Brasil fazem apelo à paz, à democracia e à defesa da vida

Vívian Marler / Projeto Encantar a Política

Reunidos no Santuário Nacional de Aparecida, entre os dias 15 e 24 de abril de 2026, durante a 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), os bispos católicos do Brasil divulgaram uma mensagem ao povo brasileiro na qual reconhecem sinais de esperança, mas também alertam para o avanço da violência, da fome, das desigualdades, da corrupção, da crise climática e das ameaças à democracia. Inspirados pelo Evangelho e sob o chamado à construção de uma sociedade mais justa e solidária, os bispos defendem a proteção da vida, os direitos dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, a dignidade do trabalho, a participação cidadã e o cuidado com a Casa Comum.

No contexto do ano eleitoral, a CNBB convida os brasileiros a participarem conscientemente da vida pública, rejeitando a compra de votos, a desinformação e qualquer instrumentalização da fé. A mensagem também reafirma a esperança cristã e convoca o povo a construir uma única família humana, fundada na justiça, na verdade, na solidariedade e na paz.

Abaixo a carta na integra, que também, pode ser lida no pdf contido neste link Mensagem-ao-Povo-Brasileiro-1

” MENSAGEM AO POVO BRASILEIRO

62ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil

“Bem-aventurados os que promovem a paz,
pois eles serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).

Nós, bispos católicos do Brasil, reunidos no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, de 15 a 24 de abril de 2026, por ocasião da 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, dirigimos ao povo brasileiro nossa saudação fraterna, iluminados pela luz de Jesus Ressuscitado. Nestes dias, refletimos sobre a missão da Igreja no Brasil, sobre sua presença na sociedade, próximos das alegrias e esperanças, das tristezas e angústias do nosso povo.

Neste tempo pascal, celebramos com gratidão os sinais de esperança que já podem ser vistos. A amizade social, a economia solidária, a responsabilidade com os mais pobres, a valorização da soberania e da democracia, a promoção da cidadania e a incondicional defesa da vida, desde a concepção até a morte natural, passando por todos os direitos humanos e sociais, são sementes que florescem em nossas comunidades. Contudo, a alegria da Páscoa abre os nossos olhos para perceber, também, os sinais de morte em nossos dias.

Vivemos tempos de incertezas e sofrimentos. Persistem guerras, violências, fome e destruição em muitas partes do planeta, protagonizadas, muitas vezes, pelas grandes corporações e seus interesses. Como afirmou recentemente o Papa Leão XIV, “o mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos”. Também em nosso país, coexistem dinâmicas de destruição da vida do povo. O narcotráfico, as milícias e o crime organizado produzem um regime cotidiano de violência que vai muito além dos confrontos armados. Eles controlam territórios e enfraquecem a autoridade legítima das instituições. Nas periferias, a população passa a viver entre a ausência do Estado e a presença de poderes paralelos. Igualmente no campo, o quadro é grave, diante de situações historicamente injustas.

As mulheres estão ameaçadas por violências que vão: da agressão física, sexual e psicológica ao controle econômico; da humilhação cotidiana à violência contra a gestante; das desigualdades no salário e na renda à perseguição digital, ao assédio e à tentativa de expulsá-las dos espaços de poder. Crescem os casos de feminicídio. O quadro é ainda mais grave porque a mulher pobre, negra, periférica, indígena ou rural costuma enfrentar não só a violência, mas também a omissão institucional, a banalização social da dor e a cultura que a relativiza.

A Assembleia Geral da ONU reconheceu o tráfico transatlântico de escravizados como o “crime mais grave contra a humanidade”. O Brasil ainda não enfrentou corajosamente o racismo e nossa história tem uma dívida que exige reparação. Nas comunidades tradicionais, as disputas pela terra, pela água e por território produzem sofrimento, medo, expulsões e tragédias.

A grave crise ética tem, na corrupção, a ferida mais profunda. Ela abala a confiança da população, desvia recursos que deveriam servir aos mais pobres e fragiliza a qualidade de nossa democracia, já marcada por sinais preocupantes de desgaste. Por isso, é necessário defender com firmeza as instituições republicanas, os órgãos de controle, a justiça, a transparência e a responsabilidade na vida pública, pois são instrumentos indispensáveis para a proteção do bem comum. As relações promíscuas entre o público e o privado, inclusive promovidas por autoridades, impactam a política e não podem ficar impunes.

Preocupa-nos a discussão no Supremo Tribunal Federal sobre a substituição de contratos de trabalho regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) por vínculos precários de prestação de serviços, conhecidos como “pejotização”. Onde desaparece o Estado, vigora a lei do mais forte. Da mesma forma, é necessário reafirmar o direito sagrado ao repouso, oferecendo escalas de atividades que permitam aos trabalhadores melhor qualidade de vida e mais tempo com as suas famílias.

Em um ano eleitoral, o Brasil necessita, ainda mais, de diálogo paciente, espírito público e compromisso com o que é mais importante para a vida do povo. Em outubro deste ano, encorajamos o povo brasileiro a participar efetivamente da festa da democracia e exercitar conscientemente a cidadania como o melhor mecanismo para a solução dos desafios nacionais. Importam tanto as eleições para o Poder Executivo como para o Poder Legislativo, especialmente diante da necessidade de um parlamento que enfrente as causas estruturais da pobreza e crie condições de uma educação de qualidade, de moradia digna e de acesso à saúde para todos. É importante combater a compra e a venda de votos. Como sabemos, “o voto não tem preço, tem consequência”. É fundamental escolher bem os candidatos, com propostas concretas a serviço dos mais vulneráveis, da justiça socioambiental e da vida. Da mesma forma, em tempos eleitorais, a relação entre religião e política deve respeitar as diferenças entre ambas e impedir qualquer instrumentalização. A liberdade religiosa sofre quando são atacadas as tradições religiosas.

Nesse contexto, torna-se urgente proteger a verdade dos fatos, a integridade do debate público e a legitimidade do processo eleitoral, especialmente diante da disseminação organizada de desinformação, da manipulação do medo, dos discursos de ódio, do uso abusivo de novas tecnologias e dos recursos da inteligência artificial. A corrosão da convivência democrática enfraquece a sociedade e fere a verdade. Por isso, renovamos nosso apelo à caridade e à ética, especialmente no campo da comunicação.

Urge enfrentar os extremos climáticos que atingem todos os biomas, especialmente a Amazônia, com seus povos, suas florestas e suas águas, ecossistema que afeta todo o planeta. Não podemos sacrificar a natureza e as pessoas em nome de modelos de exploração que negam o bem viver. Toda a Casa Comum sofre com a devastação.

Dirigimos ainda nossa atenção aos povos indígenas e comunidades tradicionais, como os quilombolas e os ribeirinhos brasileiros. Eles continuam ameaçados por iniciativas que desconsideram sua história, sua identidade e seus direitos originários, por propostas legislativas inconstitucionais que procuram enfraquecer a proteção dos seus territórios. Nenhuma solução legítima poderá ser construída sem escuta verdadeira, participação e respeito a esses povos.

Somos peregrinos de esperança e caminhamos firmes, na certeza de que o Senhor percorre os caminhos conosco. Não podemos deixar que retirem a nossa coragem. Os desafios existem para que os enfrentemos, com temores e incertezas que lá estão, mas sempre com alegria, fé e confiança no povo brasileiro.

Nossas alegrias e esperanças são a nossa força! A Igreja faz memória dos 800 anos da morte de São Francisco de Assis. Por ele inspirados, renovamos o nosso compromisso de ser instrumentos da paz e do bem. Assim, exortamos o povo brasileiro a construir uma só família humana, fundada na justiça, na verdade e na solidariedade. Sob o manto protetor de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Mãe e Padroeira do Brasil, invocamos a bênção de Deus sobre toda a nação brasileira.

Aparecida – SP, 24 de abril de 2026

Dom Jaime Cardeal Spengler
Arcebispo da Arquidiocese de Porto Alegre – RS
Presidente da CNBB

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo da Arquidiocese de Goiânia – GO
1º Vice-Presidente da CNBB

Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa
Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife – PE
2º Vice-Presidente da CNBB

Dom Ricardo Hoepers
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Brasília – DF
Secretário-Geral da CNBB”

…………..
Se você gostou deste artigo inscreva-se no canal do WhatsApp https://whatsapp.com/channel/0029VbDXXZ4LI8YcEhonar3m
O projeto ‘Encantar a Política’ tem a proposta de compreender a política como serviço ao bem comum, ensino social, à dignidade humana e à defesa da Casa Comum. É uma iniciativa inspirada na Doutrina Social da Igreja e nas encíclicas Fratelli Tutti entre outras. Siga nosso instagram https://www.instagram.com/encantarapolitica/